0
 

Os dados oficiais da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará e do Tribunal de Justiça do Estado apontam cenário assustador em Santarém. Só entre janeiro e junho deste ano, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher registrou mais de mil ocorrências de violência de gênero contra mulheres, e quatro delas culminaram com morte. Foram 535 casos de lesão corporal no âmbito da violência doméstica, quase o dobro dos 351 casos contabilizados no mesmo período do ano passado. Apenas nos primeiros sete meses de 2026, aconteceram cinco feminicídios, com forte comoção em julho, mês em que três desses crimes ocorreram em um intervalo de menos de 20 dias. Além das vidas ceifadas, houve diversas tentativas de feminicídio. O pior é que não se pode perder de vista a subnotificação: esses índices pavorosos ainda são menores do que a realidade. Nas comunidades mais distantes, entre matas, rios e igarapés, as mulheres sucumbem, espancadas, humilhadas, feridas, mutiladas e assassinadas, na maioria das vezes por seus parceiros. Ou ex.


A magnitude do problema impacta diretamente a rede do Sistema de Justiça local: entre janeiro e julho de 2026, a Vara de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher em Santarém recebeu nada menos do que 1.873 pedidos de medidas protetivas de urgência — uma média aproximada de 270 solicitações por mês. Tramitam na comarca cerca de 900 processos penais ativos ligados a agressões físicas, ameaças, lesões corporais, descumprimento de MPUs e feminicídios.


O aumento nos registros reflete dois movimentos concomitantes: a persistência da violência de gênero e o fortalecimento de canais de denúncia (como a DEAM, a Patrulha Maria da Penha / Pró-Mulher Pará e os serviços via 180/190). Quando o atendimento especializado se expande, o “muro do silêncio” é rompido e mais mulheres buscam amparo judicial.


Afora isso, os desafios geográficos amazônicos são imensos. Santarém engloba extensas áreas ribeirinhas, periurbanas e rurais, o que impõe barreiras severas ao deslocamento de vítimas em situação de vulnerabilidade e retarda a chegada da força policial preventiva antes que uma agressão física culmine em tragédia.


Embora haja esforços com ações integradas (Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, OAB, Defensoria Pública e Poder Judiciário), o volume de demandas evidencia a necessidade contínua de ampliação dos equipamentos de acolhimento institucional (casas-abrigo), apoio psicológico e autonomia econômica para romper o ciclo de dependência e violência doméstica.


Uma grande manifestação está sendo organizada por órgãos públicos, instituições de justiça, entidades de defesa dos direitos das mulheres e organizações da sociedade civil para a noite do próximo dia 15, em repúdio à escalada de feminicídios e todos os tipos de violência contra as mulheres, dentro da campanha Agosto Lilás, com o tema “Sua denúncia salva uma mulher”.


Toda a sociedade está convidada. A concentração será às 17h, na Praça Tiradentes, e uma caminhada seguirá pela Av. Tapajós até a Praça do Pescador, com ações de orientação, conscientização e incentivo à denúncia de casos de violência.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

Ensaio sobre a Ilíada e a Odisseia

Previous article

Ânima em Belém no Teatro do Sesi

Next article

You may also like

More in Mulher

Comments