Publicado em: 13 de setembro de 2026
“Se morreres, ficará / O sol: nada mudará. / Menos um existirá. / Quem amaste esquecerá / Quem te odiou não lembrará. / Tua mãe te chorará / Mas o pranto acabará / Teu pai te lamentará. / E o lamento parará / Teu irmão refletirá / Que como tu morrerá / Tua irmã suspirará, / E a dor no suspiro irá / Tua viúva casará / Ou amante tomará. / Teu filho soluçará / Até que adormecerá. / Por povo que lidará, / Ruas onde o sol dará, / Teu caixão te levará / E alguém te enterrará, / Terra em cima deitará. / Teu corpo descansará. / Se em paz ou não ficará / O Mistério to dirá.”
Este poema cáustico, porém realista, chama-se Treno, e foi escrito por Fernando António Nogueira Pessoa (1888-1935) em novembro de 1908, aos 20 anos de idade, confirmando, já naquela altura, traços de uma personalidade artística única, que desde a adolescência demonstrara uma percepção muito peculiar da aventura humana. Em Pessoa o pessimismo, a melancolia e a angústia foram sempre protagonistas, acompanhando-o da infância à morte precoce em Lisboa, quando contava 47 anos.
“É maio, flores de abril / Já sois o passado… / É maio, flores de junho / Dure em vós o pensamento / Sois apenas um momento / Esperando ser terminado.”
Tais sentimentos, em verdade – pessimismo, melancolia e angústia -, foram fios condutores da vida e da obra do grande poeta português, que forma com Luís de Camões, Florbela Espanca, Eugênio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen, dentre outros, o Olimpo sacrossanto da alma lírica lusitana. E para além deles também o tédio e a nostalgia do que nunca aconteceu mas apenas se imaginou ou desejou; inquietação permanente a desajustar a vida ao mundo, a explodir o peito arfante em versos e palavras, numa torrente poética caudalosa de beleza e estupefação ante os mistérios da existência.
“Ai dos sonhos que sonhamos! / Ai das tristezas que choramos! / Ai do muito e do pouco que somos! / Ai de quem tem coração! / A árvore da ciência só nos deu os pomos / Da desilusão / Ai do que queremos e temos! / Ai dos que perdemos! / Ai mesmo do não termos os lutos / Por ter coração / A árvore da vida só nos deu os frutos / Da solidão.”
Importa registrar que não sou especialista em Fernando Pessoa, nem mesmo um metódico estudioso do seu legado monumental (bem poderia sê-lo). Não, não vou além de um dedicado leitor de poesia, um curioso da sua força e potência, crente fervoroso no poder transcendente que um poema bem lido e percebido tem de esclarecer o que prosa alguma é capaz de elucidar. Prosa é deleite, construção, navegação de longo curso em mar cartografado, embora sujeito a procelas inesperadas. Poesia é espanto, epifania, mar revolto em duro embate contra os rochedos marginais. A vida não se consegue esconder quando o que a revela é a inspiração de um poeta, e nesse particular Fernando Pessoa é dos maiores.
“Inutilmente vivida / Acumula-se-me a vida / Em anos, meses e dias; / Inutilmente vivida, / Sem dores nem alegrias, / Mas só em monotonias / De mágoa incompreendida… / Mágoa sem fogo de vida / Que a faça viva e sentida; / Mas a mágoa de mãos frias / E inaptas para arte ou lida, / Nem p’ra gestos de agonias / Ou mostras de alma vencida. / Nada; inerte e dolorida, / A minha dor se extasia / Por não ser, e tem só vida / Para em torno a noite fria / Sentir vaga e indefinida…”
A figura do consagrado poeta representa uma das mais poderosas expressões literárias da identidade nacional portuguesa, marcada por um romantismo indisfarçado, um carinho especial pelas grandes aventuras, pela grandiloquência das narrativas que as eternizaram, e, ainda, por uma sacralização da saudade, sentimento mitificado que traduz uma forma incontornável de Portugal enxergar-se a si próprio – a saudade lusitana não é um mero olhar ao passado, mas sim um misto de memória, perda e desejo que não é difícil de compreender numa pátria tão pequena geograficamente, mas tão dispersa mundo afora, numa diáspora que a levou a terras tão distantes e díspares quanto América, Ásia e África.
“Não tenho nada p’ra te dizer / Salvo que a vida já não me quer. / Não tenho nada para te ouvir / Para que ouvir-te? Não sei sentir… / Sofro nos sonhos, sofro na vida. / Não tenho norma nem direção… / Levo o cadáver da fé perdida / Para o jazigo da ilusão.”
“Não vivo, mal vegeto, duro apenas, / Vazio dos sentidos porque existo; / Não tenho infelizmente sequer penas, / E o meu mal é ter (alheio Cristo) / Nestas horas doridas e serenas / Completamente consciência disto.”
Esse conjunto de emoções – a cozer no mesmo tacho um ceticismo atroz em relação ao futuro, as lembranças de um passado glorioso que o presente não parece espelhar, e as aflições corolárias da lucidez no existir -, tão latente na consciência coletiva, parece justificar também a multifacetada individualidade pessoana, estilhaçando o ortônimo em heterônimos que, inobstante as dissonâncias que os distinguem, parecem conversar entre si num diálogo que constrói em vez de dispersar, explica em vez de confundir, e acende luzes para clarear os ambientes, sem olvidar que, paradoxalmente, as luzes acesas é que geram as sombras.
“Não toques com um mero olhar sem ver / Um vago virar de olhos p’ra o meu lado / No meu anseio incerto e agoniado, / Na minha consciência de viver. / Deixa meu tédio entregue a não ser nada / E a ser sensível a qualquer olhar / Deixa que eu durma, deixa que eu acabe, / E que a luz nunca venha despertar-me.”
“Quando eu amei não fui amado, / Nem fui amado sem amar. / Todo o meu ser ficou parado / A meditar. / O que eu obtive não queria. / O que queria não obtive. / Egoísta, sim. Mas no aspecto / Nem sempre o mostra, porque é / Muito amigo de si.”
No caso de Fernando Pessoa, seus dilemas foram magistralmente explorados por Alberto Caeiro, direto, empírico e pragmático; Ricardo Reis, contido, clássico e estoico; Álvaro de Campos, dramático e caótico, exageradamente sentimental; e, por fim, Bernardo Soares, onírico por necessidade, existencialmente entediado e taciturno, não por acaso o mais próximo do próprio Pessoa, algo como um semi-heterônimo. Da convivência de todos eles o que resulta é um movimento dialético que parece levar o poeta a constatar que, mesmo em meio a tanta desesperança, mesmo acorrentado nos subterrâneos mais insalubres da psique, é sempre possível acreditar na beleza.
“Não sou nada, / nunca serei nada, / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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