Publicado em: 25 de setembro de 2026
Os Deni do rio Xeruã voltaram a realizar o Bani Vadanaha, a festa da caça, depois de mais de duas décadas sem a celebração. Feita entre junho e julho na Terra Indígena Deni, no Amazonas, a festa durou mais de 40 dias e juntou caçada coletiva, cantos, rituais, pinturas, brincadeiras e partilha de comida entre as famílias do território.
A retomada foi decidida em abril de 2025, numa reunião na Aldeia Itaúba com lideranças de todas as aldeias da terra indígena. A proposta passou por unanimidade. No mesmo encontro, os Deni escolheram os rituais e os cantos da programação, dividiram as tarefas e montaram o calendário de preparação.
O pedido veio das pessoas mais velhas. Elas perceberam que muitos jovens, já com família formada e responsabilidades na comunidade, nunca tinham participado do Bani Vadanaha, e temiam que cantos, rituais e práticas ligadas ao território deixassem de ser passados adiante. “Agora, fizemos uma grande luta para realizar novamente a festa, porque os mais velhos estão indo embora e, com eles, parte dos conhecimentos. Fizemos esse grande esforço para repassar esse conhecimento para os mais jovens”, conta Vabishi Deni, liderança do povo e uma das pessoas à frente da organização.
O eixo da festa é o itavari, laço semelhante ao compadrio que une duas famílias num compromisso de companheirismo e cuidado mútuo pela vida inteira. “Itavari significa a gente unir a nossa família com a do outro para formar uma grande família”, explica Pha’avi Deni, presidente da Associação do Povo Deni do Xeruã (Aspodex).

É para selar esse vínculo que se organiza a caçada. Cerca de 100 pessoas, divididas em cinco grupos de caçadores e suas famílias, passaram 18 dias acampadas em pontos diferentes da floresta. Enquanto os caçadores andavam pela mata atrás dos animais, o restante das famílias preparava e defumava a carne nos acampamentos, com o fogo aceso sem interrupção.
Nada ali se faz sem saber acumulado. Para achar a caça, os caçadores leem sons, cheiros, rastros e sinais do céu. Na defumação, é a experiência que mantém o fogo baixo e constante, condição para a carne se conservar.
“É uma relação harmônica entre humanos e não humanos. Uma ecologia plural, uma relação íntima dos Deni com os seres que vivem no território. A vida vai correndo através da floresta e da água, de forma bonita e natural”, observa Karina Nymara, indigenista da Operação Amazônia Nativa (OPAN) que acompanhou a celebração.
Na aldeia Boiador, a comunidade separou comida e bebida, construiu pontes e abriu caminhos para a passagem dos caçadores. Ninguém sabia o dia do retorno, e a chegada de surpresa faz parte da festa.
Os primeiros pontos de luz apareceram na floresta depois da meia-noite. Da aldeia, os Deni acompanharam a aproximação enquanto Doutor Barros, a liderança mais velha, narrava na língua Deni o percurso feito na mata.
Vieram cantos, pinturas e adornos, e logo a corrida entre os itavari. Crianças, homens e mulheres entraram na disputa, em que os caçadores tentavam alcançar o itavari que tinha ficado na aldeia e tomar dele pequenos cocares ou flechas enfeitadas, que valem como troféu.

As caças seguiram para o centro da aldeia e foram recebidas por uma roda ao som do Bani Tamidi, o canto da caça. A carne depois foi repartida entre as famílias dos itavari e servida no terreiro com banana, macaxeira, abacaxi, cará e farinha dos roçados, além do kirihá, bebida fermentada de patauá com goma de farinha de tapioca.
Nos dias seguintes, a aldeia brincou de Manu (macaco cairara), Hizama (queixada) e Hava Pashu (cobra d’água). As noites foram dos cantos Zazaha e Mishe Biriharu. O Shiri, disputa por pedaços de cana-de-açúcar e abacaxi, fechou o ciclo aberto com a formação dos itavari, e as famílias voltaram para suas aldeias.
A retomada do Bani Vadanaha teve apoio do projeto Raízes do Purus, da OPAN em parceria com a Petrobras. A equipe de indigenistas do projeto acompanhou as etapas da festa junto aos Deni. “Presenciando todo esse processo da festa e observando a relação do povo com a natureza e com as suas tradições, percebemos o quão forte a cultura Deni é”, diz Raimundo Francisco, indigenista da OPAN.
Fotos: Bruno Kelly / OPAN










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