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Betsy Klein, correspondente da CNN, tentou entrar três vezes na Casa Branca na manhã desta quinta-feira (24) e foi barrada nas três. Poucas horas antes, por volta da 1h no horário de Washington, o juiz federal Timothy J. Kelly tinha mandado o governo Donald Trump devolver imediatamente o acesso de jornalistas da CNN, da MS NOW e do Politico. Até o fim da manhã, ninguém sabia dizer se a ordem judicial estava sendo desobedecida de propósito ou se a segurança do prédio simplesmente não tinha sido avisada. Enquanto isso, Trump recebia o líder chinês Xi Jinping para uma série de reuniões sem que as grandes redes de TV transmitissem uma imagem sequer, já que o pool televisivo segue suspenso em protesto.

O banimento foi anunciado na sexta-feira passada (18), numa publicação na Truth Social em que Trump chamou os três veículos de “fake news”, acusou-os de publicar “ficção e mentiras” e ameaçou estender a punição a outras empresas. Só depois, diante do tribunal, o Departamento de Justiça tentou vestir a decisão com argumentos de segurança nacional. Kelly não comprou a versão e escreveu que aquilo “não é o que o presidente Trump disse quando anunciou que estava ‘banindo’ os autores da ação”. A liminar vale por 14 dias e reconhece que as credenciais foram cassadas sem o devido processo legal garantido pela Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos.

Seria ingenuidade tratar o episódio como um rompante isolado. Em fevereiro de 2025, a Associated Press foi barrada no Salão Oval e no Air Force One por continuar chamando o Golfo do México pelo nome, e não de “Golfo da América”. Em outubro, o Pentágono impôs regras de credenciamento que levaram a maior parte da imprensa setorista a devolver os crachás e deixar o prédio. No meio do caminho, a Paramount pagou US$ 16 milhões para encerrar um processo de Trump contra o programa 60 Minutes, da CBS, e o Congresso de maioria republicana cortou US$ 1,1 bilhão destinado à radiodifusão pública, o que levou ao fechamento da Corporation for Public Broadcasting, financiadora da NPR e da PBS. A lógica é sempre a mesma: quem pergunta o que Trump não quer responder passa a ser tratada como inimiga.

Os ataques também são pessoais e misóginos. A frequência da mira em mulheres jornalistas não é mera coincidência. Em novembro de 2025, a bordo do Air Force One, Trump mandou Catherine Lucey, da Bloomberg, calar a boca e a chamou de “porquinha” quando ela tentou perguntar sobre e-mails de Jeffrey Epstein que citavam o presidente. No fim do mesmo mês, escreveu que Katie Rogers, do New York Times, era “feia por dentro e por fora” por causa de uma reportagem sobre os sinais de cansaço do presidente, e perguntou a Nancy Cordes, da CBS, se ela era “estúpida”. Nos tribunais, cobra US$ 15 bilhões do New York Times, US$ 10 bilhões do Wall Street Journal, numa ação que já foi rejeitada uma vez e voltou a ser apresentada, e outros US$ 10 bilhões da BBC por uma edição do discurso de 6 de janeiro de 2021. Com valores desse tamanho, ganhar a causa importa menos do que o custo de se defender, e qualquer redação fica receosa em publicar algo incômodo.

Fora de casa, Trump age como se o mundo fosse uma extensão da Casa Branca. Em abril de 2025, no que batizou de “Dia da Libertação”, anunciou tarifas contra praticamente todos os países do planeta. Em junho, bombardeou instalações nucleares do Irã. Em 3 de janeiro de 2026, forças estadunidenses atacaram Caracas, capturaram Nicolás Maduro e o levaram para Nova York, numa operação que deixou cerca de 80 mortos e que especialistas da ONU classificaram como violação da Carta das Nações Unidas. “Vamos governar o país até que possamos fazer uma transição segura”, disse o presidente, sem esconder o interesse no petróleo venezuelano. Com a Groenlândia, território da Dinamarca, aliada na Otan, foram meses de ameaças de anexação, de tarifas contra países europeus e até de saída da aliança militar, até que nesta terça-feira (22), na Assembleia Geral da ONU, Trump saiu com um acordo que dá aos Estados Unidos controle permanente sobre a segurança da ilha e duas novas bases militares.

