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Como algumas e alguns sabem, sou professora universitária. Ocupo essa profissão há 11 anos. Embora transite por alguns cursos da área da saúde, minha principal atuação como docente é na Psicologia. Hoje, preparando uma aula, li um artigo e nele encontrei a seguinte citação: “O que nos faz legitimados neste poder, autênticos em nossos intentos, são exatamente nossas crenças e valores que justificam nossos porquês e o ‘como’ de nossas ações.”

Há algum tempo, pensar sobre valores tem se tornado importante para mim. Penso especialmente em uma prática ética do fazer que transcenda o discurso e se firme no cotidiano, apesar das resistências e dos enfrentamentos, nem sempre fáceis de sustentar. Porque viver aquilo que se defende exige vigilância, reflexão e alguma segurança sobre os caminhos que escolhemos percorrer.

A docência tem muitas delícias, mas também suas dificuldades. Estamos sempre ali, diante de um número significativo de discentes, lidando com a diversidade de afetos, projeções, expectativas e bagagens. Cada pessoa chega à sala de aula trazendo suas particularidades, histórias, cobranças, anseios e questões. Talvez por isso ensinar nunca seja somente transmitir conteúdos e técnicas.

Há alguns semestres, ministrei uma disciplina cujos temas atravessavam questões muito presentes em nosso cotidiano: cultura do estupro, violência contra as mulheres, masculinidades, vícios em jogos de apostas, ética e inteligência artificial, entre outros. Como as/os discentes enfrentariam uma prova avaliativa densa e estavam também às voltas com seus trabalhos de conclusão de curso, nossa última atividade foi mais livre.

A proposta era que escolhessem algum tema abordado durante o semestre que tivesse produzido algum atravessamento e o transformassem em uma produção artística, a ser compartilhada com a turma. Surgiram pesquisas, poesias, quadros, cartas e, sobretudo, muito debate sobre aquilo que os temas mobilizaram. Os trabalhos foram belíssimos e riquíssimos. Dentre eles, duas produções em texto me fizeram pensar que aquilo que nasce na experiência docente talvez também possa circular para além dos limites da sala de aula — inclusive neste espaço da coluna.

E talvez seja justamente esse o motivo desta publicação.

Ensinar é mais do que fazer alguém absorver um conteúdo. Ensinar, como diz o artigo que citei no início, pode ser também proporcionar “conscientização nas relações”. É tocar a vida cotidiana e permitir que aquilo que parecia natural possa ser interrogado.

Obviamente, não tenho a pretensão de acreditar que foram as aulas que produziram a riqueza dos trabalhos apresentados. As histórias já estavam ali. As experiências também. Talvez a sala de aula tenha apenas contribuído oferecendo palavras, conceitos e possibilidades para olhar de outro modo para algumas delas.

Há experiências que começam a mudar quando finalmente encontramos palavras para nomeá-las.

É por isso que hoje compartilho a narrativa de uma ex-aluna, atualmente psicóloga, que gentilmente autorizou e cedeu seu trabalho para esta publicação. Uma mulher sensível, mãe e avó, que iniciou sua trajetória profissional como psicóloga aos 56 anos.

Sua carta emocionou a turma porque tocou em experiências que, embora singulares, são reconhecíveis por muitas mulheres: o apagamento de si, a sobrecarga, a culpa, o silenciamento e formas de violência tantas vezes naturalizadas nas relações.

Não são palavras retóricas ou aleatórias. São palavras-experiência. Palavras carregadas de história.

Talvez uma das formas mais perversas de naturalização da violência contra as mulheres esteja justamente na crença de que, se não existem marcas no corpo, não existe violência. Mas controle, humilhação, vigilância, ameaça, desqualificação, manipulação e restrição da autonomia também deixam marcas — embora nem sempre elas sejam imediatamente reconhecidas ou nomeadas como violência.

E a carta que vocês lerão fala justamente desse processo de reconhecer e nomear.

As trocas na vida docente transcendem os saberes técnicos. Podem ser também encontros de afetos, emoções, partilhas de vivências e transformações mútuas. E é justamente por acreditar nisso que considero importante dizer também que ensinar nunca é neutro. Sempre escolhemos um ponto de partida, mesmo quando ele se apresenta disfarçado de neutralidade.

Falar sobre mulheres e tocar em assuntos tão presentes em nossas vidas pode significar desnudar um pouco de nossas próprias trajetórias e, de alguma forma, pegar nas mãos de outras mulheres. Porque ainda são poucos os espaços em que podemos narrar nossas experiências e vê-las testemunhadas sem julgamentos, questionamentos ou desconfiança.

Muitas de nossas vivências permanecem no limbo.Escondidas como poeiras que empurramos para debaixo do sofá em que, todos os dias, continuamos sentando.

