Publicado em: 23 de setembro de 2026
O açaí que chega às prateleiras da Europa sai de comunidades que ainda convivem com falta de saneamento, de água tratada e de transporte. Foi esse descompasso que a pesquisadora parauara Aline Gonçalves Batista da Silva levou para a banca de doutorado em Portugal, onde defendeu uma tese sobre a cadeia global do fruto a partir da realidade de Abaetetuba, município onde nasceu, no nordeste do Pará.
Servidora do Instituto Federal do Pará (IFPA) há dez anos, Aline Batista desenvolveu o trabalho no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia (PPGEDAM), vinculado ao Núcleo de Meio Ambiente (NUMA) da Universidade Federal do Pará (UFPA). Ela foi orientada pelo professor Christian Nunes da Silva, da UFPA, e coorientada pela professora Maria João Barata de Carvalho, da Universidade Politécnica de Beja (UPBeja). A cooperação do programa com essa instituição portuguesa deu alcance internacional à pesquisa.
A tese se chama “Cadeia Global do Açaí e Riscos Socioambientais Locais: uma análise da experiência amazônica de Abaetetuba-PA”. A pergunta que atravessa o estudo é: quando o açaí vira produto global, o ganho dessa valorização chega na mesma medida a quem produz?

Por gerações, o açaí foi base da mesa ribeirinha, parte da cultura e do modo de vida das populações da Amazônia. Nas últimas décadas passou a circular numa cadeia bem mais longa, que liga produtoras, atravessadores, agroindústrias, exportadoras, distribuidoras e consumidoras espalhadas por vários países.
A expansão trouxe dinheiro e oportunidades para o Pará. Trouxe também problemas que a pesquisa mapeou em campo, como a dependência de intermediários, a fragilidade da organização social das produtoras, as mudanças no clima percebidas pelas comunidades, as condições de trabalho, a segurança alimentar e a dificuldade de agregar valor ao fruto ainda no território.
Para a pesquisadora, olhar só para os números de produção e exportação esconde parte da história. “A Amazônia produz um alimento que conquistou o mundo, mas os territórios produtores ainda convivem com desafios relacionados à organização social, ao acesso aos mercados, às mudanças climáticas e à valorização dos conhecimentos tradicionais. Compreender essas contradições é fundamental para pensar uma cadeia do açaí que gere desenvolvimento também para quem está na origem da produção”, afirma.
O contraste entre um fruto cada vez mais valorizado e comunidades que seguem com carências básicas de infraestrutura levou a pesquisadora a cunhar uma expressão própria. Ela chama de “Palafitas do Açaí” o paradoxo que observou no trabalho de campo, em que o produto alcança mercados globais enquanto as famílias que o manejam enfrentam limitações de saneamento, abastecimento de água, mobilidade e acesso a serviços públicos.
O termo não vem das comunidades nem é uma denominação tradicional da região. Trata-se de uma formulação analítica da autora, criada para interpretar uma das contradições que encontrou em Abaetetuba. A ideia resume um dos argumentos centrais da tese. O valor econômico do açaí cresce à medida que o fruto avança pela cadeia, e parte das vulnerabilidades sociais fica parada no lugar onde ele é colhido.
Com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Aline fez um período de mobilidade acadêmica em Beja, no Alentejo. A temporada permitiu acompanhar de perto como o açaí circula e se insere no mercado europeu, e comparar as exigências e tendências das consumidoras de lá com a realidade de quem produz do lado de cá.
Em Portugal, ela também participou de atividades científicas ligadas à cadeia do fruto e de estudos sobre tecnologias de processamento e agregação de valor. Na prática, a pesquisa passou a olhar para as duas pontas ao mesmo tempo, o território amazônico onde o açaí nasce e os mercados internacionais onde ele é vendido e transformado.
O estudo foi construído junto a famílias produtoras, comunidades ribeirinhas e representantes de instituições que atuam no setor. Ouvir atrizes institucionais além das produtoras permitiu confrontar o que se vive no território com as políticas públicas e as estruturas que, em tese, existem para apoiar a atividade.
Dessa escuta saiu uma lista de demandas. Mais assistência técnica e formação profissional, organizações coletivas mais fortes, acesso ao crédito, processamento do fruto no próprio território, mecanismos de rastreabilidade e espaços permanentes de diálogo entre produtoras, poder público, instituições de pesquisa e demais participantes da cadeia.
Alguns riscos apontados pela pesquisa raramente entram nas estatísticas econômicas. As produtoras relatam mudanças nas condições climáticas, perigos no trabalho de colheita e insegurança nos rios, com roubos de carga e de motores das embarcações.
O trabalho não parou no diagnóstico. A partir dos resultados, Aline elaborou dois produtos técnicos voltados a Abaetetuba.
O primeiro é uma minuta de Plano de Formação Técnica da Cadeia do Açaí, com conteúdos pensados para as necessidades de cada grupo envolvido. Estão previstos temas como manejo sustentável, organização produtiva, comercialização, agregação de valor, acesso a mercados e sustentabilidade.
O segundo é uma minuta para a criação do Comitê Municipal de Monitoramento do Açaí, o CM-AÇAÍ. A proposta é que ele funcione como espaço permanente de governança local, reunindo produtoras, comunidades, poder público, instituições de ensino e pesquisa e outras organizações do setor. Com isso, o próprio território passaria a acompanhar de forma contínua os riscos e as mudanças da cadeia, e quem vive diretamente da atividade teria mais voz nas decisões sobre o futuro do fruto.
A tese sustenta que produzir e exportar mais não resolve o problema. O desafio está em ampliar a participação dos territórios amazônicos nas etapas que mais agregam valor ao açaí. Isso passa por fortalecer as organizações de produtoras, processar mais o fruto localmente, investir em formação e tecnologia, criar sistemas de rastreabilidade e certificação e desenhar políticas que conciliem produção, conservação ambiental e qualidade de vida.
“Mais do que ampliar a presença do açaí no mercado global, precisamos construir condições para que uma parcela cada vez maior do valor econômico, social e simbólico gerado pelo fruto retorne aos territórios e às populações que historicamente o cultivam, manejam e preservam”, diz a pesquisadora.
Aline Batista vê na defesa em uma universidade europeia um significado que vai além do título. “Defender uma tese sobre a cadeia global do açaí em Portugal foi também levar comigo a história das comunidades ribeirinhas, dos produtores e do território onde essa pesquisa nasceu. É mostrar que a Amazônia não é apenas objeto de pesquisa. Nós também produzimos ciência, conhecimento e propostas para pensar o nosso próprio desenvolvimento.”
Fotos: acervo de Aline Batista










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