Publicado em: 20 de julho de 2026
Mesmo para aqueles que não entendem muito de futebol, é inegável que Messi aprendeu a falar com os pés. Em Rosário, no bairro operário de La Bajada, Lionel Andrés Messi Cuccittini cresceu driblando tudo o que a vida colocou no caminho: a casa simples da rua Estado de Israel, o Renault 12 caindo aos pedaços que o levava aos treinos, o corpo miúdo que lhe rendeu o apelido de La Pulga e, aos dez anos, um diagnóstico de deficiência do hormônio do crescimento que exigia um tratamento de quase mil dólares por mês que nem o Newell’s Old Boys, nem o River Plate, nem o plano de saúde perdido do pai operário podiam pagar, e que poderia ter encerrado o sonho antes mesmo de ele começar.
Foi um guardanapo de papel, rabiscado por Carles Rexach em um clube de tênis de Barcelona em 14 de dezembro de 2000, que salvou a carreira do garoto de 13 anos. O Barcelona pagou as injeções que Messi aplicava, sozinho, nas próprias pernas. O resto é a história mais contada do futebol contemporâneo: La Masia, a estreia aos 17 anos, o primeiro gol de cavadinha após passe de Ronaldinho, os títulos, as oito Bolas de Ouro, e enfim, no Catar, em 2022, a Copa do Mundo que faltava, erguida sob uma comoção que atravessou fronteiras e atingiu até o Brasil, onde a imprensa registrou uma onda inédita de torcida pelo rival histórico. Havia, naquele dezembro, algo raro: um planeta inteiro disposto a torcer por um argentino.
Três anos e meio depois, quando a Argentina caiu diante da Espanha na final da Copa de 2026, parte das redes brasileiras celebrou com uma frase que teria sido impensável em 2022: “o mal perdeu”.
O que aconteceu entre uma Copa e outra não foi futebol. Absolutamente. Messi, aos 39 anos, continua um atleta muito acima da curva.
O que aconteceu foi silêncio.
Convém desfazer, antes de tudo, o mito da timidez. Messi tem voz e sabe usá-la. Quando quer. Em 2016, foi ele quem anunciou, como porta-voz do vestiário, que a seleção argentina boicotaria a imprensa após uma acusação injusta contra Ezequiel Lavezzi. Em 2019, na Copa América do Brasil, recusou a medalha de bronze e denunciou publicamente a “corrupção e falta de respeito” da Conmebol, sugerindo que o torneio estava armado. Pagou, por isso, uma multa de 50 mil dólares e três meses de suspensão. Ainda na semana passada, diante da narrativa de favorecimento arbitral à Argentina, rebateu sem hesitar: “ninguém nos dá nada de graça”. O capitão enfrenta entidades, árbitros e narrativas. Assume custos. Protesta.
A voz existe. O que nunca existiu foi a disposição de usá-la contra o racismo praticado ao seu redor, com a sua camisa.
A lista é longa e documentada. Em 2022, nas celebrações do título, o boneco com o rosto de Mbappé e o “minuto de silêncio” pela “morte” da Coman pedido pelo goleiro Dibu Martínez, com Messi ao lado, enquanto nascia nas arquibancadas o canto que relaciona de forma pejorativa os jogadores franceses à sua origem africana. Em julho de 2024, o mesmo canto entoado dentro do ônibus da seleção campeã da América, transmitido ao vivo por Enzo Fernández, desta vez resultando em queixa judicial da federação francesa, investigação da FIFA, procedimento disciplinar no Chelsea, desculpas públicas de Enzo. Nenhuma palavra, porém, veio do capitão. Quando um subsecretário de Esportes argentino sugeriu que Messi e a AFA deveriam pedir desculpas, foi demitido pelo governo Milei em questão de horas. Em 2026, já durante a Copa, torcedores argentinos imitaram macacos diante do streamer IShowSpeed e hostilizaram torcedores egípcios; a FIFA abriu investigação; Mbappé e Lamine Yamal condenaram o racismo no torneio. Messi, de novo, nada, com o agravante de tudo isto ter acontecido dias depois de ele posar para uma foto ao lado de um ativista de extrema direita conhecido por difundir conteúdo racista.
