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A pílula emagrecedora Foundayo já pode ser vendida no Reino Unido com receita médica. A autorização foi dada nesta segunda-feira pela Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA), agência reguladora britânica de medicamentos e dispositivos médicos, e cobre o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. O país é o primeiro da Europa a liberar o orforglipron, princípio ativo do comprimido fabricado pela Eli Lilly, que já havia passado pelo crivo regulatório dos Estados Unidos.

A venda começará pela rede privada, com prescrição. Para entrar no National Health Service (NHS) como tratamento de perda de peso, o remédio precisará passar pela avaliação de custo-efetividade do National Institute for Health and Care Excellence (NICE). A Eli Lilly informou que o comprimido já pode ser usado pelo sistema público no diabetes tipo 2 e que vai protocolar o pedido referente à obesidade. O preço no Reino Unido ainda não foi divulgado.

Não há previsão de chegada da medicação no Brasil.

O orforglipron pertence à classe dos agonistas do receptor de GLP-1, a mesma da semaglutida, vendida como Ozempic e Wegovy, e da tirzepatida, do Mounjaro. A substância imita um hormônio que o organismo produz depois das refeições e age em regiões do cérebro ligadas ao apetite, o que aumenta a saciedade e reduz a fome.

A diferença está na molécula. Por ser pequena e não peptídica, ela pode ser prensada em comprimido, o que dispensa a aplicação subcutânea e o armazenamento refrigerado, dois incômodos que afastam parte das pacientes das canetas. A dose é diária e não exige jejum nem intervalo entre o remédio e a primeira refeição.

A comparação imediata é com a pílula de Wegovy, da Novo Nordisk, aprovada em junho e primeira do tipo no mercado britânico. A versão oral da semaglutida precisa ser tomada logo cedo, com um gole de água, e obriga a esperar meia hora antes de comer ou beber qualquer outra coisa.

Mike Doustdar, presidente-executivo da Novo Nordisk, calcula que cerca de 300 mil pacientes tenham começado a tomar a pílula de Wegovy nas três primeiras semanas de venda no Reino Unido.

“Consigo ver um futuro em que este mercado seja, em grande medida, um mercado de pílulas”, declarou o executivo à CNBC neste mês.

Nos Estados Unidos, onde chegou às farmácias em abril, o Foundayo somou 98 milhões de dólares no segundo trimestre, ritmo bem mais lento que o da concorrente. David Ricks, presidente-executivo da Eli Lilly, atribuiu em abril o desempenho ao ineditismo da molécula, que precisa de tempo para se firmar entre médicas e pacientes. A pílula de Wegovy leva vantagem por usar a semaglutida, substância já conhecida das injeções.

pesquisa mais recente sobre a substância saiu em 13 de maio na revista Nature Medicine. O ensaio de fase 3b ATTAIN-MAINTAIN, duplo-cego e controlado por placebo, tratou de uma situação bem delimitada, a de quem já emagreceu com injetáveis e passa ao comprimido para não recuperar o peso.

Participaram 376 pessoas em 29 centros estadunidenses, recrutadas entre 13 de setembro de 2024 e 21 de novembro de 2025, todas vindas do estudo SURMOUNT-5. Um grupo de 205 usava tirzepatida, outro de 171 usava semaglutida. Dentro de cada um, parte passou a tomar orforglipron uma vez ao dia e parte recebeu placebo. A média de idade ficou em 48 anos e a maioria era de mulheres.

Na 52ª semana, entre quem havia atingido um platô de peso, o grupo que vinha da tirzepatida preservou 74,7% da redução conquistada com o injetável, contra 49,2% no placebo. Entre as que vinham da semaglutida, a preservação chegou a 79,3% com o comprimido e a 37,6% com placebo.

Em quilos, a distância é menor do que os percentuais sugerem. Quem trocou a tirzepatida pelo orforglipron recuperou cerca de 5 quilos ao longo do ano. Quem trocou a semaglutida recuperou perto de 1 quilo. Os dois grupos terminaram o estudo no mesmo peso médio, 95,9 quilos.

O braço de placebo encolheu no meio do caminho. A partir da 24ª semana, quem recuperasse metade ou mais do peso perdido passava a receber orforglipron como terapia de resgate, previsão adotada para não expor as participantes ao reganho. Cerca de 65% de cada grupo de placebo precisou desse socorro. Apenas 25 pessoas em um grupo e 12 no outro chegaram ao fim das 52 semanas sem tratamento ativo.

Os efeitos adversos mais frequentes foram gastrointestinais, de intensidade leve a moderada. Náusea apareceu em 23,4% de quem tomou o comprimido no grupo da tirzepatida, seguida de constipação, vômito e diarreia. Entre 4,8% e 7,3% das participantes abandonaram o tratamento por causa desses efeitos. Uma morte foi registrada, porém não foi considerada relacionada ao medicamento.

O efeito do Foundayo sobre o peso fica abaixo do de outros tratamentos, embora as pacientes ainda possam esperar mudanças significativas e clinicamente relevantes em seu peso. O trunfo estaria está no custo, que tende a ser menor que o das terapias que o NHS restringe com rigor.

A chegada de outra opção oral eficaz também é considerada por alguns cientistas como um desenvolvimento positivo, com a possibilidade de ajudar mais pessoas a acessar o tratamento que melhor se adapta às suas necessidades e preferências.

A Nature Medicine lista o que ficou de fora: não houve grupo que seguisse com o injetável para efeito de comparação, o acompanhamento durou um ano e os centros ficavam todos nos Estados Unidos, com população majoritariamente branca. Além disso, a manutenção do benefício, registra a publicação, exige tratamento contínuo.

Foto em destaque: Eli Lilly / Reprodução

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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