Publicado em: 23 de agosto de 2026
O cinema tem o poder de devolver ao presente aquilo que julgávamos pertencer ao passado, fazendo com que personagens antigos adquiram rosto, voz, movimento e humanidade diante de nossos olhos. Odisseia é um catalisador para retornar à narrativa de Ulisses e, sobretudo, para uma pergunta que atravessa sua história: o que significa voltar para casa depois de termos sido transformados pela própria viagem?
Ao acompanhar Ulisses diante do mar, das perdas, das tentações e da longa distância que o separa de Ítaca, percebi que a antiga epopeia continua falando de uma experiência humana profunda. O filme abre um portal no tempo para o velho Homero, mas também para nossas próprias viagens, ausências, cicatrizes e retornos. O velho poema nos ajuda a pensar que Ítaca é muito mais do que uma ilha situada no horizonte de um homem que deseja regressar. Ela pode ser a imagem daquele lugar interior que procuramos durante toda a vida. Foi desse encontro entre cinema e literatura, entre a viagem de Ulisses e as nossas próprias errâncias, que brotou este texto.
Sempre achei curioso que Ulisses tenha precisado de tantos anos, tantos monstros, tantos naufrágios e tantos deuses para descobrir aquilo que, em condições normais, qualquer homem razoavelmente sensato descobriria sem sair de casa: voltar para casa é uma tarefa muito mais complicada do que partir.
Partir é simples. Basta fechar a porta, levar alguma coisa consigo e acreditar, com a confiança característica dos que ainda não conheceram suficientemente a vida, que sabem para onde estão indo. O problema começa quando o caminho se prolonga, as coisas dão errado e perceamos que o mundo possui uma extraordinária capacidade de modificar nossos planos.
Ulisses saiu de Ítaca um homem e retornou outro. Entre uma coisa e outra, encontrou monstros, feiticeiras, sereias, tempestades e homens que, ao que parece, tinham problemas bastante sérios com estrangeiros. Mas o mais perigoso de tudo não estava nas ilhas, mas na possibilidade de esquecer por que havia começado a viagem.
É isso que mais me interessa na história de Ulisses. Ele não luta somente para sobreviver, mas para não perder a lembrança de quem é. Nós reconhecemos essa luta porque, quando partimos em alguma viagem para longe de nós mesmos, também passamos por lugares onde quase nos tornamos outra pessoa. Essas aventuras nos deformam lentamente. Elas ocorrem, por exemplo, em relações que nos fazem duvidar de nós mesmos; em desejos que entram em nossa vida vestidos de felicidade.
Há ainda aquelas pequenas concessões que parecem insignificantes, mas que, acumuladas durante anos, conseguem produzir uma criatura perfeitamente desconhecida diante do espelho. Olhamos para o espelho e perguntamos: sou eu? O espelho, que não costuma ter piedade, responde silenciosamente: sim.
Esse é o primeiro sinal de que precisamos voltar para Ítaca. As sereias de Homero também me parecem muito familiares. Elas não precisam mais cantar no meio do mar. Hoje encontramo-las em toda parte, nas promessas fáceis, nas opiniões prontas, na necessidade de aprovação, na vaidade, na comparação permanente com os outros e nessa estranha obrigação moderna de demonstrar felicidade mesmo quando a alma está cansada. Ulisses sabe que precisa ouvir sem se entregar, e considero essa uma das maiores disciplinas da existência: escutar o mundo sem permitir que o mundo decida quem somos, ainda que precisemos nos proteger amarrados a um mastro, como fez Ulisses.
Depois existe Calipso, que oferece aquilo que tantos homens passam a vida procurando: conforto. E por isso ela é perigosa. Algumas prisões não precisam de correntes. Possuem jardins, boa comida e uma cama confortável. O que as torna prisões é o fato de que, dentro delas, deixamos de desejar a liberdade. Ulisses poderia permanecer, mas não permanece. Ele prefere uma Ítaca imperfeita à eternidade de uma vida que não lhe pertence.
