Publicado em: 19 de julho de 2026
Concluí a leitura de Sem Respeito: depreciação da alteridade na sociedade contemporânea, de Byung-Chul Han, mas algumas questões permanecem. A obra trazinquietações fundamentais sobre o nosso tempo, pois não se limita à análise de uma transformação moral específica, tampouco pretende apenas diagnosticar o enfraquecimento de uma virtude social. Seu movimento teórico é mais profundo: Han investiga a própria transformação das condições que tornam possível reconhecer o outro enquanto outro no ambiente digital.
O problema central do livro não está no desaparecimento de uma regra de convivência ou na perda de uma disposição ética individual, mas na alteração estrutural da relação humana com a diferença. O respeito, para Han, não constitui apenas uma norma exterior de comportamento, uma convenção social destinada a regular interações. Ele representa uma forma de relação fundada na distância, na preservação de uma dimensão que permanece inacessível ao domínio completo do olhar, da linguagem e da apropriação.
Respeitar significa reconhecer que há no outro algo que não pode ser inteiramente revelado, explicado ou transformado em objeto disponível. A alteridade exige uma espécie de reserva, uma zona de indeterminação na qual o sujeito não é reduzido àquilo que aparece. O respeito nasce justamente desse intervalo entre presença e ausência, entre proximidade e distância.
Publicado originalmente na Alemanha em 2014 e lançado no Brasil pela Editora Vozes em 2025, Sem Respeito integra o conjunto de ensaios nos quais Han examina as mutações produzidas pelo neoliberalismo e pela digitalização da existência. Seu diagnóstico desloca a análise tradicional do poder: já não se trata apenas de identificar quem domina e quem é dominado, mas de compreender como os próprios indivíduos passam a participar dos mecanismos que os capturam.
A questão fundamental deixa de ser somente quem controla, mas como os sujeitos incorporam voluntariamente os dispositivos de controle. O poder contemporâneo opera pela imposição; mas funciona também pela sedução, pelo desejo de reconhecimento e pela promessa de autonomia.
A perda do respeito acompanha, segundo Han, o desaparecimento da distância. A sociedade contemporânea transforma tudo em proximidade imediata: imagens, opiniões, corpos, experiências e acontecimentos tornam-se permanentemente disponíveis ao olhar coletivo. Contudo, a eliminação das distâncias não conduz necessariamente a uma aproximação verdadeira.
Ao contrário, quando toda separação simbólica é dissolvida, o outro deixa de surgir napresença singular e passa a circular como informação, perfil, dado ou imagem. A proximidade absoluta pode produzir uma forma paradoxal de afastamento: quanto mais o outro é exposto, menos ele é verdadeiramente encontrado.
O respeito exige o reconhecimento de um limite. Ele pressupõe que existe algo no outro que permanece fora do alcance, algo que não deve ser totalmente apropriado. Essa dimensão irredutível constitui precisamente a condição da alteridade.
A sociedade da transparência, porém, transforma a visibilidade em imperativo. Tudo deve aparecer, tudo deve ser compartilhado, tudo deve tornar-se acessível. Aquilo que permanece oculto passa a ser interpretado como suspeito; aquilo que não se oferece ao olhar coletivo parece carecer de legitimidade.
A transparência é apresentada como valor democrático e promessa de autenticidade, e revela também seu caráter ambíguo. Ao eliminar a opacidade, ela ameaça eliminar igualmente aquilo que protege a singularidade. Uma existência completamente iluminada pelo olhar externo corre o risco de perder o espaço interior no qual a diferença pode preservar-se.
Nesse sentido, a crítica de Han ultrapassa a análise superficial das redes sociais enquanto instrumentos técnicos. O problema não reside apenas no modo como utilizamos as plataformas digitais, mas na racionalidade que organiza sua arquitetura. A transparência deixa de ser uma escolha e transforma-se em exigência; a exposição deixa de ser possibilidade e converte-se em obrigação; a visibilidade torna-se critério de existência.
O sujeito contemporâneo passa a existir na medida em que aparece. Sua presença social depende da capacidade de publicar, responder, interagir e receber reconhecimento. A existência tende a ser traduzida em sinais mensuráveis: curtidas, seguidores, alcance, engajamento e circulação.
Forma-se, assim, uma nova economia da presença. Cada gesto pode ser convertido em dado; cada preferência pode ser registrada; cada manifestação pode alimentar sistemas de classificação e previsão. A intimidade, antes um espaço protegido da exposição pública, transforma-se progressivamente em matéria-prima dos circuitos econômicos e tecnológicos.
