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Zélia Amador de Deus morreu nesta terça-feira (8), aos 74 anos, no Pará. Professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), antropóloga, atriz e diretora de teatro, ela foi uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e uma das vozes que puxaram para o centro do debate nacional a existência, a história e as demandas da população negra amazônida.

Nascida em 24 de outubro de 1951, no território quilombola de Mangueiras, em Salvaterra, no Marajó, ela era filha de Doralice Amador, empregada doméstica que a teve aos 15 anos. Cresceu criada pelos avós maternos, Francisca Amador de Deus, lavadeira, e Manuel Faustino de Deus, pedreiro em obras de saneamento, na Sacramenta, bairro da periferia de Belém.

Foi da avó que veio a frase que atravessaria a vida inteira e abriria, décadas depois, o livro que ela publicaria sobre a própria trajetória. “Ninguém é melhor do que tu”, dizia dona Francisca. Em entrevista ao g1 publicada em 2018, Zélia contou a mesma lição em outra formulação. “Eu me safei pela educação. Lembro muito bem da minha avó me dizendo, tu és preta, mas não baixa tua cabeça.”

Estudou em escolas públicas durante todo o ciclo básico, passou pelo Externato Santo Expedito, pelo Instituto Catarina Labouré e pelo Instituto de Educação do Pará. Tinha facilidade com matemática e dava aulas às colegas em troca do dinheiro da passagem de ônibus.

O racismo apareceu cedo e de forma direta. Aos nove ou dez anos, ofereceu-se para uma apresentação de dança na escola e ficou de fora da seleção. “Aos nove, dez anos foi quando senti o que é ser preta. Eu gosto muito de dançar, então me ofereci para uma apresentação que ia ter na escola. Mas entre as meninas eu não havia sido escolhida e questionei isso com a professora. Ela me disse que iam ser só as ‘meninas mais ajeitadinhas’. E eu não era desajeitada, entende?”, relembrou.

A atuação política começou antes da graduação. Zélia participou da Cruzada Mariana e do grupo de jovens da Paróquia São Sebastião, entrou no movimento estudantil secundarista e esteve entre as fundadoras da Frente de Ação Secundarista Paraense (Faspa), criada em 1968, ano de endurecimento da ditadura civil-militar no Brasil e de grandes mobilizações estudantis pelo mundo. Passeatas, ocupações e assembleias marcaram aquele período. Integrou a Ação Popular (AP) até a organização se fundir com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, em seguida, o VAR-Palmares em Belém.

No início dos anos 1970 entrou na UFPA, onde se formou em licenciatura plena em Língua Portuguesa em 1974. Fez especialização em Teoria Literária na própria universidade, em 1978, e tornou-se professora do curso de Artes. O mestrado em Estudos Literários veio pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pesquisa sobre a obra de Dalcídio Jurandir, escritor negro nascido no Marajó. O doutorado em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia, foi defendido na UFPA em 2008 e teve como objeto justamente aquilo que ela vinha construindo na prática: o acesso e a permanência de estudantes negras e negros no ensino superior.

Entre 1993 e 1997 foi vice-reitora da UFPA, cargo que usou para levar as demandas do movimento negro à mesa em que se decidiam as políticas da universidade.

No fim dos anos 1970, ativistas negras e negros da Amazônia começaram a tratar a questão racial fora das chaves da democracia racial e da mestiçagem. Foi desse ciclo de encontros que nasceu, em 1980, o Cedenpa, entidade que se tornou referência de organização política não apenas no Pará, mas em toda a região.

Pelo Cedenpa, Zélia atuou na defesa do reconhecimento e da titulação de terras quilombolas parauaras. O ativismo negro do qual fazia parte inscreveu na Constituição Estadual de 1989 o artigo 322, que reconhece as terras de quilombo no estado, e o artigo 336, que prevê medidas compensatórias para pessoas discriminadas no mercado de trabalho.

Na UFPA, ajudou a fundar o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) e o Grupo de Estudos Afro-Amazônico (GEAM), voltado à pesquisa e à extensão sobre as especificidades das culturas e identidades negras na Amazônia.