Essa escolha me parece profundamente humana, porque a vida verdadeira nunca nos oferece garantias. Oferece perdas, riscos, contradições e, vez ou outra, alguma alegria que não sabemos explicar. Ainda assim, continuamos. Há uma dignidade silenciosa em desejar aquilo que é nosso, mesmo quando aquilo que é nosso está longe de ser perfeito.
Quando Ulisses finalmente retorna, acontece uma coisa extraordinária: ele precisa ser reconhecido. Isso também conheço. Em alguns momentos voltamos para pessoas, lugares ou para nós mesmos e descobrimos que ninguém parece saber exatamente quem somos, porque já não somos os mesmos. O tempo tem essa inconveniência: transforma tudo enquanto, distraídos, fingimos que está apenas passando. Ítaca permaneceu. Ulisses mudou. É essa a maior ironia do retorno. Passamos anos desejando voltar exatamente ao lugar de onde partimos e, quando conseguimos, descobrimos que não existe mais aquele lugar, mas apenas aquilo que restou dele dentro de nós.
Por isso, compreendo que Ítaca é a imagem de um lugar interior que permanece em nós quando todas as outras coisas mudam. É aquilo que reconheço como meu depois que o mundo retirou de mim algumas certezas. É a parte de mim que sobrevive às viagens, aos erros, às perdas e às sucessivas versões que fui inventando para conseguir continuar. Voltar para Ítaca não significa voltar ao passado, mas parar de fugir de mim. E há nisso uma certa comicidade, quase digna de Gógol: passei tanto tempo procurando respostas em lugares distantes, consultando pessoas, acumulando experiências, tentando compreender o mundo, quando o problema estava sentado tranquilamente dentro de mim, esperando que eu finalmente tivesse a delicadeza de lhe dirigir a palavra.
Ulisses levou anos para voltar. Eu compreendo sua demora. Algumas casas ficam muito longe quando o caminho até elas passa pelo próprio coração. E, quando finalmente chegamos, percebemos que a verdadeira viagem não nos levou para outro lugar. Ela nos devolveu a nós mesmos.
Há uma felicidade singular em reencontrar no cinema um poema que, durante séculos, pareceu destinado ao silêncio das bibliotecas e à consulta dos especialistas e dos dicionários de mitologia. A Odisseia é uma obra de leitura muito exigente, povoada por deuses, mares, monstros, genealogias e histórias que se abrem dentro de outras histórias. É preciso tempo para atravessá-la. O cinema oferece outra porta de entrada: a palavra transforma-se em imagem, o mar ganha movimento, Ítaca adquire uma paisagem, Ulisses um rosto, Penélope uma presença e Telêmaco uma juventude marcada pela ausência do pai. A antiga epopeia volta, assim, a respirar diante de nossos olhos.
Existe uma felicidade própria em toda releitura: descobrir que o texto permaneceu enquanto nós mudamos. O poema é o mesmo, porém o leitor já atravessou outras experiências, conheceu outras perdas, amou de outras maneiras. Entre uma leitura e outra existe uma vida inteira. As palavras permanecem; o olhar se transforma. É nesse intervalo entre o livro e aquele que o lê que uma obra antiga pode nascer novamente.
A Odisseia é o poema de um homem que regressa. Ulisses atravessa mares, ilhas, palácios e perigos movido pelo desejo de chegar novamente a Ítaca. Sua viagem possui, contudo, uma dimensão interior. Depois de encontrar monstros, feiticeiras, deuses e homens, depois de sobreviver à fome, à sedução, à solidão e à tempestade, precisa reencontrar também o homem que partiu. O retorno geográfico conduz a um retorno mais profundo: aquele que acontece dentro da consciência.
Todos temos algo de Ulisses. A vida nos conduz por muitos caminhos e nos transforma durante a caminhada. Partimos em busca de alguma coisa, encontramos pessoas, fazemos escolhas, perdemos outras possibilidades e acumulamos lembranças. O tempo acrescenta experiências à nossa identidade. Em determinado momento, percebemos que existe uma distância entre aquilo que fomos e aquilo que nos tornamos. Surge então o desejo de compreender novamente quem somos.
