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Logo que li a notícia de um padre que tinha sido denunciado por alunos do seminário e que o caso já tinha sido enviado até para o Vaticano, me veio a idéia. A Igreja, como empresa, sempre protegeu esses desvios, digamos, acobertando, desviando, deixando perder-se nos escaninhos do tempo. Padres são seres humanos, com todos os defeitos e qualidades. Mesmo quando vestem os trajes eclesiásticos, ainda são seres humanos. Por isso não é nenhuma blasfêmia criar uma história a partir de uma denúncia. Eu havia encontrado a primeira página de meu livro novo.

Mas havia alguém que recebia a visita do padre e um pedido estranho, que não foi negado, tendo em vista acontecimentos anteriores que faziam do traficante de cigarros nem pestanejar em atender. Pois é, como em todas as histórias das pessoas, elas nunca vêm só. Têm namoradas, amigos, irmãos, mãe, pai, enfim. Elas surgem e é preciso dar nomes, passado, presente e perceber como vão comportar-se daí em diante. A dar cores vivas à denúncia, um radialista popular no mais amplo sentido, desses que passam manhãs e tardes bradando contra a polícia e meliantes, cobrando providências, às vezes chantageando comerciantes a patrocinar os programas, tudo em defesa da comunidade, digamos.

Também li em jornal sobre contrabando de manganês em áreas do Pará e achei de incluir. Mais ainda sobre um garoto que conheci ali na zona do meretrício e tinha testemunhado o assassinato de sua mãe em plena rua. Sua vida ia mudar levado para conviver com uma família que tentou educa-lo, mas o perdeu para a liberdade das ruas.

Enfim, um pouco das teias das pessoas apresentadas em “Não nos deixeis cair em tentação”, meu novo romance, já nas lojas, mas que terá lançamento na próxima terça feira, a partir das seis horas da tarde, na Livraria Travessia, ali na Alcindo Cacela, pouco depois da Governador José Malcher. Acho que é meu vigésimo primeiro trabalho e a cada livro, olho para trás e penso na escrita de cada um, a circunstância, o horário em que escrevi e a vontade de fazer as pessoas lerem. Como sabem, a turma aqui de Belém é meu primeiro público. Quero que goste. Tomara.

Quando cito ruas, lugares, pretendo ajuda-los a sentir-se ali, assistindo as cenas. Incito o leitor a criar o cenário e o pego como cúmplice. Quero que sintam como se estivessem voyeurs, abicorados, resfolegando ao final da cena. Temendo ter sido testemunhas e sei lá, ser chamados para dizer o que viram. Sim, está o ritmo ágil, frases curtas, nervosas, afiadas, o palavreado urbano e Belém, minha casa, meu céo e meu chão. É como convidar a entrar na montanha russa. Começa já na velô e quando acaba a gente respira fundo, ri e confessa que gostou do susto.

A todos que se interessarem, peço humildemente que levem seus nomes escritos. Nessas noites, esqueço do nome de pai, mãe e filhos. Passa uma nuvem e leva. Pegamos a caneta e cadê o nome desta pessoa que conheço desde que me entendo por gente. Um sofrimento. Peço a compreensão nas dedicatórias menos criativas. Estarei sob grande pressão. Sei de autores que carimbam os livros com suas assinaturas para diluir as filas de autógrafos. Disso não sofrerei, mas seria bem legal haver filas. Em uma feira realizada em São Paulo, dividi mesa com um autor da moda, famoso e excelente pessoa. Quando fomos assinar, a fila dele dobrava quarteirão. A minha, bem, não foi vergonhosa, mas talvez até por conter leitores dele, também curiosos por mim, estava de bom tamanho.

Aproveito para avisar que também estarei presente na Feira Multivozes no Hangar, no final do mês. A gente se vê por lá. Estão convidados.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Edyr Augusto Proença
Paraense, escritor, começou a escrever aos 16 anos. Escreveu livros de poesia, teatro, crônicas, contos e romances, estes últimos, lançados nacionalmente pela Editora Boitempo e na França, pela Editions Asphalte. Foto: Ronaldo Rosa

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