A tese de Han é que essa transformação produz uma erosão da dimensão ética do respeito porque elimina aquilo que ele denomina negatividade: a presença do que resiste à assimilação completa. O silêncio, o segredo, a demora e a diferença tornam-se obstáculos em uma sociedade orientada pela transparência imediata. Uma cultura incapaz de suportar o que permanece oculto perde também a capacidade de reconhecer verdadeiramente a singularidade.
Nas plataformas digitais, essa dinâmica aparece na transformação da subjetividade em performance. O indivíduo expressa aquilo que é; ele passa a construir continuamente uma imagem de si destinada à avaliação pública. A identidade deixa de ser uma dimensão relativamente estável e transforma-se em processo permanente de apresentação, adaptação e otimização.
O sujeito torna-se simultaneamente autor e objeto de sua própria exposição. Ele administra sua imagem, calcula sua visibilidade e ajusta sua presença conforme os critérios de reconhecimento oferecidos pelos sistemas digitais.
A consequência dessa transformação não é apenas psicológica, mas política. Uma esfera pública organizada pela velocidade da reação tende a substituir o diálogo pela resposta imediata, a reflexão pelo impulso e a argumentação pela mobilização afetiva. Acomunicação permanece intensa, mas nem sempre produz compreensão. O excesso de expressão pode coexistir com uma profunda incapacidade de escuta.
A sociedade da transparência não elimina o outro pela ausência de contato, mas pelo excesso de exposição. O outro desaparece porque está distante; porque foi transformado em objeto inteiramente disponível ao olhar.
A crítica de Byung-Chul Han à sociedade da transparência encontra uma ampliação decisiva quando coloco-a em diálogo com a análise de Evgeny Morozov sobre o solucionismo tecnológico. Enquanto Han investiga a transformação ética e subjetiva produzida pela lógica da exposição permanente, Morozov desloca o olhar para as estruturas econômicas, políticas e ideológicas que sustentam essa transformação.
A pergunta deixa de ser apenas como os indivíduos passaram a se relacionar no ambiente digital e passa a envolver uma questão mais ampla: quais forças organizam esse ambiente? Quais interesses atravessam sua arquitetura? Quais formas de poder emergem de sua própria configuração?
Em To Save Everything, Click Here (2013), Morozov identifica uma das crenças mais influentes da contemporaneidade: a ideia de que os grandes problemas humanos podem ser reduzidos a problemas técnicos e solucionados por meio de aplicativos, plataformas e sistemas inteligentes. O solucionismo tecnológico transforma questões políticas, sociais e éticas em desafios de engenharia.
Sob essa perspectiva, conflitos históricos parecem falhas de eficiência; desigualdades sociais são reinterpretadas como problemas de gestão; dilemas morais tornam-se obstáculos que poderiam ser removidos por uma tecnologia suficientemente sofisticada.
O problema dessa racionalidade está justamente naquilo que ela elimina. Ao converter questões humanas em problemas técnicos, o solucionismo reduz a complexidade da experiência social. A política é substituída pela administração; o conflito é interpretado como erro de sistema; a participação democrática é deslocada para mecanismos automáticos de otimização.
Morozov demonstra que a tecnologia nunca é um instrumento neutro. Toda arquitetura técnica incorpora escolhas, valores e interesses. Uma plataforma digital não ofereceapenas possibilidades de interação; ela define previamente quais comportamentos serão incentivados, quais informações ganharão visibilidade e quais formas de participação serão consideradas relevantes.
O ambiente digital é um espaço vazio no qual indivíduos simplesmente exercem sua liberdade, mas também é uma estrutura que participa da produção das próprias condições dessa liberdade. Algoritmos classificam, selecionam, hierarquizam e distribuem informações. Eles observam comportamentos existentes; eles interferem na formação desses comportamentos. Ao determinar aquilo que aparece diante do sujeito, participam da construção do horizonte dentro do qual o mundo é percebido.
Essa é uma mudança fundamental: o poder deixa de atuar apenas sobre as ações realizadas e passa a atuar sobre o campo de possibilidades no qual as ações se tornam imagináveis. A tecnologia contemporânea não precisa necessariamente ordenar aquilo que deve ser feito. Ela organiza os caminhos pelos quais determinadas escolhas parecem mais naturais, mais convenientes ou mais desejáveis.
