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O Solar Barão de Guajará, sede do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, entidade cultural com 126 anos de existência, sofreu na terça-feira, 4, e na quarta-feira, 5, tentativas de invasão pela porta da frente, à noite. Foi registrado Boletim de Ocorrência e solicitado apoio do 2° Batalhão da Polícia Militar, que averiguou a situação. Mas ontem (6) à noite o Solar foi invadido. Felizmente não levaram peças históricas, apenas os ventiladores e itens da lojinha de souvenirs. O presidente do IHGP, professor doutor Álvaro do Espírito Santo, acionou de novo o 2º BPM, cujo comandante, tenente-coronel Helton Rocha, enviou uma guarnição, que prometeu uma viatura circulando à noite no entorno. A Polícia Civil também foi novamente acionada, através de BO e do procurador de Justiça Manoel Santino Nascimento, que é sócio do IHGP e pediu providências ao delegado-geral Raimundo Benassuly.

Não é a primeira vez que a bela e histórica edificação sofre ataques sucessivos. Em 23 de setembro de 2024 o Solar amanheceu sem energia elétrica porque durante a madrugada meliantes cortaram e furtaram a fiação de cobre, o que causou o fechamento do Instituto à visitação até que a situação fosse normalizada. Há necessidade de que os governantes, nos âmbitos municipal, estadual e federal, atuem firmemente no sentido de preservar essa joia da arquitetura e da história do Pará, dada a importância do funcionamento do centenário IHGP.

É preciso garantir segurança diuturna e não apenas pontual ao acervo precioso que inclui desde a época colonial até a República, composto por móveis, porcelanas e obras de arte, além de livros raros. Fundado em 3 de maio de 1900, o IHGP impulsiona o estudo e a difusão dos conhecimentos da História, da Geografia, da Antropologia e da Etnografia em todos os seus ramos e aplicações à vida social, política e econômica, em especial no que se refere ao Brasil e, particularmente, à Amazônia; realiza reuniões, sessões memoriais, conferências e solenidades públicas; e, ainda, instiga o interesse pelas explorações geográficas e investigações históricas, arqueológicas e etnográficas; conserva e classifica documentos, livros, estudos, estampas, plantas, mapas, cartas e objetos, todos disponíveis gratuitamente para consulta em sua biblioteca, arquivo e museu.

Desde 1944 o Solar Barão de Guajará abriga o IHGP, localizado na Rua do Aveiro (antiga Tomázia Perdigão), nº 62, no bairro da Cidade Velha. Erguido no início do século XIX em estilo neoclássico, tem uma das fachadas mais antigas de Belém, revestida em azulejos portugueses decorados em azul e branco, a partir da técnica da estampilha; mantém importantes vestígios do passado imperial do antigo Grão-Pará e integra o patrimônio histórico e arquitetônico tombado em 1950 pelo Iphan. Ícone do apogeu econômico e social parauara, na belle époque, guarda tesouros culturais de valor incalculável.

No belo palacete Domingos Antonio Raiol, o Barão de Guajará, escreveu a obra “Motins Políticos”, texto seminal para todo e qualquer estudo sobre o período de 1820 a 1835 na então Província do Grão-Pará. Ali está exposto um pouco de suas matrizes intelectuais, seus gostos e repertório analítico. Nos salões, a história da independência é contada através de imagens, textos e objetos originais, desde a invasão de Caiena em 1809 até os debates sobre duas datas das mais importantes no calendário cívico paraense – o 7 de setembro e o 15 de agosto. Entre proclamações escritas em francês e português para os habitantes de Caiena, efígies de governantes e dos imperadores, uma espada gravada com as insígnias de Pedro I, há o broche que os soldados usaram no furriel em 1823, jamais mostrado em exposição, mas que já traz gravada a sentença “Independência ou Morte”.

No roda-teto do salão azul, os nomes dos líderes dos motins de 14 de abril de 1823 e outros que militaram nas lutas da independência no Pará: Diogo Moia, Antonio Barreto, Domingos Marreiros, Romualdo de Seixas, José Pio, Jerônimo Pimentel, Manoel Evaristo, Soares Carneiro, Boaventura da Silva, João Balbi, Honório José dos Santos, Oliveira Belo e Felipe Patroni, o pioneiro da imprensa parauara que, há duzentos e seis anos, lançou o primeiro jornal do Pará, O Paraense.

Aristocrata e monarquista ferrenho que viu o seu pai ser morto pelos cabanos em Vigia, quando era criança, Domingos Antonio Raiol herdou o prédio ao casar com Maria Victoria Pereira de Chermont Rayol, Baronesa de Guajará, que o herdou de seu tio, Antônio Lacerda de Chermont, o Visconde de Arari, que, por sua vez, recebeu o palacete por transferência de sua irmã, dona Inês Micaela de Larcerda Chermont.

O Barão morreu no casarão em 1912, aos 82 anos de idade, e deixou uma biblioteca com títulos que remontam ao ano de 1.700, inclusive documentos, cartas, mapas, pinturas e armas. Em 1942, o então prefeito de Belém, Abelardo Leão Conduru, adquiriu o Solar de um de seus herdeiros e com ele os móveis e a biblioteca. Um legado que o IHGP preserva para as gerações futuras e que é visitado diariamente por estudantes e especialistas, além do público em geral. O ex-prefeito Edmilson Rodrigues, que é membro do IHGP, fez a doação definitiva da propriedade ao Instituto, em seu último mandato.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, membro da Academia Paraense de Jornalismo, da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

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