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Uma frase. Gravada. Abril de 2020. Um presidente diante de ministros, diante do país, escolhe as palavras mais sinceras que já disse: “Eu não vou esperar f*** a minha família toda.”

Ele não estava ameaçando. Estava confessando. A família primeiro. A Polícia Federal depois. A Justiça, mais depois. A República, nunca.

Por isso Sergio Moro — o próprio ministro deles — pediu demissão com uma acusação que atravessou o país: interferência na PF para blindar a família. Um presidente trocaria o superintendente, trocaria o chefe da corporação, trocaria até o ministro da Justiça. Pelo filho investigado. Pelo sangue.

Não há metáfora aqui. Há confissão.

E agora esse mesmo filho pede o seu voto para sentar na cadeira mais alta do país. Não para governar o Brasil. Para blindar a família.

O Estado é feito de papéis. Constituições. Atas. Relatórios. Folhas de frequência. E é dos papéis que essa família nunca conseguiu escapar.

Dezembro de 2018. O Coaf abre os arquivos e encontra o que ninguém apagou: R$ 1,2 milhão escorrendo pela conta de Fabrício Queiroz, o motorista. Um repasse à futura primeira-dama. Um título de R$ 1.016.839 pago por Flávio — sem destinatário, sem explicação.

Depois, o Ministério Público do Rio desenhou o esquema das rachadinhas:

Doze funcionários. R$ 6,1 milhões. Saques em espécie. 169 boletos pagos com dinheiro vivo da família.

A denúncia caiu em 2022, anulada por vícios de prova. Flávio não foi condenado nesse caso — isso é fato, e ninguém honesto inventa o que a Justiça não disse. Mas repare no que a Justiça disse e no que ela não disse: as provas saíram do rito. O dinheiro, ninguém disse que não existiu. Um tribunal pode declarar inadmissível um papel. Nenhum tribunal pode declarar inadmissível a memória de um país.

Há uma pergunta que nenhum recurso responde: que transparência podemos esperar de quem quer administrar o Brasil? Quem quer governar presta contas. Não espera a Justiça cobrar.

Nada revela mais um político do que as pessoas com quem ele escolhe se sentar.

Em 2023, uma assessora do senador sentou, pessoalmente, diante de Robson Calixto — o “Peixe” — e negociou quase R$ 200 mil de uma emenda parlamentar em troca de vantagens. O escândalo não é o valor. É o outro lado da mesa: “Peixe” foi condenado por unanimidade pelo Supremo a nove anos de prisão por participar do assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes. Era o “faz-tudo” dos irmãos Brazão, os mandantes. Do mesmo subsolo saiu Ronnie Lessa, o atirador.

A resposta do candidato foi uma nota de gabinete: a emenda seguiu “a legislação vigente”. Sobre a mesa ao lado de um condenado por matar uma vereadora — nenhuma palavra. Um abismo de silêncio.

E não foi num vácuo. Em 2007, Flávio subiu à tribuna da Alerj e chamou as milícias de “novo tipo de policiamento”. Chamou os crimes de milicianos de “casos isolados”. Disse que pagaria R$ 30, R$ 40 por mês “para ter mais segurança”. Condecorou dezenas de milicianos com a Medalha Tiradentes — entre eles Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime. Empregou no próprio gabinete a mãe e a mulher dele.

Ninguém está dizendo que ele é miliciano. A Justiça não disse. Mas os discursos dizem. As medalhas dizem. As folhas de frequência dizem. As negociações dizem: ele legitimou, homenageou, empregou e negociou com quem mata. Quem governa escolhe delegados, comandantes, chefes de polícia. Escolhe quem investiga. Escolhe quem protege. E a história dele não oferece garantia nenhuma de que essa escolha ficará longe da sombra.

Aí veio a bomba que estourou na véspera. Desde julho, Flávio é alvo de investigação formal por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento de “Dark Horse” — a cinebiografia que endeusa o pai. A Polícia Federal o aponta como “interlocutor direto” de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Áudios mostram o candidato pedindo dinheiro. Reportagens falam em R$ 134 milhões. Mensagens apreendidas falam em cobranças. E um voo no jatinho de Vorcaro trouxe o nome dele de volta à berlinda dias antes do pleito.

Investigação não é condenação. Flávio tem direito à presunção de inocência, e este texto não antecipa a Justiça. Mas a pergunta do eleitor não é jurídica — é de critério: que país entrega a Presidência a alguém que, às vésperas da eleição, responde por suspeita de lavagem de dinheiro num esquema bilionário? A Justiça dirá se ele é culpado. O eleitor decide se quer correr o risco de descobrir.

