Publicado em: 4 de setembro de 2026
Para Georgenor de Souza Franco Filho
A linguagem talvez seja uma das mais poderosas formas pelas quais o ser humano habita o mundo. Antes mesmo de explicar a realidade, nós a nomeamos. E, ao nomeá-la, começamos a organizá-la, interpretá-la e atribuir-lhe sentidos. A história que conhecemos, portanto, chega até nós mediada por palavras, discursos, documentos, testemunhos, silêncios e interpretações. Entre o acontecimento e aquilo que compreendemos como acontecimento existe quase sempre uma linguagem que seleciona, organiza e produz sentidos. Por isso, compreender a linguagem é também compreender uma parte fundamental da maneira como uma sociedade constrói sua própria memória.
O filosofo russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) nos leva a perceber que a palavra jamais vive isolada. Toda palavra nasce em uma situação concreta e carrega marcas das relações sociais, das vozes que a antecederam e das vozes às quais responde. Quando alguém diz “revolução”, “invasão”, “libertação”, “golpe”, “conquista” ou “resistência”, aparentemente está apenas escolhendo palavras. Entretanto, cada escolha produz uma determinada perspectiva sobre o acontecimento. O fato pode ser o mesmo, mas o modo de dizê-lo modifica a posição de quem o observa. A linguagem, nesse sentido, é profundamente social porque cada enunciado participa de uma disputa permanente pela produção dos sentidos.
É justamente nesse ponto que a linguagem encontra a história. O passado chega até nós por meio de narrativas. Um documento histórico é também um documento de linguagem. Uma carta, um decreto, um jornal, um discurso político, um diário, uma fotografia acompanhada de legenda ou mesmo o nome atribuído a determinado acontecimento constituem formas de interpretação. O acontecimento aconteceu, mas aquilo que posteriormente dizemos sobre ele é construído por meio de escolhas linguísticas. A história, portanto, não é apenas aquilo que ocorreu, mas também a incessante disputa em torno das palavras capazes de contar aquilo que ocorreu.
Michel Foucault (1926 -1984) infere uma questão mais profunda: em que condições históricas foi possível dizer determinada coisa de determinada maneira? Para Foucault, o enunciado precisa ser observado em sua existência concreta, relacionado aos saberes, às instituições, às práticas sociais e às relações de poder que permitem sua circulação. O discurso participa, assim, da produção daquilo que uma determinada época reconhece como verdadeiro, aceitável ou possível. A linguagem deixa de ser compreendida apenas como veículo de informações e passa a ser percebida como uma prática que participa da própria constituição da realidade social.
Isso significa que uma palavra jamais é completamente inocente. Quando uma sociedade chama alguém de “herói”, produz uma determinada memória sobre essa pessoa. Quando chama outro de “traidor”, produz outra. Quando um grupo é descrito como “civilizado” e outro como “primitivo”, a linguagem estabelece uma hierarquia cultural. Quando uma população é apresentada como “povo” e outra como “massa”, o enunciado já revela uma posição diante daqueles sujeitos. A palavra pode acolher, excluir, dignificar, diminuir, silenciar ou transformar. Por isso, compreender a linguagem exige também compreender os valores e as relações de poder que atravessam aquilo que dizemos.
Uma discussão latente abordada Pierre Bourdieu (1930 – 2002) indica uma dimensão fundamental: as palavras possuem força social porque são pronunciadas em determinadas posições e dentro de relações de poder. Um mesmo enunciado pode produzir efeitos diferentes dependendo de quem fala, para quem fala, onde fala e sob quais condições fala. A autoridade de determinadas instituições está também relacionada à capacidade de fazer certas palavras serem reconhecidas como legítimas. Há discursos que apenas descrevem o mundo; outros possuem força para classificá-lo, ordená-lo e transformá-lo.
A literatura, por sua vez, leva essa potência da linguagem a uma dimensão ainda mais profunda. Por meio da linguagem literária, a sociedade pode olhar para si mesma, reconhecer seus comportamentos, suas contradições, seus conflitos e suas mazelas. O romance, o conto, a poesia, a crônica e o teatro tornam-se espaços privilegiados de representação da experiência humana. A literatura registra modos de viver, relações de poder, preconceitos, desejos, violências, desigualdades, costumes e transformações históricas. Ela não funciona como um espelho absolutamente fiel da realidade, porque recria aquilo que observa por meio da imaginação, da estética e da perspectiva do escritor. É justamente nessa recriação que reside sua força: ao transformar a realidade em linguagem, a literatura permite que o leitor enxergue aquilo que, muitas vezes, a vida cotidiana naturalizou. O critico literário Antonio Candido (1918-22017) compreende essa dimensão da literatura ao reconhecer nela uma força humanizadora, profundamente vinculada à experiência social.
