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O placar de 4 a 0 sofrido pelo Paysandu diante da Ferroviária, em Araraquara, nesta segunda (17) não pode ser tratado como um simples tropeço de reta final. Foi uma atuação que expôs fragilidades coletivas, falta de competitividade e, sobretudo, a sensação de que o time chegou ao momento decisivo da Série C sem a solidez que uma temporada tão importante exigia. O resultado fez o Papão cair da quarta para a sexta posição, permanecendo com 26 pontos, e reacendeu um alerta que já vinha sendo percebido ao longo da temporada.

É preciso dizer, portanto, que a responsabilidade não pode ser colocada exclusivamente sobre os jogadores ou sobre o técnico Júnior Rocha. Existe um problema de planejamento que precisa ser assumido pela diretoria. O Paysandu começou 2026 com a obrigação de reconstruir um clube que havia sido rebaixado da Série B e com o objetivo de retornar rapidamente à segunda divisão. Ao longo da temporada, porém, o elenco revelou carências que não foram suficientemente corrigidas. E não é a primeira vez que o futebol bicolor enfrenta uma crise dessa natureza: em abril, depois do histórico 7 a 0 para o Nacional-AM, a própria direção falou publicamente em ajustes e em uma “reflexão profunda”.

É verdade que vieram conquistas importantes, como os títulos do Campeonato Paraense, da Copa Norte e da Copa Verde. Eles devem ser valorizados e fazem parte da história da temporada. Mas é necessário estabelecer prioridades. O principal objetivo do Paysandu em 2026 é – ou deveria ser – o Campeonato Brasileiro da Série C. É nessa competição que está em jogo o projeto de reconstrução do clube e o retorno à Série B. Os títulos regionais amenizam a temporada, mas não podem esconder as dificuldades apresentadas pelo time justamente na competição que define o futuro nacional do Paysandu.

Há ainda um problema tão preocupante quanto a deficiência técnica: Júnior Rocha parece estar perdendo o elenco. Quando um treinador precisa pedir desculpas publicamente depois de uma goleada e falar em mudança de postura para o jogo seguinte, é sinal de que alguma coisa deixou de funcionar dentro do grupo. O treinador tem sua parcela de responsabilidade, evidentemente. Mas também é preciso perguntar se ele recebeu as peças necessárias para executar aquilo que foi planejado. Um time que pretende subir não pode depender permanentemente de viradas no segundo tempo, da força da camisa ou da esperança de que os adversários também tropeçarão.

O paradoxo é que, apesar de tudo isso, a classificação ainda está absolutamente viva. O Paysandu tem 26 pontos e restam apenas dois jogos para o encerramento da primeira fase: Ituano, fora de casa, e Maringá, na Curuzu. A equipe está na disputa direta pelo G-8 e, historicamente, 29 pontos têm sido uma referência importante para alcançar o quadrangular do acesso. Ou seja: a situação é delicada, mas está longe de ser irreversível. Uma vitória nos dois jogos restantes pode ser suficiente para colocar o Papão na próxima fase, embora a combinação de resultados e os critérios de desempate também precisem ser acompanhados.

É justamente por isso que não há espaço, neste momento, para uma crise institucional que consuma as últimas forças do clube. A diretoria precisa fazer sua autocrítica nesta reta final de competição, avaliar contratações, planejamento e decisões tomadas ao longo do ano. 

Júnior Rocha também precisa encontrar rapidamente uma solução para recuperar a confiança dos jogadores e reorganizar uma equipe que sofreu quatro gols em uma partida decisiva. Mas a discussão estrutural pode esperar algumas semanas. Agora, a prioridade é outra: transformar indignação em reação. O Paysandu ainda tem uma porta aberta para o acesso.

O torcedor bicolor tem razões de sobra para estar decepcionado. Depois do rebaixamento para a Série C, em 2025, esperava-se um projeto capaz de devolver ao Paysandu, com competência e organização, o protagonismo nacional. O que se viu até aqui está muito aquém disso. Mas a temporada ainda não acabou. 

Se é necessário fazer um esforço adicional, que ele seja feito agora, por todos: diretoria, comissão técnica e jogadores. Uma vitória em dois jogos pode representar a diferença entre terminar o ano novamente mergulhado na frustração ou continuar vivo na luta pelo retorno à Série B. O Paysandu não precisa de discursos grandiosos neste momento. 

Precisa jogar como quem sabe que ainda tem muito a perder – e, principalmente, muito a conquistar.

Foto em destaque: captura de tela do jogo Ferroviária 4 X 0 Paysandu (17.08.2026),no estádio Fonte Luminosa, em Araraquara.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Rodolfo Marques
Rodolfo Marques é professor universitário, jornalista e cientista político. Desde 2015, atua também como comentarista esportivo. É grande apreciador de futebol, tênis, vôlei, basquete e F-1.

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