Publicado em: 20 de setembro de 2026
Há alguns dias, ouvi uma entrevista com um filósofo a quem fizeram uma pergunta que, à primeira vista, parecia tão simples quanto perguntar a um padeiro para que serve o pão. Perguntaram-lhe: para que serve a filosofia? O homem, em vez de entregar a resposta esperada, teve a delicadeza de recusar a pergunta. Disse que a filosofia não tem por característica servir a coisa alguma e que, se há uma palavra da qual ela desconfia, é precisamente essa: servir.
Gostei da resposta. Algumas palavras que entram na nossa vida com tanta naturalidade que já não percebemos a insolência que carregam. “Servir” é uma delas. Tudo deve servir para alguma coisa. O conhecimento deve servir à produtividade; a leitura, ao aperfeiçoamento; o exercício, à longevidade; a meditação, à redução da ansiedade; a arte, ao entretenimento; o descanso, à recuperação das forças para que possamos trabalhar novamente. Até o ócio precisa apresentar resultados. Chegamos, portanto, à filosofia e fazemos a mesma pergunta, como se ela fosse uma chave de fenda, um aplicativo ou uma engrenagem.
A filosofia tem o péssimo hábito de não se comportar como utensílio. A música e a arte compartilham essa inconveniência. Há experiências humanas cujo valor não se esgota na utilidade que possam oferecer e que, justamente por isso, nos permitem olhar para além da lógica dos meios e dos fins. A filosofia pertence a esse território porque sua primeira tarefa consiste em examinar os próprios critérios pelos quais decidimos o que é útil, necessário, desejável ou valioso.
Foi com essa ideia que comecei a pensar no assunto. E, por uma dessas coincidências que a vida produz sem consultar nossas teorias, há alguns meses ouvi meu filho dizer duas palavras latinas: memento mori. Tive uma pequena surpresa. Meu primeiro pensamento foi que o rapaz estivesse lendo Sêneca ou Marco Aurélio. Como mãe, conheço as possibilidades do mundo moderno e achei prudente investigar antes de concluir que havia produzido um filósofo em casa. Fui à internet e descobri o que já devia saber: o estoicismo havia voltado. E não voltara discretamente, como quem regressa à casa depois de uma longa viagem. Voltou fazendo barulho, acompanhado de vídeos, podcasts, livros, frases, cursos, comunidades digitais e fotografias de homens sérios olhando para o horizonte.
A antiga ágora cabia agora na tela de um telefone. Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio voltaram a circular entre nós, embora nem sempre na companhia de seus livros. Às vezes aparecem reduzidos a uma frase sobre disciplina, resiliência ou sucesso. Marco Aurélio, que já foi imperador romano, parece ter adquirido uma segunda carreira como consultor de produtividade. Sêneca, homem que escreveu sobre a brevidade da vida, tornou-se uma referência conveniente para uma cultura que deseja administrar melhor o tempo, aumentar o desempenho e encaixar a própria existência em uma planilha.
O fenômeno merece atenção justamente porque revela alguma coisa sobre o nosso tempo. Podemos desconfiar das simplificações, verificar as frases atribuídas aos antigos, separar o pensamento da legenda motivacional e investigar o que sobreviveu da filosofia quando ela atravessou a máquina das redes sociais. A pergunta mais interessante consiste em compreender por que, entre tantas tradições filosóficas disponíveis, o estoicismo encontrou tamanho espaço na imaginação contemporânea.
A resposta começa pela própria condição humana. Construímos máquinas extraordinárias, ampliamos nossa capacidade de comunicação, multiplicamos os recursos disponíveis e colocamos no bolso aparelhos capazes de realizar tarefas que pareceriam milagrosas para qualquer pessoa de outra época. Continuamos, entretanto, enfrentando questões antigas. Sofremos por amor, dinheiro, inveja, rejeição, reconhecimento, doença, perda e passagem do tempo. Mudaram os instrumentos; permaneceram muitas inquietações.