E o risco não termina aí. Há a fraude do INSS. Há a teia do Banco Master — o que o Ministério da Fazenda descreveu como possivelmente a maior fraude já registrada contra o sistema financeiro nacional. Flávio não está sozinho nessa teia. Mas está nela, como investigado, disputando a Presidência.

Flávio prometeu abrir a floresta. Não em surdina: em programa de governo impresso. O Observatório do Clima leu o plano: sete propostas claramente antiambientais, uma positiva. Combustíveis fósseis para explorar. Licenças tácitas para conceder. Combate apenas ao desmatamento ilegal — como se o legal, por ser legal, deixasse de ser destruição.

Em 2019, ele coassinou o projeto que rasgava a reserva legal do Código Florestal — o coração da proteção ambiental na propriedade rural — só para liberar o lucro. Recuou quando o Brasil reagiu. Mas o projeto ficou de pé, como retrato: é isso o que ele faz quando pode.

Em 2024, no maior desastre climático recente do país, Flávio foi o único senador a votar contra a lei de adaptação à mudança do clima. Único. Num país que ardia. Na véspera, disse que não era contra; no voto, disse outra coisa. Palavra e voto não se reconciliam.

Defende o marco temporal. Sugere que os povos originários virem pecuaristas e mineradores dentro das próprias reservas. Em Belém, entregou a fiscalização da floresta a quem passa: “o turista é o maior fiscal do meio ambiente”. Como quem entrega a chave de casa a um visitante. E o partido dele lidera o ranking das multas ambientais do Ibama: treze candidatos, R$ 6 milhões em multas em três anos.

O próprio programa tem um capítulo chamado “Meio ambiente: o ativo verde do Brasil”. Mercado de carbono. Bioeconomia. Palavras bonitas que o Observatório do Clima confronta com o que falta: nenhuma meta de redução de emissões, nenhuma menção ao Acordo de Paris, e a aposta no fracking. Um plano que promete acabar com o desmatamento ilegal esquece todo o desmatamento que a lei permite — e é exatamente por aí que a floresta continua caindo.

O governo que ele invoca como referência deixou a Amazônia com desmatamento 73% maior em três anos, recorde histórico nas áreas protegidas, alta de 157% nas terras indígenas. A chefia da fiscalização do Ibama teve 19 ocupantes em quatro anos. O número tem nome: crise humanitária Yanomami. O mercúrio tem endereço: os rios — e os corpos.

Flávio negou, em sabatina nacional, a influência humana no aquecimento global. Disse não acreditar que a mudança do clima tenha “a ver diretamente só com a influência do ser humano”. A ciência, porém, não cede a decreto: quem nega o aquecimento precisa explicar os rios que secaram, as cidades que alagaram, o calor que não dá trégua.

E o negacionismo não parou no clima. Chegou à saúde, e o Brasil ainda chora as consequências. O pai conduziu a pandemia com remédios sem eficácia, atraso na compra de vacinas, ataques às medidas sanitárias. Mais de 700 mil mortos. A CPI pediu a responsabilização do pai e de três filhos — entre eles Flávio — e descreveu uma “estratégia macabra”. Flávio hoje defende o pai: “tomou todas as vacinas, menos a da covid”.

É o negacionismo como herança. Passado de pai para filho, como uma relíquia.

E ele fez uma promessa sem hesitar — a única que deveria fazer você hesitar. “Decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”: entre os primeiros atos de governo. Não é fé. É programa. A Constituição que ele promete jurar proíbe o Estado de instituir religião, subvencioná-la ou preferir cidadãos por credo. Um país que decreta religião não separa mais o púlpito do poder. E o obscurantismo começa exatamente aí: quando a verdade deixa de ser verificada e passa a ser decretada.

Ninguém aqui discute a fé de ninguém. O que está em jogo é a garantia de que o Estado não pertencerá a nenhum credo — porque, no dia em que pertencer, deixará de pertencer a todos.

O clã sempre tratou a democracia como detalhe. Às vezes, como piada. Em 2018, Eduardo Bolsonaro explicou o método num vídeo: para fechar o Supremo, “você não manda nem um jipe, manda um soldado e um cabo”. Chamaram de “tom jocoso”. Anos depois, o ministro que presidiu o inquérito do 8 de janeiro devolveu a piada: “cabo, soldado e coronel estão presos”.