É nesse ponto que recorro à metáfora do filme Cubo (Cube, 1997), dirigido por Vincenzo Natali, que adquire aqui uma força singular. A obra apresenta uma estrutura composta por inúmeros compartimentos aparentemente idênticos, conectados por passagens semelhantes, mas atravessados por mecanismos ocultos capazes de produzir destruição.
Os personagens encontram-se presos em uma arquitetura cuja lógica desconhecem. Não existe um centro evidente de comando, uma autoridade claramente identificável ou uma explicação definitiva sobre o funcionamento daquele espaço.
O horror fundamental do cubo não está apenas em suas armadilhas físicas, mas na experiência de habitar uma estrutura cuja racionalidade permanece parcialmente inacessível. Os indivíduos precisam agir dentro de um sistema que condiciona suas possibilidades, embora não consigam compreender completamente suas regras.
O cubo é, portanto, mais do que uma prisão material. Ele representa uma experiência de existência submetida a uma lógica desconhecida. Essa imagem oferece uma chave interpretativa poderosa para compreender a sociedade digital. As plataformas contemporâneas funcionam como um cubo invisível: espaços aparentemente abertos, nos quais os indivíduos circulam, interagem e escolhem, mas dentro de arquiteturas cuja lógica profunda permanece distante da compreensão cotidiana.
O usuário movimenta-se livremente, mas sua trajetória é atravessada por sistemas de recomendação, mecanismos de classificação e modelos econômicos baseados na captura da atenção. A prisão contemporânea não necessita de paredes. Ela opera pela organização do ambiente. O poder digital não precisa impedir o movimento; basta orientar sua direção.
A arquitetura algorítmica é uma barreira e um campo de forças. Ela distribui probabilidades, aumenta determinadas possibilidades e reduz outras. A liberdade permanece presente, mas ocorre dentro de um espaço previamente configurado. Essa transformação aproxima-se daquilo que Han denomina psicopolítica. Diferentemente das formas tradicionais de dominação, baseadas na imposição externa e na vigilância direta, o poder contemporâneo atua pela mobilização da subjetividade.
O indivíduo não precisa ser obrigado a expor sua vida privada; ele deseja fazê-lo. Não precisa ser forçado a buscar reconhecimento; ele transforma o reconhecimento em necessidade permanente.
A eficiência desse modelo de controle está justamente no fato de que ele aparece como liberdade. O sujeito acredita expressar sua individualidade, mas frequentemente participa de uma lógica que transforma sua expressão em dado, sua presença em mercadoria e sua atenção em recurso econômico.
As plataformas oferecem comunicação, mas capturam atenção. Oferecem participação, mas classificam comportamentos. Oferecem liberdade de expressão, mas estruturam silenciosamente o espaço no qual essa expressão ocorre.
O cubo digital, portanto, não é uma estrutura fechada, pois é expansivo, móvel e adaptável. Não aprisiona corpos; captura fluxos. Não bloqueia a circulação; administra sua direção. Sua força não está na proibição, mas na capacidade de transformar a própria liberdade em mecanismo de funcionamento.
A dominação contemporânea torna-se mais eficiente quando deixa de parecerdominação. Ela se apresenta como escolha, conveniência, personalização e autonomia.O indivíduo não sente necessariamente que está sendo conduzido porque o controle opera no interior de suas próprias práticas cotidianas. O poder não desaparece; ele torna-se invisível. E essa invisibilidade constitui uma de suas formas mais sofisticadas.O indivíduo deixa de ser definido apenas pelo lugar que ocupa e passa a ser continuamente avaliado por informações, registros e indicadores.
A passagem da disciplina ao controle revela uma mudança na própria natureza do poder. Já não se trata apenas de formar corpos obedientes, mas de modular comportamentos em tempo real. Essa perspectiva permite compreender a singularidade do ambiente digital. As plataformas contemporâneas não funcionam como instituições fechadas. Elas constituem ambientes permanentes de interação, nos quais o sujeito está continuamente conectado, avaliado e reorganizado por sistemas de classificação.
O indivíduo não entra em uma instituição de controle e depois sai dela. Ele carrega consigo os dispositivos que registram seus hábitos, preferências e trajetórias. O controle acompanha a circulação.
A sociedade digital realiza, em certo sentido, aquilo que Deleuze antecipou: uma forma de poder que não necessita mais da clausura para produzir efeitos. A conexão permanente substitui o confinamento. A participação substitui a obediência. A modulação substitui a imposição.
