Publicado em: 29 de julho de 2026
A palavra romântico, para além do movimento literário do Romantismo, é popularmente associada ao amor, aos gestos de afeto e às demonstrações de carinho. Em geral, aparece vinculada aos relacionamentos amorosos e a um imaginário bastante específico: monogâmico, heteronormativo e sustentado por papéis tradicionais de feminilidade e masculinidade.
Nos últimos tempos, porém, tenho escutado, sobretudo entre blogueiras e produtoras de conteúdo, a expressão “romantizar a própria vida”. Desde então, ela não saiu da minha cabeça.
Tenho pensado que talvez romantizar a própria vida possa ser muito mais do que uma tendência estética das redes sociais. Talvez seja, também, um gesto político.
Mas explico com calma.
Pensemos na rotina de uma mulher comum. Café, trabalho, filhos e filhas, casa, contas, talvez um companheiro, talvez uma tentativa de encaixar alguma atividade física entre uma obrigação e outra. Que horas sobram para romantizar a vida? Que energia resta para observar a beleza do cotidiano quando a maior parte do tempo é consumida apenas pela tarefa de sobreviver?
E essa pergunta não pode ser respondida sem considerar as desigualdades que atravessam a experiência de mulheres, afinal, a possibilidade de desacelerar nunca foi distribuída igualmente. Mulheres negras, indígenas, trans, periféricas, mães solo, mulheres com deficiência, trabalhadoras informais ou aquelas submetidas a jornadas exaustivas de trabalho remunerado e doméstico encontram muito menos espaço para experimentar aquilo que hoje chamamos de romantizar a vida. A interseccionalidade (conceito e ferramenta metodológica do feminismo negro para compreender as relações sociais) nos ajuda justamente a compreender que gênero nunca atua sozinho: ele se entrelaça com raça, classe, território, deficiência, sexualidade e tantas outras estruturas de poder, produzindo formas muito distintas de viver o tempo, o descanso e o direito ao prazer. Por isso que é importante entender e frisar: não basta dizer que todas as mulheres enfrentam dificuldades. Algumas carregam um peso histórico muito maior, porque acumulam desigualdades que limitam não apenas suas oportunidades, mas até sua possibilidade de imaginar uma vida para além da sobrevivência.
Talvez por isso romantizar a própria vida exija uma matéria-prima tão preciosa: tempo. E tempo no sistema capitalista, tornou-se uma poderosa invenção, um produto de mercado. Tempo também é privilégio.
Foi nas minhas férias que consegui pensar com mais carinho sobre essa expressão. E percebi que, embora algumas condições materiais ajudem, romantizar a vida também é um exercício de presença. Não é automático. É quase uma prática.
Mas há uma ressalva importante. Não confundam romantizar a própria vida com deixar de perceber abusos, violências ou relações de poder. Encontrar beleza no cotidiano não significa embelezar aquilo que nos fere, nem transformar sofrimento em virtude ou opressão em destino. Há relações, trabalhos e contextos que precisam ser denunciados, transformados ou abandonados, e não apenas suportados com mais delicadeza. O convite a romantizar a própria vida não é um chamado à resignação. É, justamente, a reivindicação de que possamos experimentar prazer, descanso e beleza sem abrir mão da lucidez diante das injustiças que atravessam nossas vidas.
Mas voltando as minhas férias e meu percurso reflexivo experiencial (risos): me peguei observando meu marido lendo na rede, meu filho correndo pelo quintal, minha filha falando da vida com uma pessoa querida, minha mãe sentada à minha frente, enquanto eu tomava um chá. Pensei: que cena bonita. Que sorte poder estar aqui para percebê-la.
Logo depois, comecei a imaginar pequenos rituais. Será que consigo criar o hábito de tomar chá à noite para desacelerar? E se eu acender uma vela, um incenso, tomar aquele banho demorado e vestir o pijama de oncinha que comprei porque me faz sentir bonita? Será que esses gestos podem se transformar em uma forma cotidiana de cuidar de mim e modificar um cenário que é tão acelerado?
Acho que deveríamos ter o direito de romantizar a vida. Todas nós. Ter tempo, dinheiro e espaço para pensar em mudanças de hábitos, para experimentar o descanso sem culpa e para nos colocarmos como protagonistas de um filme bonito, cuja trilhasonora somos nós que escolhemos. Sobreviver em permanente estado de urgência, sem tempo para habitar o próprio corpo e experimentar os pequenos prazeres da existência, não deveria ser o destino para a maioria das mulheres.
Também não quero transformar essa ideia em mais uma cobrança. Porque o capitalismo faz isso o tempo todo: transforma até o descanso em desempenho. Romantizar a vida não pode virar uma obrigação de produzir uma rotina bonita, digna de fotografia ou de postagem. Talvez romantizar seja justamente o contrário: retirar o cotidiano da lógica da produtividade e permitir que existam momentos que não precisam render nada além da própria experiência de estar viva.
Eu nem sei se vou conseguir sustentar esse propósito quando a rotina voltar. Porque basta o corre começar para que eu me veja novamente engolida pelo trabalho, pela maternidade, pelas responsabilidades e por esse combo conhecido que gera ansiedade.
Mas, ainda assim, acho que vale tentar.
Parar para perceber as diferentes tonalidades do sol nas folhas. Sentir o vento forte atravessando o corpo. Tomar um chá gostoso. Vestir uma roupa que me faça sentir especial. Fazer um exercício simplesmente porque ele dá prazer. Rir com quem se ama. Sonhar com um futuro de paz. Planejar novos bons momentos e uma vida melhor. Encontrar beleza nas cenas mais simples da vida.
Talvez romantizar o cotidiano seja exatamenteisso: recusar a ideia de que viver é apenas cumprir tarefas. É reivindicar o direito a contemplação, ao descanso, ao prazer e à delicadeza em um mundo que insiste em nos distrair, capturar, extorquir e cansar. Ver beleza nos detalhes e na vida que se leva. Admirar os pequenos prazeres como num quadro pincelado de cores.
E desejo que cada vez mais mulheres possam ter essa chance. Não como privilégio de poucas, mas como direito de todas. Que possamos encontrar beleza nos nossos pormenores, celebrar cada pequena conquista e construir uma vida em que existir seja mais do que sobreviver.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista



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