É nesse encontro entre linguagem literária e sociedade que a literatura participa da formação do pensamento social. Ao apresentar personagens, conflitos e mundos possíveis, a obra literária provoca o leitor a confrontar valores que pareciam inquestionáveis. Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e tantos outros escritores fizeram da palavra literária um espaço de observação crítica da sociedade brasileira. Suas obras revelam ideologias, desigualdades, relações raciais, estruturas de poder, preconceitos e experiências de sujeitos historicamente marginalizados. A literatura, assim, ultrapassa o prazer estético e torna-se experiência de conhecimento: ela ensina a perceber o outro, questionar o aparentemente natural e compreender que toda sociedade produz também as narrativas pelas quais procura explicar a si mesma.
Isso possui uma consequência histórica extraordinária: as palavras mudam porque as sociedades mudam, e as sociedades também mudam porque modificam seus modos de falar, pensar e interpretar. Uma palavra que ontem parecia comum pode hoje carregar uma dimensão política, cultural ou afetiva completamente diferente. A linguagem é, portanto, movimento, experiência e história.
É por isso que interpretar um fato histórico exige atenção às palavras utilizadas para apresentá-lo. Compare-se, por exemplo, “descobrimento” e “invasão”; “colonização” e “dominação”; “catequese” e “apagamento cultural”; “desenvolvimento” e “destruição ambiental”. As palavras não modificam aquilo que ocorreu no passado, mas modificam profundamente o modo como esse passado é compreendido no presente. Uma simples alteração vocabular pode deslocar o centro da narrativa: aquilo que antes aparecia como aventura pode passar a ser compreendido como violência; aquilo que parecia progresso pode revelar seus custos humanos e ambientais. A escolha da palavra é, portanto, também uma escolha interpretativa.
A linguagem também possui o poder de produzir esquecimentos. Aquilo que não é nomeado frequentemente perde espaço na memória coletiva. Grupos sociais historicamente silenciados precisam, muitas vezes, recuperar a própria palavra para reconstruir sua presença na história. Mulheres, povos indígenas, populações negras, trabalhadores, comunidades tradicionais e tantos outros sujeitos passaram longos períodos sendo descritos por discursos produzidos por terceiros. Recuperar a própria voz significa, nesse contexto, disputar o direito de narrar a própria existência. A linguagem torna-se, então, território de memória, identidade e resistência.
Cada enunciado revela algo daquele que o produz. Ao escolher uma palavra em vez de outra, o sujeito revela sua maneira de perceber o mundo. O enunciado carrega marcas de sua época, de sua cultura, de seus valores, de suas experiências e de suas relações sociais. É por isso que ler criticamente significa também perguntar quem fala, de onde fala, para quem fala, em que circunstância fala e quais sentidos sua fala torna possíveis. A leitura madura ultrapassa a superfície da frase e procura perceber as relações que existem por trás dela.
Talvez uma das maiores responsabilidades de quem ensina linguagem seja justamente ensinar que as palavras possuem história. Cada palavra participa de uma rede de sentidos que ultrapassa nossa intenção individual. Falamos com palavras que recebemos de outros e entregamos essas palavras transformadas a outros sujeitos. A linguagem é, simultaneamente, herança e criação. Por ela recebemos o passado, interpretamos o presente e imaginamos o futuro. Quem domina criticamente a linguagem compreende que interpretar o mundo também é participar da construção do mundo.
Por isso, a linguagem não deve ser compreendida apenas como instrumento de comunicação. Ela é uma das formas fundamentais de existência social. Por meio dela, os seres humanos constroem memórias, estabelecem identidades, legitimam poderes, questionam verdades, produzem conhecimentos e reinventam suas próprias histórias. Toda palavra colocada no mundo abre uma possibilidade de interpretação. E talvez esteja aí sua grandeza e sua responsabilidade: quando falamos, dizemos alguma coisa sobre a realidade. De certo modo, ajudamos a decidir como essa realidade será vista, lembrada e compreendida. A história permanece feita de acontecimentos, mas sua memória é feita de palavras. E disputar as palavras é, muitas vezes, disputar o próprio direito de interpretar a história.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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