Ítaca nasce nesse momento. É a ilha para onde Ulisses deseja retornar, a casa onde Penélope permanece, o lugar onde Telêmaco cresceu e a paisagem que guarda a memória do herói. Ao mesmo tempo, Ítaca é uma imagem da nossa própria interioridade. Cada pessoa possui um lugar íntimo onde permanecem suas primeiras lembranças, seus afetos fundamentais e as experiências que deram forma à sua identidade. Retornar a esse lugar significa recuperar uma relação com aquilo que em nós permaneceu essencial.
A Telemaquia acrescenta a essa viagem uma dimensão profundamente humana. Telêmaco cresce com a ausência do pai e precisa partir em busca de notícias dele. Sua procura modifica a relação consigo mesmo. Ao procurar o pai, começa a compreender sua própria história e a ocupar o lugar que lhe pertence. A ausência de Ulisses produz uma busca que transforma o filho. Assim acontece também conosco quando alguém que amamos desaparece de nossa vida ou quando percebemos que uma pessoa importante se afastou de si mesma. Procuramos o outro e, durante a procura, encontramos partes esquecidas de nós.
Algumas pessoas assumem esse papel em nossa existência. Elas guardam uma memória nossa durante os períodos em que nos afastamos de nós mesmos. Conhecem gestos, palavras, sonhos e características que o tempo pode esconder. Quando nossa própria percepção se torna confusa, essas pessoas conservam uma imagem que nos ajuda a reconhecer o caminho. Seu amor funciona como uma espécie de memória exterior, uma lembrança viva daquilo que ainda podemos ser.
Penélope representa outra forma de amor: a permanência. Durante os anos da ausência de Ulisses, ela permanece em Ítaca, administra a casa e enfrenta os pretendentes que desejam ocupar o lugar do marido. Sua estratégia do tear revela uma inteligência paciente. Durante o dia, tece a mortalha de Laertes; durante a noite, desfaz parte do trabalho. O tempo, que poderia destruí-la, transforma-se em instrumento de resistência.
O amor de Penélope é paciência, fidelidade e astúcia. Ela sabe esperar porque sabe o que está preservando. Sua espera também é ação. Ela calcula, protege e sustenta uma decisão. Enquanto Ulisses atravessa o mundo, Penélope mantém Ítaca viva. Sua fidelidade cria uma ponte entre o passado e o futuro e conserva aberta a possibilidade do retorno.
Ulisses, por sua vez, atravessa a viagem graças à inteligência. Polifemo, Circe, Calipso e as sereias colocam diante dele diferentes formas de perigo e sedução. No episódio das sereias, ele deseja ouvir o canto e pede aos companheiros que o amarrem ao mastro. Conhece sua vulnerabilidade e estabelece um limite para continuar a viagem. A cena traz uma lição sobre a condição humana: reconhecer uma fraqueza pode ser o primeiro gesto de sab বহুমsabedoria.
Entre todas as imagens da Odisseia, a cicatriz de Ulisses possui uma força especial. Euricleia reconhece o herói quando toca a marca em sua perna. O corpo conserva uma história antiga e revela a identidade daquele homem depois de muitos anos. A cicatriz estabelece uma passagem entre dois tempos: o jovem Ulisses, ferido durante uma caçada, e o homem que retorna a Ítaca depois de uma longa errância.
Erich Auerbach percebeu a importância dessa passagem e dedicou a ela um dos ensaios mais conhecidos de Mimesis, intitulado “A cicatriz de Ulisses”. Auerbach observa como Homero interrompe o momento presente para narrar a origem da cicatriz, conduzindo o leitor de volta à juventude de Ulisses antes de fazê-lo retornar ao instante do reconhecimento. O passado aparece dentro do presente. A memória deixa de ser lembrança distante e torna-se parte da cena que estamos testemunhando.
A cicatriz possui, assim, uma força que ultrapassa o episódio narrado. Ela representa a maneira como o tempo permanece inscrito em nós. O corpo de Ulisses carrega uma história que a passagem dos anos não conseguiu apagar. A ferida tornou-se cicatriz e a cicatriz tornou-se identidade. Euricleia reconhece o homem porque reconhece sua história.