Os algoritmos representam uma expressão radical dessa transformação. Eles não são apenas ferramentas matemáticas destinadas a organizar informações; são dispositivos que interferem na produção da realidade percebida. Ao selecionar conteúdos, ordenar informações e definir relevâncias, os algoritmos participam da construção do campo visual e cognitivo no qual os indivíduos se orientam.
O sujeito não encontra simplesmente um mundo pronto diante de si. Ele encontra um mundo previamente filtrado por sistemas que interpretam seus interesses, antecipam seus desejos e organizam suas possibilidades de atenção. A personalização, apresentada como benefício tecnológico, revela sua ambiguidade. Por um lado, ela promete uma experiência mais adequada às necessidades individuais. Por outro, produz um ambiente no qual o sujeito tende a receber continuamente aquilo que confirma seus padrões anteriores. A consequência é uma redução do encontro com a diferença.
O algoritmo aprende com o comportamento do usuário, mas ao mesmo tempo contribui para estabilizá-lo. Ele oferece mais daquilo que já demonstrou interesse, criando ciclos de repetição que podem limitar a abertura ao inesperado.
A alteridade, nesse contexto, enfrenta uma dificuldade fundamental: aquilo que não corresponde aos padrões de previsibilidade tende a perder visibilidade. O diferente transforma-se em ruído. A subjetividade contemporânea passa então a ser produzida em um circuito permanente de retroalimentação. O indivíduo fornece dados; o sistema produz previsões. O indivíduo reage; o sistema ajusta seus modelos. A plataforma aprende com o comportamento, mas também participa da formação desse comportamento.
Cria-se uma relação circular entre sujeito e dispositivo. O usuário não é apenas observado pelo sistema; ele é progressivamente adaptado à lógica do sistema. É nesse ponto que a análise de Han sobre a psicopolítica encontra a teoria deleuziana do controle. O poder contemporâneo não precisa mais simplesmente disciplinar o corpo porque ele consegue atuar sobre desejos, expectativas e modos de percepção.
A dominação torna-se mais profunda quando consegue transformar-se em participação voluntária. O sujeito contemporâneo administra a própria exposição, monitora o próprio desempenho e busca continuamente melhorar sua imagem. Ele transforma a si mesmo em projeto permanente de otimização.
A linguagem das plataformas penetra a experiência interior: alcance, desempenho, engajamento, produtividade, relevância. O indivíduo passa a avaliar sua própria existência por critérios externos de mensuração. A interioridade não desaparece, mas é reorganizada segundo padrões de visibilidade. O eu torna-se legível. E essa legibilidade constitui uma das exigências centrais do regime digital.
Ser reconhecido significa tornar-se interpretável pelos sistemas que organizam a circulação social. O sujeito precisa apresentar-se de modo compreensível, classificável e compartilhável. Entretanto, aquilo que escapa à classificação, aquilo que permanece ambíguo ou contraditório, encontra dificuldade para existir em um ambiente orientado pela mensuração.
A singularidade humana, porém, sempre excede qualquer sistema de classificação.Existe no sujeito uma dimensão que não pode ser totalmente convertida em informação.É justamente essa dimensão que Han identifica como essencial para a preservação do respeito.
Uma sociedade que transforma tudo em dado corre o risco de perder a capacidade de reconhecer aquilo que não pode ser calculado. O problema do digital, portanto, não está apenas nas tecnologias utilizadas, mas na transformação da própria relação entre saber, poder e subjetividade.
O algoritmo não é apenas um instrumento que organiza informações. É um operador de mundo. Ele participa da definição do que aparece, do que importa e do que pode ser reconhecido como real. A sociedade de controle não elimina completamente a disciplina, mas a amplia e a transforma. O poder deixa de estar concentrado em instituições específicas e espalha-se por redes contínuas de monitoramento, avaliação e previsão.
O cubo digital já não possui paredes visíveis. Ele é composto por interfaces, notificações, métricas e protocolos que acompanham o indivíduo em todos os espaços. A liberdade permanece, mas passa a existir dentro de uma arquitetura que continuamente orienta suas possibilidades. A questão fundamental, então, não é saber se somos livres ou controlados em sentido absoluto. A questão é compreender como a própria experiência da liberdade foi transformada.
O sujeito contemporâneo não é simplesmente privado de autonomia. Ele é conduzido a exercer uma autonomia previamente organizada. Essa é a forma mais sofisticada do poder contemporâneo: aquela que não impede o movimento, mas define silenciosamente os caminhos pelos quais o movimento acontece.
