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A curvatura da Pedra do Mirante, em Monte Alegre, no oeste do Pará, virou brinco nas mãos da designer Isabela Sales. O caminho entre a formação rochosa e o acessório passou pelo livro “Arte Rupestre de Monte Alegre”, da pesquisadora emérita do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) Edithe Pereira, e foi contado na quinta-feira (27), em roda de conversa no auditório do Centro de Exposições Eduardo Galvão, no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, em Belém.

“A divulgação científica pode ser feita por vários caminhos. Eu acho que o design é um deles”, afirmou Edithe Pereira no encontro, que reuniu ainda a arqueóloga Cristiana Barreto, por videoconferência, e a produtora cultural e ceramista Cilene Marajoara. A atividade teve apoio do Laboratório de Comunicação Pública da Ciência na Amazônia (LabCom) e juntou estudantes, pesquisadoras e interessadas no tema.

Décadas de investigação sobre os vestígios rupestres de Monte Alegre precisam chegar a quem vive perto deles, defendeu a pesquisadora emérita. Para ela, ampliar esse acesso é uma estratégia de preservação. “A gente precisa gerar conhecimento para que as pessoas entendam a importância dos sítios arqueológicos e a importância de se preservar esses lugares.”

Edithe pesquisa no município desde 1989 e recebeu o título de cidadã montealegrense em 2013. Isabela nasceu na cidade e é “pinta-cuia”, como se chama quem vem de Monte Alegre. As duas se reconheceram pelo território durante a conversa.

Um exemplo dessa circulação apareceu na fala da pesquisadora. O livro “Itai, a carinha pintada”, escrito em trovas por Juraci Siqueira e ilustrado por Mário Barata, chegou a escolas de Belém e também a crianças montealegrenses.

“Tinha criança lá em Monte Alegre que sabia recitar os poemas de Juraci de cor. Os estudos, a partir dos livros, começam a entrar nas casas. Mas eu acho que precisa ainda muito mais”, disse.

A preservação dos sítios esbarra em transformações e conflitos dentro das próprias comunidades. Nesse ponto, Edithe atribuiu às lideranças locais um papel central na proteção e na difusão do patrimônio arqueológico entre as moradoras, e apontou o pertencimento como caminho para manter esses lugares de pé.

Do lado do design, Isabela Sales contou que o livro de Edithe foi decisivo na sua trajetória, por aproximá-la do patrimônio milenar da cidade onde nasceu. Do contato com essas pesquisas saiu o projeto História Gravada. A designer criou uma marca de brincos, colares e bolsas produzidos por upcycling, com câmaras de pneus que seriam descartadas como matéria-prima.

Ela citou também os estudos de Cristiana Barreto sobre a cerâmica arqueológica amazônica e suas iconografias, que ampliaram seu repertório de formas, grafismos e símbolos.

A arqueóloga avalia que a incorporação dessas referências em criações contemporâneas torna o conhecimento mais acessível e ajuda a preservar aquilo que a cultura material amazônica registrou. Mas cobrou método. “Todo designer tem que ser um pouco antropólogo”, afirmou, ao falar da necessidade de compreender os contextos culturais das referências usadas na criação.

Cristiana Barreto e Edithe Pereira integram o Projeto Arqueologia de Monte Alegre (AMA), que há doze anos investiga a ocupação humana no território.

Trabalhar em rede foi o argumento de Cilene Marajoara. Como liderança local, ela observou que a articulação entre territórios faz a produção alcançar mais gente sem que a história contida nesses materiais se dissolva nas demandas do mercado, e ligou a difusão do conhecimento artístico e cultural à educação e à geração de renda. “Arte e cultura em evidência. E as lideranças locais são fundamentais para promover essa união e trazer visibilidade para o local”, concluiu.

A apresentação coube ao coordenador de projetos do LabCom, Tarcizio Macedo. A roda de conversa foi transmitida pelo canal do MPEG no YouTube:

Mais informações sobre o Projeto Arqueologia de Monte Alegre (AMA) em https://www.instagram.com/arqueologiademontealegre/

Com informações da Agência Museu Goeldi.

Foto em destaque: Adrynny Oliveira / MPEG

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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