Publicado em: 13 de julho de 2026
As hortaliças amanhecem cobertas por resíduos que inviabilizam a venda e o consumo. As paredes das casas exibem rachaduras abertas pelos tremores das explosões de dinamite. À noite, uma nuvem densa de poeira desce sobre as ruas. A pouco mais de dois quilômetros dali ficam a cava e a barragem de rejeitos do Projeto Sossego, operado pela mineradora Vale S.A.
Esse é o cotidiano descrito pelas moradoras da Vila Bom Jesus, em Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, ouvidas pelo Ministério Público Federal (MPF) em diligência realizada na comunidade. Os depoimentos vão fundamentar possíveis medidas judiciais em defesa das famílias, que enfrentam ainda a instalação iminente de um segundo empreendimento da Vale na área, o Projeto Bacaba.
Formada na década de 1980 por assentadas da reforma agrária, a vila já foi polo de produção agrícola e pesqueira e abastecia o sudeste parauara. Hoje, dizem as moradoras, a comunidade está “ilhada” pela mineração.
Antes da escuta coletiva, a equipe liderada pelo procurador da República Igor Spindola foi até as imediações da mina. No trajeto, confirmou a proximidade entre o empreendimento e as casas, encontrou plantações mortas e presenciou nuvens de poeira vindas do complexo.
Na reunião, que contou com lideranças comunitárias, com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, os relatos apontaram prejuízos em cadeia. Lavouras de alface, couve e outras hortaliças perdidas sob a poeira. Criação de animais em queda. E o medo de adoecer, já que a comunidade associa à contaminação da água e do ar o aumento de doenças respiratórias, de problemas gastrointestinais e de casos de câncer na região.

As moradoras também contestaram os Estudos de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) apresentados pela empresa, que deixam a Vila Bom Jesus fora da Área de Influência Direta (AID) dos projetos. Houve protesto contra relatórios acadêmicos assinados que garantem que a área não sofreria impactos.
A queixa mais repetida veio da beira do rio. Pescadoras artesanais relataram estar impedidas de acessar o Rio Parauapebas, principal fonte de alimento e renda das famílias. Nos depoimentos, guardas florestais e seguranças privados aparecem confiscando motores, canoas, redes e até facas de trabalho, além de ofender quem tenta pescar.
“Nós não somos caçadores, somos pescadores. Infelizmente, estamos sendo muito humilhados e massacrados. Eles chegam chamando a gente de vagabundo, ameaçando com arma. Tiraram o nosso privilégio de obter o alimento da nossa família”, desabafou uma pescadora que vive na vila desde 1984. Outros relatos dão conta de que o rio está secando e mudando de dinâmica por causa dos rejeitos e das obras da mineradora.
O MPF apura os impactos da mineração na comunidade desde 2023, quando instaurou procedimento para proteger a saúde, a subsistência e o modo de vida local. Para obter dados imparciais sobre os danos, o órgão articula um estudo técnico com pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), que o município de Canaã dos Carajás já se comprometeu a custear. O próximo passo será a ida de uma equipe da universidade à vila para planejar a pesquisa e definir o orçamento do trabalho.
“Vamos trazer uma equipe técnica, com biólogos e engenheiros sanitários, para fazer uma análise real dos impactos ambientais na água e no solo. Além disso, pediremos uma perícia antropológica. Um antropólogo vai conversar com cada um de vocês para registrar como era a vila antes e como ficou depois, medindo o impacto social, econômico e cultural”, explicou Spindola durante o encontro.
Com o diagnóstico em mãos, o MPF pretende mensurar em detalhe os prejuízos causados pela atividade mineradora e cobrar as medidas de mitigação e compensação devidas à comunidade.
Fotos: Yasmin Bitar / Ascom MPF










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