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O filme de terror Obsessão, dirigido pelo cineasta e ex-YouTuber Curry Barker, de apenas 26 anos, vem conquistando público e crítica.


Como alguém que gosta e acompanha cinema, proponho aqui um breve ensaio reflexivo.

Não se trata de uma análise crítica do filme, tampouco de uma leitura exaustiva de seus elementos narrativos. Meu interesse é outro: pensar os atravessamentos que a obra mobilizou em mim, especialmente em relação ao patriarcado e à violência de gênero.

Como alguns argumentos dependem de acontecimentos da trama, aviso desde já que este texto contém spoilers.

Antes de recorrer ao filme, começo por uma pergunta: o que é obsessão?

Na psicanálise, encontramos a neurose obsessiva, uma estrutura psíquica com características específicas. Não me parece, entretanto, que esse seja o caso dos protagonistas; ao menos, não há elementos suficientes para sustentar uma hipótese diagnóstica nessa direção.

No filme, “obsessão” aparece em seu sentido mais corrente: a fixação por alguém a ponto de impedir que o desejo circule e que outras relações possam existir. Trata-se de uma relação marcada pela posse, pelo domínio e pela tentativa de captura do outro. Não é uma temática inédita no cinema. Ela atravessa histórias de sequestros, perseguições, tentativas de “roubar” a vida alheia, tomando seu lugar, e stalkers. Nelas, o objeto amado deixa de ser reconhecido como sujeito para tornar-se algo a ser apropriado, incorporado e/ou destruído.

Curiosamente, Obsessão também me lembrou Quero Ser Grande. Em ambos, um desejo aparentemente ingênuo é realizado por meio da magia e, justamente por isso, produz consequências imprevisíveis. Nos dois casos, o pensamento mágico e onipotente infantil encontra a realidade.

Mas o próprio título do filme já nos provoca. “Obsessão” é uma palavra polissêmica: pode remeter tanto ao sobrenatural quanto ao amor romântico. O diretor brinca com essa expectativa ao sugerir uma possível presença demoníaca, apenas para revelar que o verdadeiro horror nasce das relações humanas. O terror, aqui, não está em uma entidade, mas naquilo que pessoas comuns, em nome de um suposto amor, são capazes de fazer umas com as outras. Em uma sociedade patriarcal, são sobretudo os homens que aparecem como autores dessa violência, como mostram os dados sobre violência de gênero.

Bear é um rapaz inseguro, que pensa estar apaixonado por Nikki. Ao encontrar um artefato mágico, pede que ela se apaixone por ele. A partir desse momento, Nikki deixa de existir como sujeito e passa a viver exclusivamente em função dele.

A pergunta que atravessa todo o filme, então, é simples: afinal, de quem é a obsessão? De Nikki, enfeitiçada pelo desejo de Bear, ou de Bear, que elimina a subjetividade dela para que só reste uma mulher completamente dedicada a ele?

Aqui vale abrir um parêntese.

Nos últimos anos, alguns filmes vêm sendo agrupados sob rótulos como “Incel Horror” ou “terror de relacionamento”. Em vez de monstros extraordinários, apresentam homens comuns, muitas vezes vistos como “caras legais”, incapazes de aceitar a autonomia feminina. O terror nasce justamente da naturalização do controle, da manipulação e da recusa do consentimento.

(Não Se Preocupe, Querida, Pra Sempre Medo e Help são alguns exemplos dessa tendência.) Obsessão dialoga diretamente com esse movimento.

Um detalhe aparentemente simples já revela muito. Bear compra inicialmente o artefato para presentear Nikki, que deseja abandonar o emprego e investir na carreira de escritora. Ou seja, ela está prestes a seguir um caminho próprio.

Quando percebe que isso significará perdê-la, ele muda de ideia. Em vez de apoiar seu desejo, utiliza o objeto para garantir que ela o ame mais do que qualquer pessoa no mundo.

É justamente aí que a violência começa.

O feitiço não cria amor; destrói a possibilidade de separação; interrompe um futuro possivelmente potente. Nikki perde progressivamente sua autonomia, sua linguagem e sua capacidade de existir para além de Bear.

É nesse contexto que a polêmica cena do gato me parece particularmente interessante. O que significa preservar um corpo do qual a vida já partiu? E o que significa comer a carne de um animal amado?

Talvez essa seja uma metáfora radical da incorporação do objeto. Quando o simbólico deixa de operar, resta apenas o gesto concreto. Nikki já não consegue elaborar sua experiência; comunica-se por gargalhadas deslocadas, expressões fixas e atos cada vez mais perturbadores. Seu sofrimento deixa de encontrar palavras.

Bear, por sua vez, revela algo importante sobre sua forma de amar.

Esta é uma leitura pessoal, mas não me parece que ele ame Nikki. Amar implica desejar que o outro exista como sujeito, inclusive quando isso significa frustrar nossos próprios desejos. Bear faz exatamente o contrário. Diante do sofrimento evidente de Nikki, preocupa-se muito mais com a própria rejeição do que com aquilo que ela vive.

O filme, então, coloca o espectador diante de uma armadilha interessante: seria possível sentir pena de Bear? Afinal, ele não sabia exatamente quais seriam os efeitos do feitiço.