Essa permanência revela uma característica importante da filosofia. O desenvolvimento técnico modifica radicalmente as condições materiais da existência sem eliminar as perguntas sobre o significado dessa existência. Podemos saber onde está uma pessoa em poucos segundos e continuar sem saber como estar com ela, acompanhar uma guerra em tempo real e permanecer sem saber o que fazer com a angústia produzida pelas imagens, conversar com milhares de pessoas e experimentar uma solidão profunda, fotografar uma viagem inteira e descobrir, ao chegar em casa, que passamos mais tempo registrando a viagem do que vivendo-a.
A tecnologia resolveu problemas extraordinários, mas a vida continuou exigindo interpretação. Aumentamos nossa capacidade de fazer sem aumentar na mesma proporção nossa capacidade de compreender por que fazemos. É justamente nessa distância entre capacidade e compreensão que a filosofia recupera sua importância.
Foi nesse ponto que Epicteto voltou a me parecer contemporâneo. A antiga pergunta estoica, o que depende de mim, ganha uma atualidade particular quando o telefone nos informa, a cada minuto, sobre acontecimentos que ocorrem a milhares de quilômetros e sobre os quais não temos poder algum.
Sabemos cada vez mais sobre aquilo que não podemos modificar. A informação chega muito mais depressa do que nossa capacidade de assimilá-la, e a proximidade digital produz uma espécie de obrigação imaginária de reagir a acontecimentos que pertencem a outras pessoas, outros lugares e outras circunstâncias.
O celular vibra, surge uma notícia, alguém publica alguma coisa, outro alguém responde, um terceiro se irrita, o primeiro se explica, o segundo se irrita ainda mais e nós, que inicialmente queríamos apenas saber as horas, acabamos envolvidos numa pequena guerra civil digital. Epicteto não conheceu a internet, mas conhecia perfeitamente a inquietação produzida pela tentativa de governar aquilo que não depende de nós. A ferramenta mudou; a disposição humana permanece reconhecível.
É nesse ponto que aparece o adversário mais curioso do estoicismo contemporâneo: o algoritmo. O algoritmo precisa da nossa atenção. A serenidade produz pouca movimentação, enquanto a indignação, a ansiedade, a comparação e a curiosidade mantêm o olhar diante da tela. A economia digital descobriu que a atenção humana possui valor e desenvolveu mecanismos sofisticados para capturá-la. A filosofia, em sentido contrário, nos convida a examinar aquilo que merece nossa atenção.
A pergunta estoica gera, então, uma formulação contemporânea: quem está decidindo aquilo a que entrego minha atenção? Se alguma coisa depende de mim, devo agir; quando alguma coisa pertence ao campo daquilo que não posso governar, preciso aprender a não entregar a ela uma parcela desproporcional da minha existência. Essa distinção não conduz à passividade. Ela estabelece uma disciplina da atenção e permite recuperar a diferença entre responsabilidade e ansiedade, entre ação e impotência, entre escolha e reação.
Existe uma ironia deliciosa no destino contemporâneo do estoicismo. Uma filosofia que ensinava a não depender da aprovação alheia tornou-se conteúdo destinado a receber aprovação. Aquele que aprendeu com Marco Aurélio a desprezar a opinião pública publica uma fotografia de Marco Aurélio e espera a opinião pública. Nasceu, assim, o estoico de Instagram, criatura que acorda às cinco da manhã, toma banho gelado, levanta pesos, trabalha doze horas, não demonstra fraqueza e publica uma fotografia do imperador romano antes do café.
Nada disso possui, por si só, qualquer gravidade. Disciplina pode ser uma virtude quando está subordinada a um bem. A dificuldade surge quando a disciplina passa a organizar a imagem que fazemos de nós mesmos e se transforma em espetáculo. Os antigos estoicos estavam interessados numa questão muito mais difícil: que espécie de pessoa devemos ser? A questão envolvia virtude, sabedoria, coragem, justiça e temperança. Uma pessoa pode ser extremamente produtiva e profundamente injusta. Pode administrar perfeitamente a agenda e ser incapaz de administrar a própria cólera. Pode controlar todos os compromissos do dia e permanecer sem governo sobre a própria índole.