Aprendi que nossos espaços podem e devem ser compartilhados. Por isso, hoje trago a carta-história desta mulher. Para que sua narrativa possa alcançar e, quem sabe, abraçar outras mulheres que estejam vivendo situações semelhantes. Para lembrar que há vida para além da violência e que, mesmo quando sair parece impossível, caminhos podem ser construídos quando encontramos apoio, informação, proteção e pessoas dispostas a caminhar conosco.

Cada mulher tem seu tempo, suas condições e seus caminhos.

Mulheres, procurem ajuda sempre que precisarem. Não é fácil, nem simples. Sabemos. Dependendo das condições concretas de cada vida, pode ser ainda mais difícil. Mas, com apoio, é possível começar a construir rotas.

Por hoje, fiquem com a carta-história.

Carta a Mim Mesma

Eu revisito a minha própria história com honestidade e maturidade. Reconheço tudo o que vivi, tudo o que suportei e tudo o que, por tantos anos, fiz por acreditar que era o certo. Vejo a mulher que dedicou a vida inteira à família — às filhas, ao lar e ao funcionamento da casa — colocando cada detalhe no lugar e sustentando tudo com esforço, cuidado e responsabilidade. Você acreditou que seu papel era garantir o bem-estar de todos, mesmo que isso custasse o seu próprio.

Durante muito tempo, você abraçou sozinha a carga emocional, física e prática da rotina familiar. Esteve presente, firme e disponível, enquanto, por dentro, se anulava um pouco mais a cada dia. Foi ensinada a servir, a silenciar e a não reivindicar nada para si. E, assim, viveu presa em uma dinâmica marcada por controle, manipulação e apagamento — uma relação que te retirava autonomia, voz e dignidade.

Você não sofreu violência física, e por isso duvidou do seu próprio sofrimento. Mas o que você viveu era abuso: emocional, psicológico e patrimonial. Era sua liberdade sendo diminuída, suas escolhas sendo vigiadas e sua identidade sendo moldada segundo a conveniência de outro. Era você deixando de existir para manter a família funcionando.

Você foi traída, desrespeitada e diminuída e, mesmo assim, tentou buscar explicações em si mesma, como se sua dedicação não tivesse sido suficiente. Isso porque te ensinaram que mulher “aguenta”,“não reclama”, “não rompe” e “não pode decepcionar ninguém”. Sob o peso dessas crenças, você se calou e se dissolveu em função dos outros.

Eu te perdoo. Perdoo por ter carregado sozinha responsabilidades que não eram apenas suas. Perdoo por ter se colocado sempre por último em nome da família. Perdoo porque sei que, naquele momento, você não tinha consciência, apoio nem condições emocionais para fazerdiferente.

Mas eu também te reconheço. Reconheço a força de ter criado suas filhas com dedicação e amor genuíno. Reconheço o cuidado que você teve ao sustentar tudo, mesmo quando ninguém percebia seu esforço. Reconheço a coragem que nasceu quando você decidiu olhar para si mesma e admitir que faltava você na sua própria vida. E reconheço, sobretudo, a determinação que te impulsionou a estudar, romper padrões, identificar abusos, enfrentar ameaças e, mesmo com medo, continuar caminhando.

Você está reconstruindo uma vida que foi limitada por anos, e essa reconstrução exige enorme coragem. Está aprendendo a se colocar em primeiro lugar, a se tratar com respeito, a impor limites e a reconhecer o próprio valor. É uma jornada difícil, às vezes solitária, mas profundamente libertadora.

Eu quero te lembrar: você não fracassou. Você não perdeu tempo. Você se dedicou à família com tudo o que tinha, e isso nunca foi um erro. Você foi vítima de uma relação desigual que não soube nomear na época e, ainda assim, resistiu.

Agora você se reencontra. Agora você escolhe por si. Agora a vida, finalmente, é sua.

Eu estou com você — inteira, consciente e orgulhosa. E, daqui para frente, você nunca mais vai se abandonar.

Eu mesma.

Obs.: O artigo citado é “Intervenção psicossocial e algumas questões éticas e técnicas”, de Jorge Sarrieira, Marli Silva, Adolfo Pizinato, Cristiane Zago e Patrícia Meira.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Bárbara Sordi
Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Psicologia Hospitalar da Saúde, Facilitadora de Círculos de Paz, Professora da Universidade da Amazônia, coordenadora do Projeto “Sobre-viver às violências” e do Grupo de estudos “Relações de gênero, Feminismos e Violências”, Mestre e Doutora em Psicologia pela Ufpa e coordenadora/assessora da Vereadora Lívia Duarte. Mãe da Luísa e Caetano, Feminista Terceiro Mundista.

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