Talvez.

Mas, quando percebe o desastre, sua prioridade continua sendo ele mesmo. Sua primeira preocupação não é devolver a liberdade a Nikki, mas encontrar uma forma de manter algum benefício para si. O sofrimento dela permanece secundário.

Mesmo quando Nikki consegue comunicar, ainda que precariamente, que está presa naquela condição, isso não basta. Se ela ainda conseguisse desempenhar o papel de namorada ideal, Bear parece disposto a ignorar completamente sua indisponibilidade, seu sofrimento e seu apagamento.

Talvez esse seja um dos aspectos mais perturbadores do filme.

Assistimos a uma mulher perder a autonomia sobre o próprio corpo, sobre seus desejos e até sobre os gestos mais elementares. Ela permanece imóvel, esperando comandos, incapaz de cuidar de si mesma, de decidir quando comer, andar ou ir ao banheiro.

Ainda assim, Bear consegue transformar esse sofrimento em benefício próprio. Mesmo assustado, continua mantendo relações sexuais com Nikki, reduzindo-a definitivamente à condição de objeto. Sua tentativa não é revogar o feitiço, mas ajustá-lo para continuar obtendo seus benefícios, eliminando apenas aquilo que lhe causa desconforto.

É impossível não pensar em quantas relações reproduzem essa lógica sem qualquer elemento sobrenatural.

O feitiço não existe.

Mas existem manipulações, chantagens emocionais, isolamento, controle e pequenas violências cotidianas que silenciam o desejo feminino até que muitas mulheres deixem de reconhecer quem são.

Não é raro que, depois disso, sejam chamadas de “loucas”. Que homens se autorizem a paquerar ou trair, justificando o ato a partir da suposta loucura da companheira.

Talvez a grande inteligência do filme esteja justamente em explicitar uma dinâmica bastante conhecida: anular o desejo da mulher, exigir que toda sua vida gire em torno da relação, criticá-la por essa dependência produzida pelo próprio parceiro e, finalmente, desejar livrar-se da “mulher problemática” que ele mesmo ajudou a construir.

Mesmo quando Bear sai definitivamente de cena, percebemos que não existe retorno simples. Algumas violências deixam marcas permanentes. Consequências incontornáveis. Não há caminho fácil para Nikki; sua vida foi marcada.

Além disso, assistimos em toda trama, um sujeito que insiste em se fingir passivo diante de arcar com seu próprio desejo.
Responsabilizar-se pelo próprio desejo significa arcar com suas consequências. Por vezes, é preciso reconhecer que o desejo também pode implicar querer aniquilar o outro.

Quantos homens, diante da dificuldade de lidar com a frustração, objetificam, instrumentalizam, mortificam e/ou aniquilam mulheres?

Nesse sentido, Obsessão radicaliza o funcionamento do patriarcado. Leva-o ao extremo para revelar algo bastante cotidiano: a dificuldade de alguns homens em lidar com a frustração e, principalmente, com o “não”. Inclusive daqueles que parecem inofensivos, sensíveis e bons amigos.

Quantas mulheres tiveram suas vidas interrompidas por homens comuns?

Quantas permanecem em relações nas quais abrem mão dos próprios desejos apenas para preservar o vínculo?

Obsessão não fala apenas de um feitiço. Fala de homens que tentam capturar identidades femininas e desejam uma devoção impossível, que só pode existir à custa da autonomia das mulheres.

Por coincidência, enquanto escrevia este texto, li a notícia de um homem que dopou a própria esposa para estuprá-la, causando sequelas físicas que exigiram intervenção cirúrgica.

Evidentemente, trata-se de situações distintas. Ainda assim, ambas expõem uma mesma lógica: a redução da mulher à condição de objeto sobre o qual um homem acredita poder exercer domínio.

Há tanta distância assim entre essa realidade e o horror apresentado no filme?

No final, torna-se inevitável lembrar da metáfora que se popularizou na internet: muitas mulheres afirmam sentir menos medo de encontrar um urso (bear) na floresta do que um homem desconhecido.

O detalhe mais cruel é que, em Obsessão, Bear não era um estranho. Era um amigo. Alguém em quem Nikki confiava, que não queria magoar e com quem se preocupava.

Talvez seja justamente por isso que o filme assuste tanto.

Porque o monstro não vem de fora.

Ele já estava dentro da relação.

Para quem gosta de terror e de discussões sobre gênero, fica a recomendação.

Mais do que um filme sobre magia, Obsessão é uma metáfora potente sobre violência contra as mulheres e sobre as formas, muitas vezes silenciosas, pelas quais o patriarcado tenta transformar amor em posse.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Bárbara Sordi
Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Psicologia Hospitalar da Saúde, Facilitadora de Círculos de Paz, Professora da Universidade da Amazônia, coordenadora do Projeto “Sobre-viver às violências” e do Grupo de estudos “Relações de gênero, Feminismos e Violências”, Mestre e Doutora em Psicologia pela Ufpa e coordenadora/assessora da Vereadora Lívia Duarte. Mãe da Luísa e Caetano, Feminista Terceiro Mundista.

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