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Nenhuma evidência científica comprova que injetar vitaminas na veia de uma pessoa saudável aumente a energia, reforce a imunidade ou rejuvenesça. O alerta é da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicado em 14 de julho de 2026, e trata da prática que as redes sociais rebatizaram de “soroterapia”.

O nome pegou emprestado o prestígio de outra coisa. Soroterapia, na medicina brasileira, é o tratamento feito com soros antiofídicos e antitoxinas, produzidos por instituições como o Butantan para salvar quem foi picada por uma cobra ou exposta a toxinas. A versão vendida em clínicas de estética e em vídeos de influenciadoras é uma infusão de vitaminas e outras substâncias que, segundo a agência, só tem indicação em situações específicas, como desidratação ou impossibilidade de receber nutrientes pela alimentação. Fora disso, a Anvisa afirma não haver comprovação de segurança nem de eficácia, e lista infecções, reações alérgicas e hipervitaminose entre as complicações possíveis. Excesso de vitaminas pode provocar náusea, vômito, dor de cabeça e danos ao fígado e aos rins.

Para quem convive com uma doença crônica, a promessa custa mais caro. É o que a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) vai discutir na conferência “Fake News em doenças reumáticas autoimunes”, conduzida pelo reumatologista Samuel Katsuyuki Shinjo, professor associado de reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, durante o Encontro Nacional de Pacientes do 43º Congresso Brasileiro de Reumatologia, nos dias 2 e 3 de setembro, em Curitiba.

“Descoberta revolucionária”. “Cura definitiva”. “Tratamento natural que elimina a doença”. Mensagens assim circulam diariamente em redes sociais e aplicativos de mensagem, e encontram pessoas que já esgotaram a paciência com uma doença que não tem cura.

Lúpus, miopatias inflamatórias, vasculites e esclerose sistêmica exigem acompanhamento contínuo e tratamento individualizado, construído sobre evidência científica. Quando a paciente abandona a terapia que funciona para seguir uma orientação sem comprovação, cresce o risco de agravamento, de sequelas permanentes e de complicações graves.

Segundo o reumatologista, a fraude é difícil de identificar justamente porque é bem construída. Quem recebe esse tipo de conteúdo costuma encontrar narrativas com linguagem científica, depoimentos emocionantes e promessa de resultado rápido.

“O objetivo é ajudar pacientes e familiares a desenvolverem um olhar crítico diante das informações que recebem. É importante compreender até que ponto podemos confiar em determinadas mensagens, como identificar sinais de alerta e quais são as fontes confiáveis para buscar informações sobre a doença e seu tratamento”, explica.

Boa parte desses protocolos não chega ao público pela boca de leigos. Chega por médicas e médicos com consultório, diploma e perfil verificado, o que dificulta ainda mais a checagem por parte de quem está doente.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe essa publicidade desde antes da era dos reels. A Resolução 2.336, de 2023, veda ao médico “garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento” e “divulgar método ou técnica não reconhecido pelo CFM”. O texto trata ainda de propaganda que anuncie práticas “revolucionárias ou milagrosas” e restringe o uso de depoimentos de pacientes e de imagens de antes e depois, que só podem aparecer em conjunto, incluindo evoluções insatisfatórias e complicações. Elogios reiterados de terceiros a uma técnica devem ser investigados pelos conselhos.

A norma também impede que o médico participe de publicidade de medicamento, insumo, equipamento ou alimento induzindo à garantia de resultado, e que confira selo de qualidade a produtos.

Algumas práticas populares nas redes já têm resposta específica dos conselhos. A ozonioterapia foi regulamentada pela Resolução CFM 2.445, de agosto de 2025, que autorizou o uso tópico em úlceras venosas crônicas, arteriais isquêmicas e de pé diabético, em feridas infecciosas agudas, a injeção intra-articular na osteoartrite de joelho e as injeções paravertebrais ou intradiscais na dor lombar por hérnia de disco. Fora dessa lista, o cenário é outro. As vias intravenosa, retal, inalatória e o uso estético seguem classificados como experimentais, diante da variabilidade dos protocolos, da ausência de estudos clínicos controlados e do registro de eventos adversos graves. O uso contra câncer está proibido, salvo em pesquisa clínica formalmente aprovada. Nenhuma doença reumática autoimune aparece entre as indicações autorizadas.