Também carregamos nossas próprias cicatrizes. Algumas pertencem ao corpo; outras vivem na memória, nos hábitos, nos medos, nos gestos e nas escolhas. Uma perda modifica nossa maneira de olhar para o mundo. Um encontro pode mudar nossa direção. Uma despedida pode permanecer durante décadas. O tempo transforma essas experiências, mas conserva suas marcas. A cicatriz é uma espécie de memória silenciosa.
Por isso, a cicatriz de Ulisses é uma das imagens mais poderosas da epopeia. Aquilo que pertence ao passado continua presente no corpo. O homem que deseja ocultar sua identidade é revelado justamente por uma marca que não pode apagar. Euricleia toca sua perna e reconhece quem está diante dela. O corpo pronuncia aquilo que o personagem ainda não pode dizer.
Penélope também precisa reconhecer Ulisses. O tempo modificou o rosto do homem que partiu, e o reconhecimento acontece através de um segredo íntimo: o leito construído em torno da oliveira. A cicatriz revela Ulisses a Euricleia; a memória compartilhada revela Ulisses a Penélope. Em ambos os casos, a identidade aparece através de um sinal pertencente à história vivida.
Essa passagem possui uma beleza comovente porque mostra como o amor reconhece. O rosto envelhece, o corpo muda, a vida transforma as circunstâncias. Permanecem determinados gestos, palavras, segredos e lembranças que pertencem somente àqueles que compartilharam uma história. O amor conhece esses sinais. Ele sabe reconhecer uma pessoa através daquilo que o tempo conservou.
Telêmaco, Penélope, Euricleia e Ulisses participam, cada um à sua maneira, do processo de retorno. Telêmaco procura, Penélope espera, Euricleia reconhece, Ulisses regressa. São movimentos diferentes de uma mesma experiência humana: perder, procurar, lembrar, reconhecer e voltar.
Essa experiência também pertence à nossa vida. Há períodos em que partimos em busca do mundo e esquecemos a casa interior. Há momentos em que alguém nos procura e nos ajuda a lembrar quem somos. Existem pessoas que permanecem esperando por nós, conservando uma memória que julgávamos perdida. Há também cicatrizes que, muitos anos depois, nos devolvem a uma história que ainda vive em nós.
É por isso que a Odisseia continua tão próxima. Homero escreveu sobre um mundo povoado por deuses, mas suas perguntas pertencem aos homens de todos os tempos. O que acontece conosco durante uma longa ausência? Como o tempo modifica nossa identidade? O que permanece depois das perdas? Como reconhecer alguém que mudou? Como retornar depois de termos percorrido caminhos que transformaram nossa maneira de existir?
A resposta está na própria viagem. Ulisses chega a Ítaca carregando tudo aquilo que viveu. Penélope também atravessou os anos. Telêmaco deixou de ser o menino que esperava pelo pai. A casa permanece, mas todos aqueles que pertencem a ela foram modificados pelo tempo. O retorno acontece entre pessoas transformadas.
Por isso, voltar para Ítaca significa reconhecer o passado dentro do presente; olhar para nossas cicatrizes e compreender que elas fazem parte da nossa identidade. Significa reencontrar as pessoas que conservaram nossa memória durante nossas ausências. Significa aceitar que a pessoa que retorna carrega dentro de si todas as pessoas que existiram durante a viagem.
É também por isso que a Odisseia no cinema possui uma força particular. O poema antigo oferece suas imagens, seus personagens e seus conflitos, e nós completamos a experiência com nossa própria memória. Vemos Ulisses diante do mar e lembramos das nossas partidas. Vemos Penélope esperando e reconhecemos os amores que permaneceram. Vemos Telêmaco procurando o pai e lembramos daqueles que um dia nos procuraram. Vemos a cicatriz de Ulisses e encontramos nossas próprias marcas.