Em janeiro de 2026, o governo anunciou a saída de 66 organizações internacionais, entre elas a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e o IPCC, painel científico da ONU sobre o clima, depois de já ter abandonado o Acordo de Paris e a Organização Mundial da Saúde. O segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo deixou a mesa onde se negocia o futuro climático do planeta, e isso tem peso direto sobre a Amazônia. Em 3 de novembro, as eleições de meio de mandato vão definir se o Partido Republicano mantém o controle do Congresso, um dos poucos freios que restam além dos tribunais, cujas ordens, como se viu nesta quinta, nem sempre são cumpridas na porta da Casa Branca. Trump, por sua vez, admite que a regra constitucional que o impede de disputar um terceiro mandato “é muito forte”, mas não esconde que “adoraria concorrer” em 2028.

A cartilha seguida por Trump em seus ataques à liberdade de imprensa não é nem um pouco nova quando falamos de regimes autoritaristas. Na Hungria, Viktor Orbán não precisou fechar redações à força. Bastou que empresários aliados comprassem veículos e, em 2018, os doassem a uma fundação alinhada ao governo, a Kesma, que passou a concentrar centenas de títulos. Na Turquia, Recep Tayyip Erdoğan usou a tentativa de golpe de 2016 para fechar mais de 150 órgãos de imprensa por decreto e encher as prisões de jornalistas. Na Rússia, o Novaya Gazeta, jornal de Anna Politkovskaya, assassinada em 2006, suspendeu as atividades em março de 2022 depois de advertências do órgão censor do Kremlin. Na Nicarágua, Daniel Ortega confiscou a sede do La Prensa, o jornal mais antigo do país, e transformou o prédio num “centro cultural”. Nas Filipinas, Rodrigo Duterte fez da vida de Maria Ressa e do site Rappler um labirinto de processos judiciais.

O Brasil tem memória própria. O AI-5, de 1968, institucionalizou a censura prévia nas redações, e, como muitos outras e outros colegas, o jornalista Vladimir Herzog foi morto em outubro de 1975 nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo.

Jair Bolsonaro nunca escondeu a sua inspiração. Em maio de 2020, na porta do Palácio da Alvorada, mandou repórteres calarem a boca. Em agosto do mesmo ano, na frente da Catedral de Brasília, respondeu a um repórter de O Globo que perguntava sobre os R$ 89 mil depositados por Fabrício Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro dizendo ter “vontade de encher tua boca de porrada”. Levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) apontou que, em 2021, o então presidente foi sozinho o autor de 147 dos 430 ataques registrados contra a categoria no país, pouco mais de um terço do total. O relatório da Polícia Federal sobre a chamada “Abin paralela” mostrou depois que a estrutura de inteligência do Estado foi usada para monitorar jornalistas como Mônica Bergamo, Ricardo Noblat, Leandro Demori e Alice Maciel, da Agência Pública.

Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 11 de setembro de 2025 a 27 anos e três meses de prisão por liderar a trama golpista. Começou a cumprir pena em novembro e hoje está em prisão domiciliar, concedida por razões de saúde. O projeto político, então, teve de mudar de figura. Em 5 de dezembro de 2025, Flávio Bolsonaro anunciou que o pai o havia escolhido, durante uma visita na prisão, para disputar a Presidência, numa tentativa clara de instauração de uma espécie de dinastia. A convenção do PL confirmou a candidatura em julho, e o senador, mesmo envolvido em muitos escândalos, aparece em segundo lugar nas pesquisas para a eleição de 4 de outubro.

O mais recente envolve Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel. Em maio, o Intercept Brasil revelou áudios em que Flávio cobrava do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e hoje preso, parte dos R$ 134 milhões prometidos para a produção. Ao menos R$ 61 milhões teriam sido repassados entre fevereiro e maio de 2025, por meio de estruturas que incluíam um fundo sediado no Texas. Flávio primeiro negou o contato, depois admitiu a negociação e garantiu que não houve dinheiro público. Neste mês, a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF, cumpriu 49 mandados de busca contra o deputado Mário Frias (PL-SP) e entidades ligadas ao filme, por suspeita de desvio de emendas parlamentares para a produção. O senador não foi alvo das buscas, mas a sua conversa com Vorcaro está na origem da investigação.