A chamada modulação hormonal seguiu caminho parecido. A Resolução CFM 2.333, publicada em abril de 2023, proibiu a prescrição de esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular e melhora de desempenho esportivo, mantendo autorizada apenas a reposição em deficiências comprovadas, como hipogonadismo e puberdade atrasada. O conselho aponta risco cardiovascular, hepático, endócrino, psiquiátrico e de fertilidade no uso indiscriminado.

A escassez de evidência não é uma opinião aleatória. Em 2020, a Canadian Agency for Drugs and Technologies in Health (CADTH) revisou a literatura sobre suplementação intravenosa de multivitaminas e micronutrientes em ambiente hospitalar e ambulatorial. As pesquisadoras Charlotte Wells, Robyn Butcher e Suzanne McCormack encontraram uma única revisão sistemática elegível, que não continha estudos primários relevantes. Sem material, não houve conclusão possível sobre efetividade.

O levantamento sobre danos é mais informativo. Uma revisão de escopo publicada na Critical Care Medicine em 2020 reuniu relatos de nefropatia por oxalato, hipernatremia, hemólise em pacientes com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, formação de cálculo renal e erro de leitura em glicosímetro associados à vitamina C intravenosa em altas doses. Em ensaios randomizados duplo-cegos, os autores não identificaram evidência consistente de que a terapia seja mais prejudicial que placebo. O balanço é este. Não há benefício demonstrado para pessoas saudáveis, e há sinais de dano que exigem monitoramento.

O detalhe importa em reumatologia. O lúpus pode atingir os rins, quadro que a própria SBR reconhece em consenso específico sobre nefrite lúpica, e a Anvisa aponta os rins entre os órgãos afetados pelo excesso de vitaminas.

Em outubro de 2024, o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul emitiu alerta sobre o avanço da soroterapia em tratamentos estéticos. O presidente do órgão, Carlos Idelmar de Campos Barbosa, foi direto.

“Aplicar esse tratamento em pessoas sem indicação clínica é irresponsável e pode causar danos à saúde”, afirmou.

A Anvisa recomenda verificar se o produto usado está regularizado na agência e se a profissional que aplica tem habilitação, consultando o conselho da categoria. Há um ponto que costuma escapar. Cosmético injetável não existe do ponto de vista legal. O que entra na veia precisa ser medicamento ou dispositivo médico aprovado.

O terreno é fértil. Um levantamento do Ipsos de 2018, com 19.243 pessoas em 27 países, apontou que 62% da população brasileira acreditava em informações infundadas, o topo do ranking. Em 2022, pesquisa do Instituto Locomotiva com 1.032 pessoas registrou que 88% já haviam acreditado em alguma notícia falsa.

Além do dano físico, a desinformação produz falsa expectativa, frustração e prejuízo financeiro, já que boa parte desses produtos e métodos é comercializada com promessas impossíveis de cumprir.

Na conferência em Curitiba, o público vai ver exemplos reais de conteúdos falsos que circulam na internet e receber critérios de avaliação, como verificar a origem da informação, identificar conflitos de interesse e reconhecer as características comuns das mensagens enganosas. A atividade é dirigida a pacientes, associações de pacientes, familiares e cuidadoras.

Estima-se que as doenças reumáticas atinjam mais de 15 milhões de pessoas no Brasil. Estão entre as maiores causas de dor crônica, incapacidade funcional, afastamento do trabalho e aposentadoria por invalidez, e incluem artrite reumatoide, osteoartrite, espondiloartrites, artrite psoriásica, lombalgia, lúpus eritematoso sistêmico, fibromialgia, osteoporose, gota, febre reumática, vasculites, doença de Sjögren, doença de Behçet e esclerose sistêmica.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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