O Serviço de Proteção de Redes Sociais da FIFA identificou 89 mil publicações abusivas só na fase de grupos desta Copa (treze vezes mais do que em 2022), e mais de uma em cada dez tinha motivação racial; foi nesse ambiente inflamado que os episódios argentinos explodiram.
A rigor, há atenuantes, e o jornalismo honesto os registra. Segundo Rodrigo De Paul, Messi avisou o grupo antes das celebrações de 2024: “ninguém vai provocar ninguém, agora vamos celebrar” e, é preciso sublinhar, ele não estava no ônibus quando a live foi feita. Já havia impedido provocações ao Brasil em 2023. Existe, portanto, um capitão que age nos bastidores, preventivamente, de portas fechadas. Mas é exatamente aí que mora o problema: até 20 de julho de 2026, não há registro público de uma única declaração de Lionel Messi condenando episódios de racismo cometidos por companheiros ou torcedores da seleção argentina, em vinte e um anos vestindo essa camisa.
A intervenção privada que De Paul revela é a prova de que Messi sabe o que estava errado. Sabe e escolheu não dizê-lo em voz alta para o mundo todo escutar.
Seria exagero dizer que o público “cancelou” Messi. As pesquisas não autorizam essa conclusão. Um levantamento feito no Brasil dias depois dos episódios de racismo desta Copa ainda mostrava Messi empatado em primeiro lugar entre os jogadores que o público queria ver campeões. A admiração pelo craque resiste.
Mas algo se quebrou, e é mensurável. A enquete de um grande diário espanhol apontou preferência pela Espanha na final em todos os continentes, inclusive na América do Sul, onde a Argentina de 2022 era a causa comum do continente.
No Brasil, na imprensa negra e antirracista como Mundo Negro, Alma Preta, BNews, nos veículos de análise crítica e nos públicos engajados no combate ao racismo que o silêncio do capitão virou pauta, há a pergunta: “Messi é racista?”. A erosão não é geral, mas é segmentada, acelerada e profunda exatamente entre aqueles para quem o posicionamento não é gesto opcional de celebridade, mas obrigação cidadã de quem tem a maior audiência do esporte mundial.
É aqui que a trajetória do menino de Rosário adquire sua ironia mais amarga. Messi conhece, como pouquíssimos ídolos, a experiência de ser o diferente, o menor, o que precisou de ajuda para simplesmente ter um corpo apto a competir. Um clube estrangeiro pagou seu tratamento quando ninguém mais quis pagar, um continente o acolheu, o mundo torceu por ele. Quando chegou a sua vez de estender não o dinheiro, não o talento, apenas a voz a quem é diminuído pela cor da pele, o maior jogador de sua geração preferiu o silêncio.
Pelé calou sob uma ditadura e a história ainda lhe cobra isto mesmo depois de sua partida deste plano. Messi cala em democracia plena, sem risco algum além do desconforto. Vinícius Júnior, Mbappé, Yamal e tantos outros mostraram que falar é possível e que a camisa não pesa mais do que a consciência. Na noite de 19 de julho, Messi perdeu muito mais do que uma final de Copa do Mundo. Em sua trajetória de atleta brilhante, o que ele perdeu de verdade foi a oportunidade de fazer sua parte cidadã contra o racismo.
Referências
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Após críticas, Messi é suspenso de jogos internacionais por três meses. (2019, 3 de agosto). Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-08/apos-criticas-messi-e-suspenso-de-jogos-internacionais-por-tres-meses
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Brasileiros passam a torcer pela Argentina na Copa, diz pesquisa. (2026, 8 de julho). Correio Braziliense. https://www.correiobraziliense.com.br/esportes/copa-2026/2026/07/7457934-brasileiros-passam-a-torcer-pela-argentina-na-copa-diz-pesquisa.html
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Welcome to ‘Messitown’: How Rosario shaped Inter Miami star. (2023). ESPN. https://www.espn.com/soccer/story/_/id/38166457/welcome-messitown-how-rosario-shaped-inter-miami-star










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