Convergimos para um ponto fundamental: o poder contemporâneo não se manifesta apenas por meio da proibição, da vigilância ou da punição. Atua principalmente pela organização dos campos de possibilidade nos quais os indivíduos constroem suas experiências, desejos e formas de relação. O problema central do presente não está apenas na existência de tecnologias capazes de registrar comportamentos, armazenar informações e produzir previsões, mas na formação de um ambiente social no qual a própria vida tende a ser traduzida continuamente em dados, imagens, desempenhos e padrões de visibilidade.
A sociedade contemporânea passa a operar sob uma nova gramática da existência, na qual aquilo que aparece adquire valor, aquilo que circula ganha reconhecimento e aquilo que pode ser mensurado torna-se critério de relevância. Essa transformação modifica profundamente a relação do sujeito consigo mesmo e com os outros, pois a experiência humana deixa de ser compreendida apenas como acontecimento vivido e passa a ser progressivamente organizada segundo critérios externos de exposição e validação. A presença social do indivíduo passa a depender daquilo que ele é, mas sobretudo da capacidade de tornar-se visível dentro dos sistemas que estruturam a circulação da atenção.
É nesse contexto que a crítica de Byung-Chul Han à sociedade da transparência revela sua dimensão mais radical. A transparência, inicialmente associada a valores positivos como abertura, participação democrática e combate aos segredos do poder, assume uma dimensão problemática quando transformada em princípio absoluto de organização social. Quando toda opacidade é interpretada como falha, quando toda reserva é percebida como ausência de autenticidade e quando toda experiência parece exigir uma forma pública de apresentação, a transparência deixa de proteger a convivência e passa a ameaçar justamente aquilo que torna possível uma relação ética com a diferença.
O problema não consiste em defender o ocultamento como valor absoluto, mas em reconhecer que a existência humana necessita de espaços de indeterminação. Nem tudo aquilo que possui significado precisa ser imediatamente exposto; nem tudo aquilo que constitui uma pessoa pode ser convertido em informação; nem toda experiência precisa tornar-se pública para possuir legitimidade. A subjetividade humana não se esgota naquilo que pode ser apresentado ao olhar externo, pois existe uma dimensão interior que permanece fundamentalmente aberta, contraditória e impossível de ser completamente traduzida em signos.
A alteridade depende dessa impossibilidade de captura total. O outro não é apenas aquilo que consigo compreender, classificar ou interpretar, mas também aquilo que permanece além das minhas categorias e resiste às minhas tentativas de redução. O respeito nasce justamente desse reconhecimento do limite, dessa compreensão de que nenhuma relação verdadeiramente ética pode existir quando o outro é transformado em objeto inteiramente disponível ao conhecimento ou ao consumo.
A sociedade digital, entretanto, tende a reduzir esse espaço de distância ao privilegiar relações marcadas pela imediaticidade, pela exposição permanente e pela necessidade constante de resposta. O outro aparece frequentemente como perfil, não presença; conjunto de informações, não singularidade concreta. A representação passa a ocupar o lugar do encontro, e a imagem frequentemente substitui a experiência direta da alteridade.
Essa transformação produz uma dificuldade crescente em lidar com aquilo que escapa aos padrões de identificação. As plataformas digitais organizam grande parte das interações segundo critérios de compatibilidade, engajamento e previsibilidade, favorecendo ambientes nos quais o diferente tende a ser filtrado, marginalizado. A pluralidade permanece visível, mas frequentemente dentro de limites estabelecidos por uma arquitetura que privilegia aquilo que pode gerar circulação, reação e permanência.
O paradoxo da sociedade digital está justamente nessa contradição: nunca houve tantos meios de conexão e, ao mesmo tempo, tantas dificuldades para sustentar uma relação profunda com a diferença. A multiplicação das possibilidades de comunicação não garante necessariamente uma ampliação da compreensão. Pode ocorrer, ao contrário, que a intensificação dos contatos produza uma redução da capacidade de escuta, pois o outro passa a ser recebido como uma posição a ser avaliada, confirmada ou combatida.
Essa dinâmica possui consequências políticas profundas. Uma esfera pública organizada pela lógica da velocidade e da reação imediata tende a enfraquecer os processos de elaboração coletiva. Questões complexas são frequentemente reduzidas a disputas de visibilidade, argumentos são substituídos por manifestações emocionais e o debate público passa a funcionar segundo a lógica da circulação acelerada de conteúdos. A política, nesse ambiente, aproxima-se progressivamente da lógica das plataformas, nas quais a capacidade de chamar atenção frequentemente prevalece sobre a capacidade de produzir reflexão.
