Publicado em: 28 de julho de 2026
Era próximo do Círio de Nazaré em Belém do Pará. A cidade pulsava entre carros, turistas, ônibus, restaurantes cheios e o aroma de maniçoba invadia o ar em todo lar. Sendo o Círio de Nossa Senhora de Nazaré considerado o “natal” dos paraenses a cidade se transforma em um verdadeiro palco onde toda a população nativa vira personagem de seus próprios milagres.
Para se ter idéia, Kumbh Mela na Índia em 2013, peregrinação que reuniu em um só dia trinta milhões de pessoas, perdia para a quantidade de gente empurrando seus carrinhos em um supermercado. Muita gente comprando mantimentos para o almoço do Círio, garantindo assim o seu lugar no céu. Mais no céu da boca do que propriamente no paraíso.
Um programa de incentivo ao trabalho de pessoas com deficiência foi muito bem aceito e realizado por uma determinada rede de supermercados na cidade, que integrava com dignidade e efetividade pessoas que até pouco tempo atrás viviam sem opção e sofriam com a discriminação por serem consideradas “incapazes” de exercer funções, o que configurava um equívoco terrivelmente nocivo para essas pessoas, que na esmagadora maioria trabalham e obtêm resultados positivos melhores que muitas pessoas típicas.
Havia estacionado meu carro após exaustivos 38 minutos de peregrinação. De tanto rodar por sete vezes no estacionamento atrás de uma vaga, já me sentia em Meca e estava quase desistindo quando uma vaga surgiu.
Subi pela rampa dos carrinhos para evitar a escada congestionada de gente e quase fui atropelado por alguma coisa que passou por mim e nem vi direito me fazendo pensar até ser Louis Hamilton levando o carrinho até sua Ferrari. Finalmente cheguei ao coliseu, digo, salão do supermercado. Era uma mistura de Torre de Babel com Serra Pelada. Vários idiomas sendo falados por pessoas e filas intermináveis nos caixas.
Convencido de que seria uma tarefa árdua, porém necessária, eu aceitei o desafio pois já havia me preparado horas a fio. Dentre os itens que deveria comprar estavam jambu, trigo, arroz, frango, pato, azeite de oliva, cheiro verde, limão e zahtar (tempero árabe que para achar o cliente precisa falar com a secretária do dono do supermercado às vezes.
Cada vez que eu colocava as coisas no meu carrinho o cachorrinho preso em um compartimento num carrinho de uma senhora ali perto, latia. Na terceira vez que coloquei um produto eu comecei a perceber que era só eu colocar alguma coisa no carrinho para o cachorro latir. Percebi ainda na minha neurose pré-círio supermercadiana que de acordo com que eu colocava os produtos o cachorro latia uma vez ou duas vezes. Dependia do produto. Não sabia se aquilo era um sinal divino me apontando para não comprar alguma coisa, mas, como saber se o sim era representado por um latido ou por dois? Já estava perdendo um pouco as faculdades mentais de tanto pensar nesse fato aleatório. Mas voltei minha atenção para as compras e o desejo de sair do martírio daquele Érebo.
Elevando meu pensamento a Maria, padroeira dos paraenses, a fleuma se manifestou e pude de forma racional escolher um pouco no ana-bú-bú-bú, a fila para pagar.
Foi nesse momento que pude ver o funcionário que embalava as compras em um dos 26 caixas do supermercado. Olhei bem e reconheci que era um surdo muito simpático e extremamente eficiente que trabalhava lá, eu já havia percebido em outras vezes sua eficiência. Enquanto um embalador normalmente embalava as compras de um carrinho, ele embalava de três ou quatro, tamanha a presteza e boa vontade. Era um surdo sinalizado e não oralizado. Foi quando começou o meu problema, pois o surdo que é oralizado faz a leitura labial e o sinalizado, em libras. Eu, no altar da minha ignorância, sem saber libras, achava que era o mesmo que fazer mímica.
Mudei de fila quando identifiquei aquele rapaz sorridente, que ria com os olhos, cabelo bem curto quase raspado, braços fortes e estatura mediana. Logo ao chegar na boca do caixa, levantei a mão em sinal de cumprimento e fiz um sinal com as pontas dos dedos da mão viradas para cima, unindo e abrindo sequencialmente dizendo em sinais que estava lotado. Ele prontamente fez o mesmo em resposta. O bip acelerado do código de barra de cada produto parecia um metrônomo de tão rápido que a moça do caixa passava os produtos. Fiz um sinal com as mãos para identificar o bolo e o pão, e a cada produto eu tentava identificar o grau de cuidado no armazenamento. O rapaz sempre colocava as mãos no peito como quem diz: “deixe comigo! Estou acostumado!” e eu feliz naquele momento, pois via a agilidade daquele rapaz. Quando chegaram os ovos eu fiz o sinal para ele, fechando os braços, levantando os cotovelos e os bati contra a cintura, me agachando algumas vezes rapidamente para indicar que se tratava de ovos e para que ele mantivesse o cuidado de separar. Para minha vergonha ele não estava olhando, mas o pessoal da fila ao lado viu a cena e começou a rir disfarçadamente. Foi a primeira vez que senti raiva e vergonha ao mesmo tempo.
Fiz o sinal de quem dirige e passa a marcha do carro para o rapaz apontando para o subsolo onde estava meu carro. O rapaz fez sinal de positivo com ambas as mãos e saiu voando. Descobri que era ele o Louis Hamilton do início da história. Fui atrás daquele rapaz entregue ao labor como uma abelha guerreira e eu me sentindo a rainha da colmeia.
Ao chegar no carro, nem bem acionei o destravamento pela chave o rapaz abriu o porta mala, arredou meu violão com imenso carinho que chegou a me emocionar. Arrumou as compras todas de maneira impecável, sem me dar tempo de ajudar.
Pedia em silencio que a vida daquele bom rapaz fosse iluminada e que tudo na vida dele fosse pleno de sucesso e amor. Fiquei tão emocionado com a cena que tirei cinquenta reais da carteira e ao final do trabalho daquele bondoso rapaz, com os olhos marejados, ali mesmo no estacionamento, eu disse:
– Muito obrigado
– ”De nada Senhor!” disse o rapaz para meu espantoso choque, em alto e bom som!
Antes de gritar Milagre! eu, assustado pela cena, perguntei a ele:
– Você não é surdo?
– “Não”, disse ele me perguntando de volta:
– O senhor não é surdo!?
– “Claro que não!!!” eu respondi, assustado, com vergonha e quase rindo.
– O senhor começou a falar comigo com mímica e eu pensei em me esforçar para ajudar o senhor a se comunicar.
Eu havia confundido os embaladores, que eram muito parecidos. O surdo estava dois caixas depois e eu não percebi.
Ele pegou os cinquenta reais e antes de ir embora me disse rindo nervoso que estava matutando para tentar me desejar em mímica, Feliz Círio.
Entrei no carro, fiquei uns dez minutos olhando para o nada e agradecendo a Maria de Nazaré por aquele quase milagre.
Fui embora para casa.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista







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