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Em abril de 2025, tive a felicidade de ver publicado nos Cadernos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo o artigo de minha autoria intitulado Metaverso agrário: a simulação da realidade como gerador de conflitos no campo no Marajó. No estudo, trago o conceito de Metaverso Agrário, a operacionalidade da simulação da realidade por meio de ferramentas virtuais que impactam a vida agrária real. E muito aprendi com o acompanhamento que fiz junto com minha amiga Fernanda Antelo dos registros do Cadastro Ambiental Rural na região marajoara entre 2015 e 2026, o que me deu suporte técnico-científico para concluir que a internet passou a ser instrumento decisivo na disputa pela terra e territórios na Amazônia. 

Com a chegada dos projetos de comercialização de créditos de carbono, espantou-me como no espaço virtual, no Metaverso Agrário, o município de Portel foi “atacado” por empresas internacionais que especularam sobre florestas e territórios tradicionalmente ocupados a ponto de abrangerem cerca de 715 mil campos de futebol de Portel, circulando milhões de reais em nome do enfrentamento às mudanças climáticas, sem que as comunidades rurais de Portel e autoridades soubessem dessa circulação de valores. Diante do uso indevido de terras públicas e territórios comunitários em seus projetos, a Defensoria Pública do Estado do Pará entrou com uma ação judicial contra os especuladores de terras e rentistas que querem se aproveitar de nossas matas para enriquecer.

Como afinal, as organizações sociais do campesinato amazônico podem fazer frente a tais ameaças que se movimentam no Metaverso Agrário? Apesar de não haver uma resposta fácil para essa questão, podemos exercitar algumas saídas para o fortalecimento de comunidades e suas associações, cooperativas e sindicatos de agricultores a agricultoras familiares. A primeira alternativa é apostar na juventude dos campos e florestas nesse fortalecimento organizativo, considerando todo o potencial e habilidade desse público em utilizar as tecnologias atuais. Em 2021, como resultado da investigação que a pesquisadora Ana Euler e eu fizemos sobre a utilização da internet por 103 jovens do Marajó durante a pandemia de Covid-19, pudemos concluir que o debate intergeracional precisa ser pauta frequente entre as organizações comunitárias. Nossa pesquisa verificou que 59% dos jovens entrevistados ajudaram suas famílias em consultas à página da Caixa Econômica Federal ou aplicativo do programa Auxílio Emergencial durante a pandemia. Destaque também para as pesquisas que os jovens fizeram à época junto ao Cadastro Único do Governo Federal, para acesso ao Bolsa–Família (48,9%), e verificação da situação cadastral de CPFs, na página da Receita Federal (22,2%). Para se ter uma ideia do impacto da mobilização das famílias e instituições para se garantir o acesso ao Auxílio–Emergencial no Território do Marajó, 204.667 pessoas foram beneficiadas com esse auxílio, que injetou 631,4milhões de reais na economia dessa região em 2020.

Outra saída é a compreensão da sociedade em geral sobre o papel fundamental das mulheres da defesa dos territórios tradicionalmente ocupados. Ao analisar a primeira onda de projetos de carbono no Marajó e estuário amazônico, não pude deixar de perceber que as críticas mais expressadas têm vindo de mulheres que não concordam com a falta de transparência na implantação dos projetos, restrito às plataformas digitais e em idioma estrangeiro, criticando também a duração dos contratosque 30 a 40 anos sem a garantia de salvaguardas.  Em Abaetetuba, por exemplo, local que também recebeu muitas propostas de projetos de carbono, muitas famílias quilombolas, sobretudo as mulheres, questionaram a falta de apresentação dos textos de projetos aos moradores das comunidades. Considerando que as mulheres são aquelas mais afetadas diretamente pelas mudanças do clima, são elas que devem protagonizar as discussões sobre os impactos sociais, econômicos e ambientais do aquecimento global e não as megacorporações.

Os argumentos que exponho me fazem recomendar às organizações sociais diante do Metaverso Agrário para a superação do associativismo/presidencialismo que não traz em sua estrutura de debates o que é intergeracional, trazendo crianças, jovens e idosos para construir; o que é relacionado a gênero, com real protagonismo de mulheres e LGBTQIA+; e de um comportamento contínuo de conselho comunitário em sua prática. O investimento na cidadania digital e soberania de comunicação também são passos fundamentais para o empoderamento local diante das novas estratégias do grande capital em expropriar territórios de povos e comunidades tradicionais na Amazônia, submetendo florestas, rios como reles ativos financeiros, num ardil jogo de apostas onde a banca nunca perde. 

A grilagem não age mais somente sobre a terra. A nova grilagem é sobre o sentimento de territorialidade.

Carlos Augusto Pantoja Ramos
Engenheiro Florestal, Mestre em Ciências Florestais pela Universidade Federal Rural da Amazônia. Estudante do curso de doutorado do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (Ineaf) da Universidade Federal do Pará (Ufpa). Colaborador voluntário da Comissão Pastoral da Terra no Marajó e da Federação dos Trabalhadores Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Pará - Fetagri.

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