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Depois de apresentar pesquisas em universidades francesas e promover experiências gastronômicas inspiradas nos povos indígenas brasileiros durante uma série de eventos realizados em junho, a pesquisadora e chef de cozinha Luana Oliveira inicia uma nova etapa de sua agenda internacional com atividades previstas em Portugal e na Espanha ao longo de julho. Em estágio de pós-doutorado no Muséum National d’Histoire Naturelle (MNHN), em Paris, ela utiliza a ciência e a gastronomia para projetar na Europa os saberes ancestrais dos povos Krahô e Xerente, contribuindo para ampliar o reconhecimento internacional do patrimônio alimentar amazônico.

A programação na França reuniu pesquisadores, chefs, integrantes do movimento Slow Food e o público francês em diferentes formatos. No dia 11 de junho, Luana apresentou sua pesquisa durante a 11ª Conferência Internacional de Histórias e Cultura da Alimentação, realizada na Universidade de Tours. Nove dias depois, participou do encontro transcultural entre o Slow Food e o Slow Food Brasil, promovido no restaurante colaborativo Les Petites Cantines, em Paris, onde preparou um peixe ao molho de arubé, receita elaborada a partir do tucupi e da mandioca que sintetiza técnicas culinárias preservadas por gerações de povos indígenas amazônicos.

A agenda foi encerrada em 26 de junho com uma palestra seguida de degustação comentada no espaço cultural e científico Le Phare, iniciativa do Slow Food Paris destinada a apresentar ao público francês os conhecimentos tradicionais associados à alimentação indígena e à biodiversidade amazônica.

As atividades haviam começado ainda em maio, durante a Quinzena do Comércio Justo de Paris, quando Luana conduziu uma degustação comentada no espaço cultural Guayapi. O cardápio reuniu preparações como Kupakubu (ou Kurkubu), prato indígena elaborado com mandioca e carne, tapioca molhada com leite de coco e castanha, uma releitura de receita tradicional do povo Krahô à base de batata-doce e creme de buriti, aproximando o público europeu de ingredientes e técnicas pouco conhecidos fora da Amazônia.

Luana leva ao exterior resultados de quase vinte anos dedicados ao estudo da cultura alimentar amazônica. Há cerca de uma década, seu trabalho concentra-se no patrimônio alimentar dos povos Xerente e Krahô, desenvolvido por meio de pesquisa etnográfica, convivência prolongada nas aldeias e registro dos conhecimentos tradicionais relacionados ao cultivo, à coleta, à caça, ao preparo dos alimentos e aos significados culturais que envolvem a alimentação. 

Natural do Pará e radicada no Tocantins, Luana reúne uma trajetória pouco comum entre a academia e a gastronomia. É docente e pesquisadora do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), chef-proprietária do Borduna Bistrô, em Palmas, e integra a terceira geração de cozinheiros de sua família. A ligação com a culinária amazônica começou ainda na infância, acompanhando o pai, o chef Ofir Oliveira, pioneiro ao apresentar a gastronomia amazônica em Paris no restaurante A Canoa, em 1989. Essa vivência prática foi posteriormente aprofundada pela pesquisa científica, consolidando uma carreira voltada à preservação e à difusão do patrimônio alimentar indígena brasileiro.

Em 2021, concluiu o doutorado em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), defendendo a tesePatrimônio Alimentar do Povo Xerente e suas Interfaces com o Turismo Étnico Indígena Gastronômico. Atualmente desenvolve, no Muséum National d’Histoire Naturelle, a pesquisa de pós-doutorado “Alimentação do Povo Krahô: entre o passado e o presente”, ampliando os estudos sobre culturas alimentares indígenas e sua preservação.

Ao longo dessa trajetória, a pesquisadora estabeleceu relações de confiança com diferentes comunidades indígenas. Nas cerimônias tradicionais de nomeação, recebeu o nome Wati entre o povo Xerente e Hômjaka entre o povo Krahô, reconhecimento que simboliza a proximidade construída durante anos de convivência e pesquisa de campo.

Segundo Luana Oliveira, a pesquisa e a gastronomia cumprem um mesmo papel: ampliar o conhecimento sobre os povos originários brasileiros. Ela afirma que apresentar os sabores indígenas é também uma forma de despertar interesse pelos saberes que lhes dão origem, valorizando conhecimentos tradicionais frequentemente invisibilizados, apesar da diversidade representada pelas centenas de etnias existentes no Brasil.

A temporada europeia segue até outubro, com atividades acadêmicas e gastronômicas previstas ainda em Portugal, Espanha e Itália. A expectativa é ampliar o diálogo internacional sobre patrimônio alimentar indígena e demonstrar como a cozinha amazônica pode funcionar, ao mesmo tempo, como produção científica, preservação cultural e instrumento de intercâmbio entre diferentes sociedades.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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