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Não é exclusividade da geração Z inventar umas modas completamente nada a ver, todos sabemos, mas olhem essa: tem uma galera da machosfera convencida de que o caminho para o coração feminino passa por um sovaco – como diria a minha avó – pixé. A prática já ganhou nome, hashtag e uma pilha de vídeos no TikTok. Chama-se pheromone-maxxing e consiste, simplesmente, em abandonar o banho e o desodorante antes de ir a um encontro, confiando no aroma que a natureza providenciou. Nos casos mais hardcores, tem cidadão bebendo a própria urina para, segundo a teoria caseira embasada nas vozes de suas cabeças, expulsar toxinas e turbinar o resultado.

A moda é um galho da árvore do looksmaxxing, aquele universo de conteúdo em que homens jovens perseguem a otimização do próprio rosto, do próprio corpo e agora, ao que tudo indica, do próprio bodum. A – digamos – lógica que sustenta esse papo é a de que o suor carrega feromônios – moléculas capazes de disparar atração química – e de que sabonete e desodorante estariam jogando essa “vantagem evolutiva” no ralo do banheiro.

Pausa para respiração (bem longe de uma criatura dessas, de preferência).

Só faltou uma parte: a de que isso é verdade.

Depois de mais de meio século de busca, nenhuma substância produzida pelo corpo humano foi identificada quimicamente como feromônio. Quem escreve isso é o pesquisador Richard L. Doty, da Universidade da Pensilvânia, em um capítulo dedicado ao assunto publicado pelos Institutos Nacionais de Saúde estadunidenses. Ele lembra que as moléculas mais citadas nesse debate, como a androstenona e a androstadienona, aparecem nas axilas em quantidades minúsculas e variáveis, contribuem pouco para o cheiro que a gente sente e estão espalhadas pelo reino animal e vegetal, inclusive na raiz da cenoura.

Tem outro detalhe anatômico inconveniente. Muitos animais detectam feromônios pelo órgão vomeronasal. O nosso é vestigial e, pior, falta ao cérebro humano o bulbo olfatório acessório, a estrutura para onde essa informação teria que ser enviada. É algo como instalar antena parabólica sem televisão em casa.

A revista Scientific American chegou à mesma conclusão ao ouvir pesquisadoras do Monell Chemical Senses Center, um dos centros de referência mundial em olfato. Não existe evidência de uma resposta comportamental forte e consistente a qualquer sinal químico produzido por gente. O neurocientista Charles Wysocki, do mesmo centro, aproveitou para alfinetar os perfumes vendidos como feromônios, que costumam usar substâncias extraídas de porcos.

E a androstadienona, a queridinha dos vídeos? Uma revisão publicada na revista científica Physiology & Behavior com o título nada sutil de Is androstadienone a human male pheromone? More research is needed (A androstadienona é um feromônio masculino humano? Mais pesquisas são necessárias) concluiu que a classificação da substância segue inconclusiva. 

Toda vez que o assunto aparece, alguém invoca o famoso experimento das camisetas suadas. Ele existe mesmo. Foi conduzido pelo biólogo Claus Wedekind e colegas na Universidade de Berna e publicado em 1995. Participaram 44 homens e 49 mulheres. Elas cheiraram camisetas usadas por eles e deram notas.

O resultado foi que elas acharam mais agradável o cheiro dos homens cujo MHC, o conjunto de genes ligado ao sistema imunológico, era mais diferente do delas. Nada de feromônio mágico, e sim uma pista genética captada pelo nariz. Curiosidade adicional: entre as mulheres que tomavam pílula anticoncepcional a preferência se invertia.

Agora a parte que os vídeos esquecem de mencionar é que os homens do estudo usaram a camiseta por duas noites seguindo um protocolo rígido. Sabonete e detergente sem perfume, nada de desodorante, nada de perfume, nada de álcool, nada de tabaco, nada de comida condimentada e nada de atividade sexual. Ou seja, o experimento pediu exatamente o contrário de acúmulo de sujeira. Usou um corpo limpo e neutro para que o sinal genético não ficasse soterrado embaixo de outras camadas.

Uma semana sem chuveiro não reproduz esse desenho experimental. Reproduz, no máximo, um pitiú dos brabos.

A dermatologista Shereen Teymour, que atende em Nova York, resumiu a tendência de forma econômica ao portal Yahoo Health. Deixar de tomar banho não é pheromone-maxxing, na maioria dos casos é bacteria-maxxing – ou seja, a maximização das bactérias. O cheiro que sai da axila, aliás, não vem do suor puro e sim da festa que bactérias e fungos promovem em cima dele.

A dermatologista Alreem Al-Nabti, da Weill Cornell Medicine, listou o que pode acontecer com quem insiste nessa papagaiada: foliculite, proliferação bacteriana e inflamação nas dobras da pele, aquelas regiões úmidas onde o microbioma local perde a compostura rapidamente.

Do lado da saúde mental, a psiquiatra Gayatri Bhatia, professora associada no Amrita Hospital, foi direta em entrevista ao site Tyla: biologia importa, mas não existe ciência por trás da ideia de que um corpo sujo seja vantagem em um encontro.

Quem acompanha o gênero vai lembrar do vabbing, a moda de aplicar fluido vaginal atrás da orelha e nos pulsos como se fosse essência francesa. Especialistas também não aprovaram essa outra ideia de jerico. A tendência atual segue a mesma receita: uma pitada de biologia evolutiva mal digerida, uma xícara de promessa descabida e um forno de algoritmo.

Não existe pesquisa que meça quantas pessoas aderiram nem que descreva o perfil de quem adere, então todo retrato disponível vem da própria cobertura. E ela é bem uniforme. Vice, Fox News, Fast Company e Tyla descrevem homens jovens e adolescentes, e a tendência nasceu dentro do looksmaxxing e da manosfera, um circuito de conteúdo masculino. A premissa aparece formulada pelo próprio adepto Shane Sweitzer, que disse ao portal Hola que feromônios são produzidos em homens para atrair fêmeas, o que já entrega para quem o discurso está mirando. O site LGBTQ+ Queerty tratou o assunto como coisa de homem heterossexual. 

A educadora sexual Topher Cusumano ofereceu uma leitura interessante sobre o motivo de axila e suor terem virado assunto. Com as plataformas bloqueando conteúdo explícito, partes do corpo consideradas inofensivas passaram a servir de veículo para material erótico que precisa driblar a moderação.

Vale dizer que ninguém precisa esfregar a pele até tirar sangue nem se afogar em patchouli. O odor corporal de cada pessoa é mesmo particular e diz coisas sobre ela. No Brasil, onde o banho é praticamente parte da identidade nacional, a Sociedade Brasileira de Dermatologia publicou o Guia do Banho, que orienta pelo menos um banho por dia, com água e sabonete, de cinco a dez minutos, de preferência com água fria ou morna, porque a quente resseca a pele e o cabelo. A limpeza diária é o que segura micoses, infecções bacterianas e o acúmulo de poluição que envelhece a pele. O sabonete ideal tem pH próximo de 5 e vai principalmente nas mãos, nos pés e nas dobras, exatamente as áreas que o pheromone-maxxing propõe ignorar. Ou seja, o chuveiro continua sendo o melhor aliado de qualquer plano de sedução, com a vantagem de não exigir fé em invencionices tiktoknianas.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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