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O livro “Comida Cabocla: epistemologias do comer e viver amazônidas”, do antropólogo paraense Miguel Picanço, foi lançado ontem, 31, no estande do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, na 29ª edição da Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, em meio a uma roda de conversa coordenada pelo presidente do IHGP, professor doutor Álvaro Negrão do Espírito Santo, intitulada Comida Parauara. Os diálogos sobre a comida cabocla foram saborosos, com direito a imersão gustativa regada a café com farinha de coco e mingau de massa de mandioca/ crueira/ bolota e chibé com camarão.


A obra Comida Cabocla traz referências alimentares que contam histórias, acionam memórias, afetos e pertencimentos por meio de narrativas textuais e imagéticas que testemunham o lugar que a comida, como cultura, tem ocupado na vida dos povos amazônidas, explica o professor doutor Miguel Picanço. “O livro discorrre sobre essa cultura alimentar acionando perspectivas culturais, simbolicas, políticas, ecológicas e religiosas”, pontua o autor, citando a maniçoba e o beiju, ambos descendentes da mandioca, compreendidos como comidas sagradas: a maniçoba como oferenda no almoço do Círio aos crentes católicos e o beiju que é doado, recebido e retribuído pelas comunidades da Amazônia Atlântica, também como dádiva sagrada durante a Sexta-Feira Santa, performado por princípios de comunhão e fraternidade, carregando consigo memórias e analogias ao pão ázimo.


O livro é um desdobramento da tese de doutorado de Miguel Picanço em Ciências Sociais, na Universidade de Barcelona, Espanha. “É um retorno às experiências na Amazônia com o objetivo de repensar a comida cabocla para além de interpretações clássicas que a reduzem à necessidade biológica. Plantar, colher, pescar, caçar, cozinhar, comer, transformar e partilhar comidas aparecem aqui como práticas, através das quais diferentes coletivos produzem mundos, constroem relações e elaboram formas próprias de existir”, explica Miguel Picanço, acrescentando que “a comida cabocla, nesse horizonte, ultrapassa o conjunto de ingredientes, receitas ou técnicas culinárias. Ela constitui uma forma de habitar a Amazônia, um modo de conhecer a vida e de tecer vínculos entre humanos, não humanos, territórios e ancestralidades. A comida cabocla emerge, assim, como uma ecologia de saberes”. E o antropólogo finaliza: “Na comida cabocla coexistem conhecimentos indígenas, experiências caboclas, influências africanas, práticas camponesas, observações ecológicas e saberes contemporâneos produzidos por diferentes campos científicos. E, justamente, esse livro nasce desse encontro entre ontologias e epistemologias do comer e do viver, para afirmar a legitimidade dos conhecimentos produzidos pelos povos da Amazônia”.


O prefácio do livro é assinado por Maria Eunice Maciel, referência no campo da Antropologia da Alimentação e professora no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A obra, que apresenta dados etnográficos e fotoetnográficos, vem acompanhada por um papel-semente, podendo ser plantado na terra e, dentro de dez a 15 dias é possível que nasça um pé de pimenta, pimentão ou de manjericão. E o leitor recebe o livro no interior de uma bolsa-cofo, tecida com a palha do coco de babaçu, que é uma sabedoria ancestral, própria da comunidade de Araí, em Urumajó, na cidade paraense de Augusto Corrêa, onde a pesquisa foi desenvolvida. A bolsa-cofo foi produzida por Miguel Siqueira, 83 anos, pescador, nativo e morador da comunidade de Arai, e pai do autor do livro.

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