A viagem de Ulisses torna-se, então, uma metáfora da existência. Partimos para conhecer o mundo e, durante a viagem, conhecemos também nossas limitações, nossos desejos e nossos medos. Encontramos pessoas que modificam nossa trajetória. Perdemos outras. Carregamos cicatrizes. Aprendemos a esperar. Aprendemos a procurar. E, depois de muito caminhar, sentimos a necessidade de voltar.
Ítaca está no fim da viagem e também dentro dela. É a memória de quem fomos, a presença daqueles que nos amaram, a marca das experiências que nos constituíram. É o lugar em que conseguimos reconhecer nossa própria história.
Todos temos algo de Ulisses porque carregamos alguma forma de errância. Todos temos nossas telemaquias porque em algum momento precisamos procurar alguém para compreender quem somos. Todos temos algo de Penélope porque conhecemos a espera e sabemos sustentar aquilo que amamos. Todos carregamos uma cicatriz que guarda a história de uma passagem.
E então Ulisses chega a Ítaca. Depois de tantos mares, tantas noites, tantos rostos que desapareceram na espuma, depois de ter atravessado terras estrangeiras e experimentado a solidão dos caminhos, ele pisa novamente na terra onde tudo começou. O mar fica para trás. A longa errância encontra seu termo. Diante dele estão a casa, a oliveira, Penélope, Telêmaco, as marcas do tempo e a própria história esperando para ser reconhecida.
Nesse instante compreendemos que a longa viagem percorreu também a alma. As tempestades pertencem às nossas perdas. As sereias pertencem aos desejos que nos desviaram. Polifemo pertence aos medos que cresceram diante de nós. Circe e Calipso pertencem aos lugares onde permanecemos por algum tempo. Ítaca é o nome daquilo que continua nos chamando através de todas as distâncias.
Todos temos uma Ítaca. Todos carregamos uma cicatriz que o tempo escreveu em nossa carne ou em nossa memória. Todos conhecemos alguma Penélope que permaneceu, algum Telêmaco que nos procurou, alguma Euricleia capaz de reconhecer em nós aquilo que ninguém via. E todos, em algum momento, somos Ulisses, caminhando durante anos por lugares que desconhecemos até compreender que o maior desejo é reencontrar o caminho de casa.
Também nós somos feitos dessas marcas. Somos as pessoas que amamos, as ausências que suportamos, as perdas que nos atravessaram, os sonhos que abandonamos e aqueles que ainda guardamos. Somos as mãos que nos sustentaram quando caímos e as mãos que um dia deixamos de segurar. Somos as palavras que recebemos e aquelas que permanecem dentro de nós. Somos, enfim, a soma misteriosa de todas as viagens que fizemos.
Homero continua vivo. Ele escreveu sobre Ulisses, mas também sobre cada ser humano que parte sem saber exatamente onde chegará e que, depois de atravessar a própria noite, começa a desejar o retorno. O cinema nos devolve essa antiga viagem em imagens, e diante delas descobrimos que o poema continua respirando porque nós continuamos viajando.
Mudaram os navios, desapareceram os deuses, transformaram-se as cidades. O mundo ganhou outras máquinas, outras guerras, outras formas de desejo e outras formas de solidão. Permanecemos nós diante do mar. Permanece a espera, a saudade e a necessidade de ser reconhecido.
Quando finalmente retornamos, compreendemos que Ítaca nunca esteve no horizonte, porque estava em nós. Estava na cicatriz, na memória e no amor daqueles que nunca deixaram de nos reconhecer.
Ítaca está naquele nome que alguém continuou pronunciando enquanto caminhávamos para longe. Ítaca é genial porque ensina que a grande epopeia humana não consiste em conquistar o mundo, mas em atravessá-lo sem perder o caminho de volta para a própria alma.
E quando a última onda do mar recua, quando o mar finalmente se aquieta e o viajante contempla a terra que procurou durante tantos anos, ocorre uma certeza que atravessa também a história de Ulisses: não viajamos para encontrar uma casa. A viagem é para nos tornarmos capazes de reconhecê-la quando chegarmos. Essa casa tem um nome e o seu verdadeiro território é o lugar mais difícil de alcançar: nós mesmos.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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