Nossa época transformou quase tudo em desempenho. Trabalhamos para produzir, estudamos para competir, viajamos para fotografar, descansamos para recuperar produtividade e procuramos a felicidade como quem procura uma meta que ainda não atingimos. Existem aplicativos para contar passos, medir o sono, calcular calorias, registrar hábitos e organizar tarefas. Dentro dessa lógica, não me surpreenderia encontrar em breve um aplicativo capaz de medir a serenidade e enviar uma notificação informando que nossa paz interior caiu 17% desde terça-feira, acompanhada, naturalmente, da sugestão de assinatura da versão premium.
O humor da situação revela uma questão séria. Quando até o autocuidado passa a ser medido como desempenho, a própria ideia de uma vida boa corre o risco de ser substituída por uma coleção de indicadores. O indivíduo passa a administrar a si mesmo como uma pequena empresa, acompanha resultados, corrige falhas, estabelece metas e transforma a própria existência em projeto permanente de aperfeiçoamento. A filosofia pode interromper esse movimento justamente porque pergunta pelos fins que justificam todo esse esforço.
Nesse contexto, memento mori adquire uma força particular. Lembra-te de que morrerás. A frase possui uma severidade pouco adequada às propagandas de felicidade, mas contém uma espécie de higiene da existência. A consciência da morte recoloca as coisas em proporção. Uma crítica injusta continua desagradável, mas deixa de ocupar o tamanho de uma catástrofe. Uma disputa por prestígio perde parte de sua solenidade. A necessidade de convencer todos de que somos felizes começa a parecer um trabalho cansativo.
Sêneca compreendeu isso com uma clareza que continua desconcertante. Em Sobre a brevidade da vida, sua crítica não consiste apenas em afirmar que a vida é curta. O problema está na maneira como desperdiçamos o tempo que recebemos. A pessoa ocupada demais para viver pode estar simplesmente absorvida por tarefas que se multiplicam sem produzir uma vida maior. Essa observação parece escrita para uma civilização que transformou cada experiência em registro.
Fotografamos o café antes de bebê-lo, registramos a viagem enquanto ela acontece, filmamos o aniversário, fotografamos o jantar e publicamos a fotografia antes de terminar a sobremesa. Construímos um arquivo gigantesco da nossa existência, com milhares de imagens destinadas a provar que estivemos em determinados lugares, com determinadas pessoas, em determinados dias. A fotografia preserva o vestígio. A experiência exige presença.
Essa distinção se tornou especialmente importante. Podemos conservar registros sem conservar a experiência, possuir milhares de imagens e poucas lembranças profundas, ter centenas de contatos e poucos amigos, conversar durante horas e jamais experimentar a intimidade do silêncio. A tecnologia oferece uma capacidade extraordinária de arquivar o vivido. Arquivar, entretanto, continua sendo diferente de viver.
É compreensível que uma filosofia fundada na consciência da finitude encontre nova audiência numa sociedade obcecada pela extensão da vida, pela produtividade e pela permanência digital. Temos acesso a quase tudo e controle sobre muito pouco.
Renata Dopierała observa que o estoicismo popular contemporâneo se desenvolveu em meio a incertezas financeiras, políticas, climáticas e sanitárias, oferecendo aos indivíduos uma forma de pensar sobre felicidade, agência e limites do próprio poder. Sua análise também chama atenção para a aproximação dessa versão popular com a cultura contemporânea do autoaperfeiçoamento e da individualização.
Quando uma filosofia vira produto, corre o risco de perder justamente aquilo que a tornava filosofia. O estoicismo pode ser transformado em método para enriquecer, vencer adversários, controlar emoções ou construir uma aparência de invulnerabilidade. A tradição estoica possui uma dimensão ética muito mais ampla, fundada na virtude, na justiça, na coragem, na temperança e na responsabilidade.
