Publicado em: 4 de julho de 2026
Para Avertano Rocha
Há um pensamento concretizado por uma frase de Sigmund Freud (1836-1939) que continua surpreendendo leitores de Psicologia e Literatura: “Os poetas e romancistas são aliados preciosos.” Não se trata de um elogio feito por gentileza. Freud acreditava que a literatura alcançava regiões da experiência humana que a ciência de seu tempo ainda não conseguia explicar. Antes que muitos conceitos fossem formulados pela psicanálise, os escritores já descreviam os conflitos, os desejos, as culpas, os medos, as ambições, as ansiedades que habitam silenciosamente a vida das pessoas. Por isso, ler um grande romance ou um poema também é uma forma de conhecer o ser humano.
Coloco um parêntese aqui para informar ao leitor que o olhar para este texto baseia-se na função da arte e especificamente na Literária.
Freud não pensa a literatura como um entretenimento. Para ele, a criação literária era uma forma de revelar aquilo que permanece encoberto no cotidiano. Enquanto a ciência busca provas, medidas e classificações, o escritor trabalhava com personagens, metáforas, lembranças, sonhos e verossimilhança. Curiosamente, muitas das narrativas mergulhadas no texto Literário e nas artes, revelavam aspectos da mente humana que indubitavelmente seriam reconhecidos pela psicanálise.
Em um de seus textos mais conhecidos sobre arte, “Escritores criativos e devaneio” de 1907, afirma: “Os escritores criativos e os poetas são aliados muito valiosos, e seu testemunho deve ser altamente considerado, pois costumam conhecer uma pluralidade de coisas “entre o céu e a terra que nossa filosofia ainda não sonhou.” Essa afirmação mostra sua admiração pela capacidade da literatura de perceber aquilo que ainda não recebeu um nome científico. O escritor observa a vida de dentro, enquanto a ciência frequentemente a observa de fora.
Essa ideia muda completamente a maneira como entendemos a relação entre literatura e psicanálise. Não é a arte que depende da teoria para existir. Pelo contrário. Muitas vezes é a teoria que precisa escutar a arte para ampliar sua cosmovisão. A literatura não serve apenas para confirmar conceitos psicológicos. Ela desafia esses conceitos, amplia perguntas e revela situações que obrigam a psicanálise a continuar pensando.
Por isso, pode-se afirmar que a arte não ilustra a psicanálise; ela a provoca a construir novos saberes. Essa afirmação sintetiza uma das relações mais fecundas entre essas duas áreas. A literatura apresenta experiências humanas que nenhuma definição consegue esgotar. Cada personagem carrega contradições, dúvidas e desejos que escapam às classificações simples.
Freud percebeu que muitos escritores chegavam intuitivamente às mesmas descobertas que ele realizava em seu consultório. Enquanto ele escutava seus pacientes, romancistas e poetas ouviam atentamente a condição humana. Ambos trabalhavam com histórias, memórias, perdas e fantasias. A diferença estava no caminho percorrido para chegar a elas.
Essa aproximação aparece de forma especial quando analisa o funcionamento dos sonhos. Em “A Interpretação dos Sonhos” (1899), demonstra que o sonho fala por imagens, deslocamentos e símbolos. A literatura faz algo semelhante. Um poema raramente diz tudo de forma direta. Um romance frequentemente revela mais pelo silêncio do que pelas explicações. Em ambos os casos, compreender exige interpretar.
Não é por acaso que Freud utilizou inúmeras obras literárias em seus estudos. Em vez de considerar os romances como simples ficção, ele percebeu que eles continham um conhecimento profundo sobre o sofrimento humano. Os personagens vivem dilemas que continuam atuais porque representam conflitos presentes em diferentes épocas.
Ao comentar a tragédia de Édipo, Freud não estava interessado apenas na história criada pelos gregos. Seu interesse era compreender por que aquela narrativa continuava emocionando leitores durante tantos séculos. Para ele, uma obra permanece viva quando toca experiências universais da existência humana, mesmo que essas experiências nem sempre sejam conscientes.
A literatura possui uma característica que nenhuma teoria consegue substituir. Ela permite que o leitor experimente sentimentos sem precisar vivê-los diretamente. Ao acompanhar a trajetória de um personagem, reconhecemos partes de nós mesmos. Algumas nos agradam. Outras incomodam profundamente. É justamente nesse encontro que a leitura ganha força transformadora.
Freud também escreveu que “A obra de arte é uma satisfação imaginária de desejos inconscientes.” Essa frase não reduz a criação artística a um simples desejo escondido. Pelo contrário. Mostra que a arte transforma experiências pessoais em algo capaz de alcançar milhares de pessoas. O sofrimento individual encontra uma linguagem que passa a pertencer também ao outro.
É exatamente por isso que a literatura atravessa gerações. Mudam os costumes, as tecnologias e as formas de viver e permanecem questões fundamentais: o medo da perda, a busca pelo amor, a culpa, o desejo, a morte e a esperança. Em outras palavras, há a fuga da dor e a busca da felicidade. Os grandes escritores falam dessas experiências porque elas fazem parte da condição humana.
Para os estudantes de Letras e de Psicologia, essa aproximação revela que uma obra literária nunca é somente um conjunto de palavras bem organizadas. Cada narrativa carrega marcas da experiência humana, das emoções, das escolhas e dos conflitos que atravessam seus personagens. Utilizar a literatura significa aprender a escutar aquilo que muitas vezes não é dito explicitamente. Ela ensina que nenhuma pessoa pode ser reduzida a um diagnóstico ou a um conceito. Assim como os personagens, cada sujeito possui uma história única. Nesse diálogo entre Literatura e Psicologia, o leitor ocupa um lugar fundamental. Cada leitura produz sentidos diferentes porque cada pessoa lê a partir de sua própria história. Um mesmo romance pode despertar identificação em um leitor e provocar estranhamento em outro. Não existe uma única interpretação definitiva, porque também não existe uma única forma de viver.
Talvez essa seja, entre tantas, uma das lições deixadas por Freud. Conhecer o ser humano não significa apenas acumular informações sobre ele. Significa aprender a ouvir suas narrativas, seus silêncios, seus sonhos e suas lembranças. A literatura realiza esse exercício há séculos, mostrando que as palavras também podem revelar aquilo que permanece escondido.
Quando Psicologia e Literatura caminham, ambas se fortalecem. A psicanálise encontra novas perguntas para suas investigações, enquanto a literatura ganha novas possibilidades de interpretação. Elas dialogam porque compartilham o mesmo interesse: compreender a complexidade da experiência humana.
Talvez seja por isso que Freud tenha reconhecido os poetas como aliados tão importantes. Eles enxergam o que muitas vezes passam despercebidos. Nomeiam emoções difíceis de explicar. Transformam conflitos em narrativas que permanecem vivas muito depois de terem sido escritas.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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