É nesse ponto que a noção de psicopolítica desenvolvida por Han adquire especial relevância. O poder contemporâneo não necessita apenas impedir a expressão dos indivíduos; ele pode estimular uma produção incessante de discursos, imagens e performances. A exposição deixa de ser uma imposição externa e transforma-se em desejo incorporado. O sujeito busca reconhecimento, administra sua própria imagem e participa voluntariamente dos mecanismos que transformam sua presença em dado, sua comunicação em informação e sua atenção em valor econômico.
O cubo digital, enquanto metáfora, sintetiza essa condição contemporânea. Diferentemente das formas tradicionais de aprisionamento, ele não depende de paredes visíveis, de um centro de comando claramente identificado ou de uma autoridade que determine diretamente os movimentos dos indivíduos. Sua força reside precisamente em uma arquitetura distribuída, composta por algoritmos, interfaces, métricas e mecanismos de recomendação que organizam silenciosamente o campo das possibilidades.
O sujeito permanece em movimento dentro desse espaço. Ele conversa, cria, escolhe, compartilha e participa, mas seus movimentos acontecem em um ambiente previamente estruturado por sistemas que definem quais informações serão privilegiadas, quais comportamentos serão estimulados e quais formas de presença terão maior capacidade de circulação. A prisão contemporânea não interrompe a liberdade; ela reorganiza suas condições de funcionamento.
Essa é uma das características mais profundas do poder contemporâneo: ele não precisa aparecer como imposição para produzir efeitos. Sua eficiência aumenta quando consegue apresentar-se em conveniência, personalização e autonomia. O indivíduo não sente necessariamente que está sendo conduzido porque o controle opera integrado às próprias práticas pelas quais ele busca expressão e reconhecimento.
O sujeito contemporâneo continua escolhendo, mas suas escolhas ocorrem dentro de ambientes cuja estrutura permanece parcialmente invisível. A liberdade não desaparece, porém passa a existir em relação com sistemas que antecipam comportamentos, organizam preferências e moldam horizontes de possibilidade.
Por essa razão, a resistência não pode significar uma simples rejeição da tecnologia. O desafio consiste em impedir que uma determinada racionalidade técnica transforme todos os aspectos da existência em objetos de cálculo, previsão e circulação. Trata-se de preservar espaços de silêncio, demora e indeterminação nos quais o indivíduo não precise transformar continuamente sua vida em apresentação e nos quais o outro possa existir sem ser imediatamente convertido em informação.
Preservar a opacidade não significa defender o isolamento, mas proteger a possibilidade do encontro. A relação humana só permanece verdadeiramente ética quando reconhece que o outro ultrapassa qualquer representação que dele possamos construir. O respeito nasce dessa consciência do limite, da capacidade de permanecer diante da diferença sem tentar imediatamente dominá-la.
Em uma época marcada pelo imperativo da transparência, respeitar talvez signifique recuperar o valor daquilo que não pode ser inteiramente exposto. A sociedade contemporânea desenvolveu tecnologias extraordinárias de visibilidade, mas ainda enfrenta o desafio de compreender que ver não é necessariamente conhecer, que expor não significa necessariamente aproximar e que conectar não garante, por si só, encontro.
A grande contradição da sociedade da transparência é que, ao prometer acesso total ao mundo, ela pode produzir uma das formas mais sutis de ausência. O outro não desaparece porque está distante, mas porque acreditamos já tê-lo capturado completamente. É contra essa captura da alteridade que o respeito é uma forma de resistência ética: a defesa daquilo que permanece humano porque não pode ser totalmente transformado em imagem, dado ou mercadoria.
REFERÊNCIAS
DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972-1990. Tradução de Peter Pál Pelbart. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2013.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.
HAN, Byung-Chul. Sem respeito: depreciação da alteridade na sociedade contemporânea. Tradução de Gabriel Salvi Philipson. Petrópolis: Vozes, 2025.
MOROZOV, Evgeny. To Save Everything, Click Here: The Folly of TechnologicalSolutionism. New York: PublicAffairs, 2013.
NATALI, Vincenzo (dir.). Cube. Canadá: The Feature Film Project; Cube Libre, 1997. 1 filme (90 min.), sonoro, colorido.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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