Antes disso, o nome de Flávio já estava ligado à rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Em 2020, o Ministério Público fluminense o denunciou por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, sob a acusação de recolher parte dos salários de servidoras e servidores do gabinete por meio de Fabrício Queiroz. Segundo a promotoria, uma loja de chocolates do senador na Barra da Tijuca e negócios imobiliários ajudavam a lavar o dinheiro. O caso nunca chegou a julgamento. Tribunais superiores anularam as provas obtidas com a quebra de sigilo, e o Tribunal de Justiça do Rio arquivou a denúncia em 2022. A mesma investigação mostrou que o gabinete empregou a mãe e a ex-mulher do ex-policial Adriano da Nóbrega, apontado como chefe de milícia e morto em 2020, a quem Flávio tinha concedido a Medalha Tiradentes, maior honraria da Alerj.

Em dezembro de 2020, a revista Época revelou que a Abin, então comandada por Alexandre Ramagem, produziu relatórios para orientar a defesa do senador no caso Queiroz. Em 2021, Flávio comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília, com parte do valor financiada pelo BRB.

A candidatura de Flávio carrega mil problemas que se somam com a hostilidade à imprensa herdada do pai. Em março de 2025, o irmão Eduardo Bolsonaro se licenciou da Câmara, mudou-se para os Estados Unidos e passou a articular com o governo Trump sanções contra o próprio país. Em 9 de julho, Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros numa carta em que chamava o julgamento de Jair Bolsonaro de “caça às bruxas”. Semanas depois, aplicou a Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, sanção retirada em dezembro. Eduardo perdeu o mandato no mesmo mês, por excesso de faltas, e em junho de 2026 foi condenado pela Primeira Turma do STF a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo.

Em 26 de maio de 2026, Flávio Bolsonaro foi recebido por Trump na Casa Branca por cerca de uma hora e quarenta minutos. Ele mesmo definiu a visita como inédita, já que nenhum presidente estadunidense tinha recebido um pré-candidato brasileiro em pleno ano eleitoral. Na conversa, pediu que Washington classificasse o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Dois dias depois, o secretário de Estado Marco Rubio fez exatamente isso. É o mesmo tipo de designação que os Estados Unidos usaram para justificar ataques militares a embarcações no Caribe atribuídas a cartéis venezuelanos. Lula classificou a medida como um ataque à soberania brasileira.

Em julho, os Estados Unidos abriram nova frente comercial contra o Brasil com base na Seção 301 da legislação de comércio. Na lista de queixas estavam o Pix, a regulação das plataformas digitais, o etanol e as políticas de combate ao desmatamento. Flávio foi a Washington falar na audiência pública do processo e pediu que as tarifas não fossem aplicadas, mas aproveitou o palco estrangeiro para dizer que “o único que quer essa tarifa no Brasil é o Lula”. A sobretaxa de 25% entrou em vigor em 22 de julho, e no dia seguinte veio um adicional de 12,5%. Pesquisa Datafolha feita logo depois, em 22 e 23 de julho, mostrou que 52% das eleitoras e eleitores brasileiros acreditam que o tarifaço tem como objetivo ajudar a campanha de Flávio.

No dia 21 daquele mês, o senador reuniu diplomatas estrangeiros e voltou a tentar levantar suspeitas sobre as urnas eletrônicas, citando a empresa Smartmatic. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) respondeu que a Smartmatic nunca forneceu urnas para as eleições brasileiras. O gesto repetiu, quatro anos depois, a reunião com embaixadores que foi um dos fatores que tornou Jair Bolsonaro inelegível até 2030.

Um presidente que depende da boa vontade de outro governo para chegar ao poder terá dificuldade de dizer não a esse mesmo governo depois de eleito. Pix, big techs, etanol, Amazônia e segurança pública são justamente os temas em que Washington já mostrou o que quer do Brasil. A pergunta que fica para os eleitores é se quem vai sentar do lado brasileiro da mesa vai defender a soberania do nosso país ou apenas abrir as pernas para Trump, institucionalizando a vassalagem ao poderio estadunidense.

O episódio desta quinta-feira em Washington é bem didático para quem quer ver. Um governo que ignora uma ordem judicial para manter repórteres do lado de fora dos portões é o modelo declarado da família que já tentou desacreditar as urnas, atacou o STF e tratou jornalistas como alvo. É a imprensa livre que permite saber o que se combina a portas fechadas entre um candidato e um chefe de Estado estrangeiro, por exemplo. Sem ela ninguém fica sabendo o preço que foi cobrado. E, no final das contas, quem paga somos nós.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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