Publicado em: 17 de agosto de 2026
Em 2007, Steven Johnson lançou uma tese provocadora em Tudo o que é ruim é bom para você: haveria uma relação entre a sofisticação da indústria cultural e o aumento do QI das crianças americanas. A ideia ganha força quando quem viveu os anos 1980 ou 1990 revisita certos clássicos do cinema. Histórias que pareciam complexas e arrebatadoras hoje, muitas vezes, soam simplórias.
Quase vinte anos depois, Michel Desmurget apresentou o contraponto em A Fábrica de Cretinos Digitais, reunindo evidências sobre os efeitos negativos do uso excessivo de telas e questionando conceitos como o de “nativos digitais”. Seu argumento parece atual diante de notícias de que roteiristas de plataformas como a Netflix estariam simplificando narrativas porque o público já não teria capacidade para acompanhar histórias complexas.
Então relançam The Mentalist, e a tese balança.
Exibida entre 2008 e 2015, a série tem tramas bem costuradas e uma narrativa que exige atenção. Mesmo assim, ou justamente por isso, conquistou um novo público, inclusive jovens que, segundo certa lógica das big techs, seriam incapazes de se envolver com histórias mais densas.
Isso revela o quanto nós tememos o efeito das tecnologias sobre nossas vidas. Desmurget enfatiza resultados negativos, mas nas próprias referências de seu livro, há resultados que identificam ganhos conforme o tipo e o contexto de uso. Ao mesmo tempo, circulam comparações frágeis sobre um suposto embrutecimento coletivo, como as que afirmam que as pessoas tinham QIs maiores há cem anos.
É plausível que um adolescente de hoje tenha acesso a mais informação e domine mais ferramentas do que adultos de outras épocas, algo só possível na vida urbana.
No entanto, tal reflexão não significa negar os danos do excesso de telas, da distração permanente ou dos algoritmos. Significa recusar explicações fáceis. A tecnologia não nos torna automaticamente mais inteligentes nem mais burros. Tudo depende de como a usamos e do que escolhemos fazer com ela.
Talvez Johnson ainda tenha algo a nos dizer: às vezes, aquilo que parece ruim também pode ser bom para você.
@Netflix lança mais catálogo antigo pra gente comprovar essa tese.










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