Publicado em: 3 de agosto de 2026
Política de alfabetização que depende da gestão de plantão não sobrevive à troca de governo. O diagnóstico atravessou o encerramento do Seminário Nacional pela Alfabetização, na quinta-feira (30), no La Maison, em Fortaleza, onde gestoras, pesquisadoras e especialistas discutiram o que precisa mudar para que programas voltados à alfabetização e à educação infantil resistam às transições administrativas.
A saída apontada na mesa “Os governos mudam. E agora?” foi incorporar essas ações à estrutura das redes de ensino, tirando-as do terreno das prioridades de cada mandato. Diretora de Programas Estaduais da Associação Bem Comum, Izolda Cela creditou essa resistência às equipes que executam a política no dia a dia. “Quando uma política está enraizada, e esse enraizamento acontece por meio das pessoas, da confiança construída e da capacidade de implementação, ela ganha força”, disse.
Para o presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Luiz Miguel Garcia, a permanência depende de uma cultura institucional assentada no direito à aprendizagem. “Quando a política deixa de ser vista como um projeto de governo e passa a ser entendida como um compromisso com as crianças, ela ganha outra dimensão. Independentemente das mudanças de gestão, permanece a convicção de que aquele caminho vale a pena”, afirmou.
Promotor de Justiça do Ministério Público da Bahia, Adriano Marques desenhou um papel diferente para o órgão diante dos gargalos educacionais, mais próximo do planejamento e do monitoramento do que da via judicial. “O promotor do presente e do futuro é aquele que dá as mãos aos gestores para construir a solução em conjunto. Problemas estruturais e complexos não se resolvem mais com uma sentença de juiz ou uma recomendação, mas com organização e monitoramento”, afirmou.
Antes disso, pela manhã, a pré-escola havia aberto o segundo dia de programação. A mesa “Perspectivas e desafios para qualificar a Pré-Escola” reuniu Daniel Santos, fundador e coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Economia Social (LEPES/USP), Aglaízis Veras, coordenadora de Formação de Vargem Grande (MA), e Rodrigo Torres, secretário de Educação do Piauí, com mediação de Karina Fasson, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. O consenso foi que universalizar o acesso pouco resolve sem prática pedagógica ajustada às especificidades do desenvolvimento infantil.
Aglaízis cobrou que a etapa deixe de ser tratada como preparação para o ensino fundamental. “Enquanto nossos líderes não compreenderem que a educação infantil deve ser prioridade, a boa vontade, sozinha, não produzirá mudanças. É preciso transformar a intenção em ação concreta, destinando recursos e estabelecendo prioridades para essa etapa”, disse.
Rodrigo Torres puxou a discussão para a avaliação, hoje escassa nessa faixa. “Nós precisamos avaliar a pré-escola. O que eu espero para cada faixa etária precisa estar muito claro para quem forma professores e para quem trabalha diretamente com essas crianças”, disse.
A matemática ocupou outro bloco da programação. Na mesa “Letramento em Matemática”, os debatedores defenderam que o raciocínio lógico comece a ser trabalhado na primeira infância, antes mesmo da alfabetização em leitura e escrita. Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e líder do Projeto Matemática Antirracista, Daniel Lima tratou o senso numérico como parte do desenvolvimento humano, algo que precisa de estímulo desde os primeiros anos para não virar dificuldade lá na frente. “A desigualdade que observamos mais tarde não nasce com as crianças, ela é produzida ao longo do caminho. Se essas desigualdades são produzidas, elas também podem ser enfrentadas, e o nosso desafio é nutrir o potencial inato de cada estudante, criando oportunidades para que conectem suas experiências de vida às ideias matemáticas”, afirmou.
Ao longo de dois dias, o seminário reuniu cerca de 500 participantes em Fortaleza e 11 mil inscritas na transmissão online, em torno de caminhos para consolidar os avanços da alfabetização com equidade no Brasil.
A última mesa juntou tecnologia e ancestralidade. Titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto, Mozart Neves Ramos falou dos efeitos das novas formas de colaboração digital sobre a escola. A liderança indígena e ambientalista Kaká Werá puxou o argumento para outro terreno. “Aprender a ler é, antes de tudo, aprender a ver o mundo. E isso se aprende em comunidade”, frisou.
Foto em destaque: Carol Dias/ Obo Studio










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