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Dizem que política e religião não se discute. Concordo em parte.


Religião pertence ao sagrado, é questão de fé. Religião, portanto, não se discute, respeita-se.


Política pertence ao mundano, é questão de escolha. Política, portanto, é para respeitar, mas é também para discutir, debater, criticar e polemizar.


Embora, ao longo da história da humanidade essas duas dimensões (religião e política) tenham se cruzado, considero um grave erro confundir púlpito com palanque eleitoral.


Um padre ou pastor podem ter preferências políticas, porque são cidadãos, mas não podem, na condição de líderes religiosos, impor a sua visão política aos seus irmãos de Igreja.


Igreja não participa de mesa de negociação de cargos políticos.
Igreja não tem partido. Estado não tem religião. Simples assim.


Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, a população do estado do Pará tem cerca de 54% de católicos e 35% de evangélicos.


Em torno de 7% da população paraense, também de acordo com o IBGE, não têm religião, o que equivale a mais de meio milhão de pessoas.


Quem governa tem o dever de governar para todos, e não apenas para o seu segmento. Um governante, qualquer governante, não importa se é católico, evangélico, umbandista, espírita ou sem religião, tem que governar para todos.


Católico não paga mais impostos que um evangélico, que não paga mais impostos que um umbandista, que não paga mais impostos que um espírita, que não paga mais impostos que um ateu. A cidadania não é medida ou atribuída pela fé religiosa, mas pela Constituição Federal.


Não tem cabimento um grupo de pastores mobilizar-se para vetar esse ou aquele partido numa chapa ao governo, ou apontar esse ou aquele político como “representante” de sua fé. Teria algum cabimento um partido político decidir quem vai dirigir essa ou aquela Igreja?


Do mesmo modo, não tem cabimento um grupo de pastores colocar numa mesa de negociação política o número de fiéis de suas igrejas, como se todos os que professam a mesma fé professassem a mesma visão política e as mesmas preferências eleitorais.


Pastor que leva a contabilidade de sua Igreja para a mesa de negociação política, não respeita os seus fiéis, e não respeita a sua Igreja. Pastor que age dessa maneira nada mais faz do que usar os fiéis como moeda de troca e massa de manobra, o que imagino ser um grave pecado perante os olhos de Deus.


Fosse assim, num país de maioria católica, os padres teriam o direito de apontar o presidente. No caso do Pará, igualmente de maioria católica, haveria o reforço de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira dos paraenses, o que tornaria a disputa muito desvantajosa para quem não acredita na “Nazinha”.


É um direito que assiste ao partido Avante querer o lugar de vice na chapa da governadora Hana à reeleição, mas que tirem Deus e os fiéis da Mesa mundana das negociações, e coloquem o tamanho do partido na conversa, por exemplo: quantos votos obtiveram nas últimas eleições e quantos parlamentares têm nas suas fileiras.


Considerando que os cristãos acreditam no céu e no inferno, a utilização de fiéis para barganhar cargos políticos contará bastante na hora do juízo final em desfavor de quem a pratica.


Charles Alcantara
Paraense de Belém, 57 anos, Charles Alcântara é Auditor Fiscal de Receitas do Estado do Pará desde 1993. Foi Chefe da Casa Civil do Estado do Pará, de janeiro de 2007 a abril de 2008. Exerceu a presidência do Sindicato dos Servidores do Fisco Estadual do Pará (Sindifisco-PA) por dois mandatos, de 2009 a 2014. E, desde junho de 2020, voltou à presidência da entidade. Exerce também a presidência da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), em seu segundo mandato.

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