Em 2001, Zélia integrou a comitiva brasileira na 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Durban, na África do Sul, onde esteve entre as oradoras. A delegação voltou ao país com uma pauta que mudaria o ensino superior brasileiro: o sistema de cotas nas universidades públicas.

A cobrança se transformou em política pública ao longo da década seguinte e chegou à Lei nº 12.711, de 2012, a Lei de Cotas, cuja construção ela acompanhou de perto. Nas universidades, a formulação de ações afirmativas foi o campo em que ela mais insistiu, por entender que a desigualdade racial se reproduz por acúmulo.

A condição das mulheres negras ocupou lugar central na obra e na militância. Para ela, raça, gênero e classe se sobrepunham nessa experiência sem se anular. “Mesmo que a mulher negra supere a questão da classe social, ela continua sendo mulher e continua sendo negra”, afirmou na mesma entrevista.

Em 2020, pela editora Autêntica, Zélia reuniu artigos e conferências em “Caminhos Trilhados na Luta Antirracista”, livro apresentado por Nilma Lino Gomes e aberto pela frase da avó. Nos oito textos, ela discute a construção do negro como problema pela educação formal, retoma categorias caras à antropologia como corpo e cultura e trabalha em diálogo com Abdias do Nascimento, Frantz Fanon, Beatriz Nascimento, Kabengele Munanga, Aimé Césaire e Michel Foucault.

A imagem que organiza o livro vem de Ananse, a aranha tecelã das narrativas de matriz africana, e serviu à autora para descrever a diáspora como reelaboração, não como perda. Contra a tese de um vazio negro na Amazônia, ela escreveu que na região “as manifestações de africanidade rasgam o tecido cultural branco que se quer hegemônico e fluem, vêm à tona, sem pedir licença ao senhor branco”.

Sua produção está ao lado da de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Thereza Santos, Virgínia Bicudo, Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, entre as principais intérpretes negras do Brasil.

Ao longo da carreira, Zélia recebeu o título de Cidadã de Axé da Afaia, em 2004, o reconhecimento da Adufpa pela consolidação do sindicato dos docentes e o título de Honra ao Mérito do Conselho Estadual de Segurança Pública, ambos em 2014, e a Comenda Mãe Doca, da Assembleia Legislativa do Pará, em 2015. Em 2021 foi premiada no Human Rights Award da BrazilFoundation.

Foi a intelectual negra homenageada no VIII Congresso Nacional de Pesquisadores Negros e Negras, em 2014, e a escritora homenageada na 23ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, em 2019, mesmo ano em que a UFPA lhe concedeu o título de professora emérita. A vida dela virou curta-metragem, “Amador, Zélia”, produzido pela Floresta Urbana, e enredo de carnaval da escola de samba Os Colibris, de Belém, que levou a história dela para a avenida em 2022.

A última homenagem pública aconteceu menos de um mês antes da morte. Em 18 de agosto de 2026, Zélia participou do plantio de um baobá em sua homenagem no Campus Guamá da UFPA, árvore escolhida pelo que representa em diferentes culturas africanas sobre ancestralidade, memória e transmissão de saberes entre gerações.

“Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós. Estou muito emocionada e só tenho a agradecer por esta homenagem”, disse ela na cerimônia.

O reitor da UFPA, Gilmar Pereira da Silva, falou na ocasião sobre o peso dela na história recente da instituição. “Eu não tenho dúvida da importância da Zélia para esta universidade. A UFPA é o que é hoje, com todos os seus desafios, também porque houve pessoas que tiveram coragem e determinação para transformá-la”, afirmou.

“Falta empatia. Se colocar no lugar do outro. Conhecer verdadeiramente a história do país. Entender nossa identidade. E isso vem através da educação, com o que trabalho pela vida inteira.”

Hoje o Marajó, o Pará, a Amazônia e o mundo choram de saudade de professora Zélia, que ancestralizou e será sempre sinônimo de raiz, de teia e de travessia. Axé, Zélia Amador de Deus!

Foto em destaque: Alexandre de Moraes / UFPA

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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