Publicado em: 13 de junho de 2026
O turismo no Pará atravessa um dos períodos de maior expansão de sua história recente. Em apenas um ano, o estado passou de 1.204.944 visitantes registrados em 2024 para 1.574.766 em 2025, crescimento de 30,6%, segundo dados da Secretaria de Estado de Turismo (Setur) analisados pelo Dieese-PA. O movimento gerou mais de R$ 1,14 bilhão para a economia estadual e consolidou o território amazônico como um dos destinos mais procurados do país.
Os números ajudam a explicar por que o Dia do Turista, celebrado em 13 de junho, ganha significado especial na Amazônia parauara. O aumento do fluxo de visitantes não tem provocado apenas impactos econômicos. Também intensifica o debate sobre quais modelos de desenvolvimento turístico serão fortalecidos nos próximos anos e qual relação os viajantes desejam estabelecer com os territórios que visitam.
A mudança de comportamento é perceptível. Se antes a principal pergunta era sobre os locais a serem visitados, hoje cresce o interesse por experiências capazes de aproximar turistas das histórias, tradições e modos de vida das populações locais.
No Pará, essa demanda encontra um território singular. A gastronomia, os saberes tradicionais, as manifestações culturais e a diversidade ambiental passaram a compor roteiros que vão além da contemplação da paisagem. O tacacá servido nas feiras, o carimbó tocado às margens dos rios, os banhos de cheiro preparados a partir de conhecimentos transmitidos entre gerações e o açaí consumido próximo ao local de coleta transformam-se em experiências que conectam visitantes ao cotidiano amazônico.
Na nossa realidade, iniciativas ligadas ao turismo de base comunitária vêm ganhando espaço ao propor uma relação diferente entre visitante e destino. Em vez de concentrar a atividade em grandes estruturas turísticas, o modelo busca distribuir benefícios econômicos, valorizar saberes tradicionais e fortalecer a permanência das comunidades em seus territórios.
Ao longo de ilhas, praias e comunidades ribeirinhas da Amazônia parauara, moradores têm assumido papel central na recepção dos visitantes, conduzindo experiências que envolvem cultura, gastronomia, memória e preservação ambiental. A proposta parte do entendimento de que o turismo pode gerar renda sem transformar modos de vida em mercadoria ou reduzir territórios a simples cenários de visitação.

Para quem participa dessas experiências, a mudança de perspectiva costuma ser significativa.
“É uma coisa muito bonita do turismo de base comunitária: você não só passa pelo lugar, você conhece as pessoas que fazem aquele lugar existir”, relata Tristan Soledade, viajante que participou de uma experiência realizada na Ilha de Cotijuba.
Segundo ele, a vivência permitiu enxergar a ilha por uma perspectiva diferente da habitual.
“Outra possibilidade de conhecer Cotijuba, com mais troca, mais consciência, valorizando quem faz tudo acontecer ali diariamente”, afirmou ao comentar a experiência, que incluiu contato com artistas locais, produtores e moradores envolvidos na construção cotidiana do território.
A avaliação de Tristan sintetiza um dos princípios que orientam esse modelo de turismo: compreender que a preservação da paisagem está diretamente relacionada à valorização das pessoas que vivem nela.
Entre os projetos que trabalham essa abordagem está a Quase Nativa — Expedição Amazônia Paraense. A iniciativa articula uma rede de comunidades localizadas em territórios como Soure, Pesqueiro, Quilombo de Mangueiras, Cotijuba e Algodoal, conectando experiências turísticas à geração de renda para mulheres negras, ribeirinhas e periféricas.
Há quatro anos, o projeto desenvolve roteiros que percorrem caminhos menos explorados pelos circuitos convencionais do turismo amazônico. A proposta combina intercâmbio cultural, fortalecimento comunitário e práticas associadas ao chamado turismo regenerativo, conceito que defende uma relação capaz de devolver benefícios aos territórios visitados em vez de apenas consumir seus recursos.
A iniciativa também investe na formação de agentes locais. Entre 22 de junho e 3 de julho será realizado o segundo Ciclo de Oficinas Quase Nativa, desenvolvido em parceria com a ONG SER. As atividades ocorrerão em comunidades do Marajó, incluindo Pesqueiro, Caju Una e Quilombo de Mangueiras, além do Ecomuseu da Amazônia, em Belém.
A programação contempla temas relacionados à elaboração de roteiros, afroturismo, recepção de visitantes, preservação ambiental e turismo de base comunitária. O foco está na qualificação de moradores que já atuam diretamente na atividade turística em seus territórios.
A expansão desse modelo acompanha o crescimento do interesse por experiências mais conectadas à realidade local. Enquanto o turismo convencional frequentemente concentra a atenção nos atrativos naturais, iniciativas comunitárias procuram destacar também os conhecimentos, histórias e relações construídas pelas populações que habitam esses espaços.
Para os próximos meses, o projeto prevê uma nova edição da Expedição Amazônia Paraense. O roteiro programado para novembro percorrerá Belém, a Ilha do Marajó e a Ilha de Cotijuba, com atividades conduzidas por anfitriãs locais. A programação inclui experiências ligadas à cultura amazônica, observação da fauna, plantio de mudas e encontros com comunidades que participam diretamente da construção do turismo regional.
Fotos: Ascom Projeto Quase Nativa










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