O deboche virou dossiê. O Supremo condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão pela tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. A trama terminou em 8 de janeiro de 2023: a depredação dos Três Poderes, mais de 1,4 mil presos, dezenas de condenados por golpe.

E o filho, o herdeiro, o candidato — como reagiu? Negou o golpe. Chamou o relator de “tirano”. Defendeu o impeachment de ministros. Prometeu anistia “ampla, geral e irrestrita” — não só ao pai: a todos os condenados do 8 de janeiro. E convocou ato em Brasília pela anistia, na véspera da eleição.

Leia de novo, porque este é o ponto mais grave. Quem nega o golpe de 2023 está dizendo que derrubar a democracia é aceitável. Quem promete perdoar golpistas transforma o levante contra a urna em moeda eleitoral. Anistia, para ele, não é pacificação: é a validação retroativa do que o pai tentou.

Uma democracia sobrevive a crises. Não sobrevive a quem faz da crise o projeto. E a pergunta mais elementar da política: quem não garante que respeitará o resultado da eleição — por que pediria o seu voto? A urna que ele quer ocupar é a mesma que o seu campo tentou derrubar.

Em julho, diante de diplomatas, ele afirmou que as urnas brasileiras eram da Smartmatic, a empresa citada em suspeitas de fraude na Venezuela. A Justiça Eleitoral desmentiu: a empresa não fornece urnas nem participa da programação dos equipamentos no Brasil. A fala repetiu, diante de dezenas de países, a mesma desconfiança que tirou o pai da disputa. Perguntado se respeitaria o resultado, a resposta veio torta — dias depois, aceitaria. Mas a dúvida já tinha sido plantada. No palco certo. Na hora errada.

O marco temporal não é uma tese neutra. É a ferramenta para desconstituir demarcações, abrir territórios à grilagem e à mineração e reduzir a direitos de papel os povos que estavam aqui antes de a palavra “Brasil” existir. Flávio é coautor da PEC que transfere ao Congresso a demarcação de terras indígenas e áreas protegidas — tira a proteção de quem protege e entrega a chave a quem especula. A Funai já alertou: a queda de vetos ameaça diretamente as terras indígenas.

Direitos humanos não são pauta de nicho. São a régua de uma civilização: como tratamos quem é minoria, quem é originário, quem é pobre, quem não tem voz. O projeto bolsonarista chama isso de obstáculo ao “desenvolvimento” — e chama de desenvolvimento a entrega da terra, da água e da vida a quem tem capital para comprar a licença.

Em março, Flávio foi recebido por Trump. Nos Estados Unidos, disse que o Brasil poderia ser a “solução” para Washington explorar mais terras raras. Dias antes, um aliado dele já tinha produzido um documento propondo parceria mineral — na prática, transformar o Brasil em fornecedor estratégico para os EUA. O discurso foi recebido como lesa-pátria: oferecer as riquezas do país como moeda de alinhamento é subordinar o interesse nacional. E o irmão, Eduardo, foi a Washington buscar sanções contra autoridades do próprio país.

Soberania não é conceito abstrato. É a resposta a uma pergunta: quando o interesse do Brasil cruzar com o interesse da família — ou com o interesse de Washington —, qual vence? Com esse projeto, a resposta já é conhecida. Não se trata de um presidente que conversa com os EUA, como todo presidente deve. Trata-se de um candidato que oferece o território como moeda de alinhamento. Com a Amazônia como garantia.

O que se decide em outubro não termina em outubro. Segurança, Justiça, floresta, território, saúde, democracia — tudo atravessa mandatos. E quem ainda não nasceu não escolhe o que vai herdar.

Uma política de segurança dirigida por quem legitimou milícia não protege: submete. Uma floresta entregue não produz para sempre: some. Um país que nega a ciência não cura: enterra. Uma democracia entregue a quem nega o golpe não elege governos: escolhe donos.

Cada eleitor tem o direito de votar em quem quiser — a Constituição garante, e este texto respeita. Mas que todos saibam o tamanho do risco: levar as milícias ao topo do poder, reabrir a floresta ao desmate, rasgar os direitos originários, subordinar o Brasil a Washington, fazer do negacionismo a política oficial da saúde e do clima, decretar uma religião de Estado e transformar o perdão a golpistas em programa de governo. Não como acusação: como consequência lógica de duas décadas de escolhas.

A República não se herda. E o voto, nesta eleição, não decide um nome: decide se o Estado volta a ser coisa pública — ou se vira, de uma vez, o patrimônio de um clã.

Antes de votar, leia o que ele fez. Depois, decida o tamanho do risco que uma família pode carregar para dentro do Estado.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

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