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Nos últimos dias o mundo descobriu o Marajó. Pessoas e ongs que não sabem sequer aonde fica o arquipélago no mapa brasileiro deitam falação em vídeos e postagens nas redes sociais. Mas jamais mexeram um músculo para ajudar as mais de quinhentas mil almas que ali vivem. No arquipélago marajoara estão os municípios com pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil e do planeta: Melgaço, Curralinho e Santa Cruz do Arari. O ranking considera três pilares fundamentais: renda (possibilidade de viver com dignidade), saúde (esperança de vida ao nascer e mortes precoces por dificuldade no acesso à saúde, tratamentos, medicamentos e vacinas, por exemplo) e educação (taxas de alfabetização, escolarização e grau de instrução).

Conheço o Marajó há mais de quarenta anos, inicialmente Salvaterra e Soure, onde passei férias inesquecíveis com minha família. No início, talvez pela própria idade, só via beleza e encantamento. As paisagens nesses municípios são de tirar o fôlego, os frutos e produtos artesanais, maravilhosos. Depois, em razão do jornalismo, comecei a enxergar as mazelas: as doenças endêmicas, o desemprego, a falta de oportunidade para jovens e adultos, a ausência de saneamento básico. Pude conhecer mais municípios e a gente marajoara. Ouvi suas histórias, crenças, lendas, conhecimentos ancestrais transmitidos de pais/mães a filh@s. Li seus escritores. Algumas das centenas de teses de mestrado e doutorado inspiradas na região. E comecei a me perguntar o porquê de tanta pobreza em um lugar tão deslumbrante e com imenso potencial de desenvolvimento a partir do turismo e do extrativismo. E a razão de as teses acadêmicas não serem implementadas a fim de melhorar a qualidade de vida daquela população.

A partir dos anos 2000 tomei conhecimento da pedofilia, do abuso e da exploração infantojuvenil, do tráfico humano e outros horrores contra seres vulneráveis, que de forma alguma são traços culturais e sim crimes que acontecem em qualquer parte do mundo. Dom José Luis Azcona, o corajoso bispo-profeta, reconhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos humanos, depois de décadas de denúncias foi ouvido pela Assembleia Legislativa do Pará, pelo Senado e pela Câmara Municipal de Belém, que instituíram CPIs destinadas a apurar os crimes sexuais cometidos contra essas crianças e adolescentes, envolvendo políticos e empresários poderosos. Passada a polêmica e comoção em 2009, a maioria dos criminosos continua livre, leve e solta, e as vítimas, acuadas, escondidas, para sempre feridas e marcadas física, espiritual e psicologicamente. Exemplo emblemático da impunidade é o ex-deputado Luiz Afonso Sefer, que mesmo tendo sido condenado definitivamente pelo STJ a mais de 21 anos de reclusão por ter encomendado uma criança de 9 anos e dela abusado sexualmente, com requintes de perversidade, durante quatro anos em sua própria residência, até hoje aproveita a vida nababescamente, carrega a imagem de Nossa Senhora de Nazaré e faz discursos ao lado do clero, na época do Círio, enquanto aguarda o transcurso de seus 70 anos, a fim de então requerer a prescrição da punibilidade.

Não é aceitável que falem ou escrevam sobre o Marajó sem permitir que os marajoaras sejam protagonistas de seu próprio destino. Trata-se de realidade complexa que não pode ser abordada de orelhada. É preciso ir ao Marajó, não a passeio e sim com olhar atento, compreender o modo de vida, suas especificidades, ouvir os marajoaras, seus anseios e sonhos, investir em suas vocações naturais.

O Marajó é tão perto que em 15 minutos dá para fazer a travessia da baía em uma lancha off shore com saída da ilha do Mosqueiro, em Belém. Mas isso é só para muito poucos. A maioria absoluta da população tem que viajar no mínimo três horas de Belém para chegar a Salvaterra, o município mais próximo. Afuá fica mais perto de Macapá, a capital do Amapá, do que de Belém do Pará. Breves pode ser alcançada em uma hora de voo comercial ou então em 15 horas de barco. Chegar em Portel é ainda mais penoso e demorado. E as viagens, na verdade, são ainda muito mais longas, dadas as frequentes panes nas velhas embarcações, isto quando não afundam ou incendeiam, embora as passagens sejam caríssimas. Não há sequer estatística dos acidentes e número de vítimas de naufrágios, muito menos as famílias são indenizadas.

 Pelas imensas distâncias amazônicas, tudo no Marajó é mais caro e mais difícil. E assim, ao longo dos séculos, a região foi abandonada pelo poder público, em condições abaixo da linha da pobreza.

Os mais de meio milhão de marajoaras convivem com altos índices de violência contra crianças, adolescentes, jovens, mulheres e idosos. O tráfico de armas, drogas e de seres humanos grassa. É rota internacional, mas não há postos das Forças Armadas em proteção à soberania nacional. As pessoas não têm registro de nascimento, RG, CPF e CTPS. A maioria da população é analfabeta e sobrevive com os parcos recursos dos benefícios sociais. Não há defensores públicos e promotores de justiça em todos os municípios para garantir acesso à cidadania, embora este seja um direito constitucional. O atendimento itinerante sacrifica os membros da Defensoria e do Ministério Público e é ineficaz.

Por outro lado, grilagem de terras, desvio do curso de rios e pulverização de agrotóxicos em larga escala estão contaminando o solo, os cursos d’água e o ar e condenando a população à miséria e cada vez mais doenças, além do aumento de nascimento de bebês com deformidades e moléstias graves.

O Marajó, abandonado historicamente, sofre muito pela ausência de suporte básico aos seus cidadãos, de políticas públicas, de uma rede de proteção efetiva. São tantas e tamanhas as violações de direitos, e pouco, muito pouco, para gente que precisa demais de ajuda, mas ela tem que ser permanente, não só ações pontuais.

Assistam ao vídeos de Thiago Barros e Isabel Santos, dois marajoaras que vivem em Anajás e podem falar com propriedade da realidade no arquipélago.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, presidente da Academia Paraense de Jornalismo, membro da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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