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No dia 20 de setembro de 1968, por volta das 11h:30, eu estava apresentando o meu programa “EB FAZ O SUCESSO”, na Rádio Rural. De repente, e de forma brusca, a porta do estúdio foi aberta e entraram Elias Pinto, David Moraes e Hindemburgo Moura, todos eles demonstrando estarem nervosos e com pressa. David, era meu amigo; com Elias Pinto sempre mantive excelente relacionamento, principalmente porque nunca fui ligado a partidos políticos; o Hindemburgo eu conhecia há bastante tempo. Pois bem, Elias Pinto aproximou-se de mim, dizendo:
– “Ercio, eu quero que anuncies que farei uso do microfone desta rádio para convidar o povo para, junto comigo e o Veloso, invadirmos o prédio da Prefeitura, para que eu reassuma o cargo de prefeito”.
– Respondi: – “Elias, infelizmente, não posso fazê-lo, pois é necessário autorização de um dos diretores da rádio”.
Imediatamente, o Hindemburgo retirou o microfone de cima da mesa e o entregou ao Elias, dizendo em voz alta:
– “Não conversa muito, fala logo!
Elias, então, de posse do microfone disse:
– “Aqui quem está falando é o Elias Pinto, e convoco os meus amigos ´barra limpa`, da cidade e das colônias para participarmos juntos de uma passeata” …
Não foi possível eu escutar o restante do pronunciamento, porque deixei os três no estúdio e fui ao recinto onde estava o ´controlista de som` (se não estou enganado, era o Silvério) e pedi a ele que eliminasse o som do microfone, deixando no ar apenas som musical, o que imediatamente foi feito, sem que os “invasores” percebessem, pois o Elias continuava falando. Voltei ao estúdio no momento em que o citado político encerrava a sua “proclamação ao povo”. Depois, o trio saiu silenciosamente. Reiniciei a apresentação do meu programa, comunicando aos ouvintes a ocorrência do fato, ressalvando que a Rádio Rural não tinha qualquer envolvimento de apoio à anunciada invasão da Prefeitura. O certo é que quase nada do que Elias Pinto falou foi levado ao ar.
Após algumas horas, Elias Pinto, ao lado de Veloso, tomou a frente dos populares (cerca de 2 mil pessoas, exaltadas e convictas de um desfecho vitorioso) e liderou uma passeata num trecho de cerca de dois quilômetros rumo à Prefeitura Municipal. O Governador Alacid Nunes enviou policiais militares a Santarém, sob o comando do Delegado Lauro Viana, com ordens expressas para impedir, de qualquer maneira, que se aproximassem da Prefeitura. Diante de soldados armados inclusive com metralhadoras, dispostos a tudo no cumprimento das ordens de seus superiores, os manifestantes desarmados não tiveram como reagir. O pânico foi geral, duas pessoas foram mortas e várias ficaram feridas, inclusive o próprio Veloso, que teve um ferimento de baioneta, causando sua morte por infecção, alguns meses mais tarde. Confesso que sempre considerei Elias Pinto como um grande líder e admirável orador, que empolgava multidões e tinha como inspiração de suas lutas o seu amor por Santarém e o seu povo. Foi um dos homens que mais influíram na história política da Pérola do Tapajós e, apesar disso, até hoje nenhuma homenagem póstuma lhe foi tributada em forma de monumento, de denominação de uma escola, de uma rua, o que representa uma tremenda injustiça. Mas, isso não faz apagar o seu nome da memória de quem o conheceu e o admirou, e o “
Barra Limpa”, como era carinhosamente chamado, certamente continua vivo no coração dos santarenos.”
(Ercio Bemerguy, no seu blog O Mocorongo, em importante e emocionante relato histórico sobre os acontecimentos que vivenciou e há 41 anos marcaram para sempre os santarenos. Meu pai marchou ao lado de Elias Pinto e Haroldo Veloso.)
Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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