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Dizem que o tempo passa.

Na cozinha, aprendi que não.

O tempo não passa. O tempo cozinha.

Passei muitos anos querendo apressar as coisas. Achava que tudo precisava ficar pronto depressa. Até entender que os melhores sabores nunca tiveram pressa.

Foi a gastronomia que me ensinou isso.

O tucupi não aceita ansiedade. A maniçoba ri da nossa impaciência. Um bom caldo pede silêncio. Um doce precisa encontrar o ponto. Até uma fruta amadurece quando chega a sua hora.

Na cozinha, ninguém manda no tempo.

A gente aprende a caminhar ao lado dele.

Talvez seja por isso que cozinhar tenha me ensinado tanto sobre viver.

Enquanto uma panela ferve, alguma coisa também cozinha dentro da gente. Enquanto um alimento descansa, o coração desacelera. Enquanto esperamos o forno cumprir seu trabalho, descobrimos que nem tudo depende das nossas mãos.

Existem sabores que só o tempo sabe construir.

Hoje percebo que desperdicei muitos dias tentando correr na frente dele.

Queria resultados imediatos. Respostas prontas. Dias perfeitos. Esquecia que até a natureza da Amazônia vive no ritmo da espera. A cheia tem seu tempo. A vazante também. A safra do açaí não obedece ao relógio. O bacuri não amadurece porque temos pressa.

A vida também não.

Ganhar tempo nunca foi fazer tudo mais rápido.

É compreender que existe um tempo certo para cada receita, para cada encontro, para cada aprendizado e até para cada recomeço.

Na gastronomia amazônica, o fogo nunca foi apenas fogo. Ele transforma.

Transforma a mandioca em tucupi. A folha em maniçoba. O alimento em memória. E, quase sem perceber, transforma também quem cozinha.

Hoje já não quero vencer o tempo.

Quero sentar com ele à mesa.

Quero permitir que ele tempere minhas escolhas, amadureça meus sonhos e retire de mim tudo aquilo que ainda não está no ponto.

Porque cozinhar é um exercício diário de confiança.

Confiança de que o fogo fará sua parte.

De que o ingrediente encontrará seu melhor sabor.

De que a espera também alimenta.

Foi a cozinha que me ensinou que nem tudo o que demora está atrasado.

Há coisas que simplesmente estão ficando melhores.

E esse talvez seja o maior ensinamento que a gastronomia me deu: a vida, assim como uma boa receita, nunca depende apenas dos ingredientes.

Ela depende, sobretudo, do tempo.

Porque o tempo também é ingrediente.

Nalva Avertano-Rocha
Gastróloga, Bacharel em Direito, Especialista em Bolo de Rolo, criadora do Bolo de Rolo Amazônico, empreendedora à frente da Nalva Avertano-Rocha Gastronomia. Ministra cursos livres de gastronomia com foco na valorização da cultura amazônica. Natural de Altamira (PA), apaixonada por crônicas, poesia e pelos sabores da floresta. Corredora amadora em processo de superação e reinvenção.

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