Publicado em: 26 de agosto de 2025
Ícone do Marajó, Mestre Damasceno – cantor, poeta, trovador, compositor, dramaturgo, roteirista, cenógrafo, figurinista, mestre de carimbó, criador do Búfalo-Bumbá, do Conjunto de Carimbó Nativos Marajoara e do Cortejo Carimbúfalo de Salvaterra –, homenageado como fazedor de cultura na Feira Pan-Amazônica e das Multivozes deste ano, passou ao plano superior, aos 71 anos.
Mestre Damasceno descobriu o câncer no fígado quando a doença já estava em metástase e atingira o intestino e o pulmão. Passou os últimos meses na UTI do Hospital Ophir Loyola, com pneumonia e insuficiência renal. Nesse ínterim, perdeu seu filho Iderlan em um acidente que ceifa muitas vidas marajoaras: ele caiu de um açaizeiro, sofreu múltiplas fraturas e não resistiu. Cego aos 19 anos, por acidente de trabalho, reinventou sua vida através da arte, com base na ancestralidade, nos ritmos da terra e na oralidade, tornando-se referência no carimbó pau e corda, nas toadas marajoaras e nas encenações do Búfalo-Bumbá, e sofreu as dores da sua gente até o final.
Damasceno Gregório dos Santos, o Mestre Damasceno, partiu no Dia Municipal do Carimbó em Belém e na data de aniversário do grande Verequete. No céu dos campos sagrados do Marajó, tem carimbó.
Nascido em 1954, na Comunidade Quilombola do Salvá, em Salvaterra, no arquipélago do Marajó (PA), Mestre Damasceno é uma das maiores referências do carimbó, das toadas e da poesia oral na região. Colocador de boi desde 1973, sua trajetória foi registrada no livro “Mestre Damasceno e as Cantorias do Marajó”, organizado pelo jornalista Antônio Carlos Pimentel Jr., ilustrado por Mandy Modesto, fruto da dissertação de mestrado do produtor cultural, fotógrafo e cineasta Guto Nunes. Em 2013, na sua terra natal, houve o lançamento oficial do DVD “Mestre Dasmasceno – O Resplendor da Resistência Marajoara“.
Foram mais de cinco décadas dedicadas à valorização das manifestações tradicionais marajoaras. O Búfalo-Bumbá de Mestre Damasceno mescla teatro popular, cultura quilombola e elementos da natureza amazônica, e ele mesmo escrevia os roteiros, desenhava os figurinos e dirigia as apresentações, criando um universo cênico profundamente enraizado nas experiências das comunidades quilombolas da região.
Deixa mais de 400 composições autorais e seis álbuns gravados, tanta questão ele fez de manter vivas as tradições ensinadas por seus ancestrais.
Em maio deste ano, o grande ícone marajoara foi agraciado com a Ordem do Mérito Cultural, a mais alta honraria do Ministério da Cultura, outorgada pessoalmente pelo presidente Lula e pela ministra Margareth Menezes.
Mestre Damasceno fundou o Conjunto de Carimbó Nativos Marajoara, em 2013. O grupo carrega a estética e o som das raízes marajoaras em produções que mantêm viva a tradição, mas também dialogam com a contemporaneidade.
Seu engajamento vai além da música: em 2012, idealizou o espetáculo Búfalo-Bumbá, que reinterpreta o auto do boi a partir da identidade marajoara. Também criou o Cortejo Carimbúfalo, que reúne música e encenação em cortejos de rua, e o Festival de Boi-Bumbá de Salvaterra, que celebra os “colocadores de boi” das comunidades locais, valorizando o saber coletivo e a tradição passada de geração em geração.
A relevância deste gigante da cultura tradicional do Pará é imensa.
Em 2023, foi homenageado pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, no Carnaval do Grupo Especial do Rio de Janeiro, e desfilou na avenida no carro alegórico “Bufódromo”.
No mesmo ano recebeu a Comenda Eneida de Moraes, concedida pela Secult e teve sua obra declarada patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Pará, pela Lei nº 10.141/2023. Também recebeu a Medalha de Mérito Cultural e Patrimônio de Belém (Medalha Mestre Verequete) e o título honorífico de Cidadão de Belém, pelos relevantes serviços prestados à Amazônia e especialmente à capital, em sessão na Câmara de Belém. Em fevereiro de 2024, foi empossado imortal na Academia Marajoara de Letras, que fundou. E em 2025 samba-enredo de sua autoria (e em parceria) ecoou no carnaval do Rio de Janeiro, pela escola Acadêmicos do Grande Rio, e desfilou em carro alegórico.
Em agosto do ano passado, a foto espetacular de Jerome Brouillet (AFP) captou o surfista Gabriel Medina “flutuando” no ar nas ondas tubulares de Teahupoo, no Taiti, e virou o meme das Olimpíadas. Em versão imbatível, Mestre Damasceno entrou na trend e, com um búfalo-bumbá no lugar da prancha, postou sua releitura do meme nas redes sociais.
O Pará inteiro e, de modo especial, a gente marajoara, rende tributo ao querido mestre. Nossa solidariedade e afeto à sua família que, mais do que a decretação de luto oficial, precisa ser amparada pelo governo do Pará.


Fotos: Sandro Barbosa
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