É esse estoicismo menos fotogênico que me interessa. O estoicismo daquele que sofre sem transformar o sofrimento em espetáculo, perde sem transformar a perda em identidade, recebe uma contrariedade sem entregar imediatamente a própria dignidade e reconhece seus limites sem transformá-los em desculpa para abandonar a responsabilidade. É uma filosofia que se verifica no cotidiano, longe das câmeras e das frases compartilháveis.
O exercício filosófico começa na experiência concreta. É na crítica que descobrimos como recebemos uma objeção; é na perda que compreendemos a impermanência; é diante da injustiça que examinamos a natureza da nossa serenidade; é diante daquilo que não podemos mudar que aprendemos a distinguir aceitação de resignação. A filosofia, nesse sentido, não funciona como uma técnica destinada a fabricar uma versão mais eficiente do indivíduo. Ela interrompe a automatização da vida e nos obriga a examinar os critérios pelos quais estamos vivendo.
Essa é uma das razões pelas quais desconfio da pergunta “para que serve a filosofia?”. Quando a filosofia é convocada a apresentar imediatamente um resultado, ela é colocada dentro da mesma lógica que pretende examinar. Sua importância aparece justamente na capacidade de interrogar os fins. A técnica pergunta como fazer. A economia pergunta quanto custa. A administração pergunta como organizar. O direito pergunta o que é permitido. A filosofia acrescenta uma pergunta que nenhuma dessas disciplinas pode dispensar: por que devemos fazer isso?
Essa pergunta contém outra, ainda mais difícil: que espécie de vida estamos construindo com aquilo que fazemos?
A ciência pode ampliar nosso conhecimento sobre o mundo. A tecnologia pode ampliar nossa capacidade de intervenção. A economia pode organizar recursos. O direito pode estabelecer limites normativos. A política pode decidir coletivamente os caminhos de uma sociedade. A filosofia examina os conceitos e valores que atravessam todas essas atividades. Pergunta o que entendemos por justiça, liberdade, responsabilidade, verdade, dignidade, felicidade e vida boa.
Por isso, a filosofia não compete com a inteligência artificial na velocidade da resposta. Sua tarefa está em outro lugar. Se uma máquina pode produzir uma resposta em segundos, torna-se ainda mais importante perguntar se a resposta é verdadeira, quais pressupostos contém, que consequências produz, que informações ficaram de fora e se a pergunta inicial foi bem formulada.
A abundância de respostas torna a capacidade de formular boas perguntas ainda mais valiosa. Durante muito tempo, a escassez de informação constituiu um obstáculo ao conhecimento. Hoje enfrentamos uma situação diferente: informação em excesso, disponível instantaneamente e circulando em velocidade superior à nossa capacidade de examiná-la. O desafio consiste em distinguir informação de conhecimento, conhecimento de compreensão e compreensão de sabedoria.
É nesse intervalo que a filosofia reaparece. Ela não precisa disputar com a máquina a velocidade da resposta. Seu território está na reflexão sobre os critérios que tornam uma resposta aceitável, uma decisão justa, uma ação responsável ou uma vida digna. A máquina pode responder ao que perguntamos. A responsabilidade pela pergunta continua sendo nossa.
Essa distinção se torna decisiva diante da inteligência artificial. Podemos imaginar sistemas capazes de responder a praticamente todas as perguntas factuais que lhes apresentarmos. Ainda permanecerá uma pergunta que não desaparece com o aumento da capacidade computacional: o que devemos fazer com aquilo que sabemos?
É nesse pequeno verbo “dever” que a filosofia encontra uma de suas tarefas fundamentais.
A técnica pode ampliar os meios disponíveis. A filosofia examina os fins. Podemos construir sistemas cada vez mais eficientes para alcançar determinado objetivo e continuar sem saber se o objetivo merece ser alcançado, aumentar a productivity de uma sociedade sem aumentar sua justiça, prolongar a vida sem responder ao que torna uma vida digna, multiplicar os meios de comunicação sem aumentar a capacidade de compreensão entre as pessoas. Daqui a pouco, tudo aquilo que é útil e “serve” para algo será substituído pela tecnologia. O pensamento genuíno não.
A filosofia examina justamente aquilo que costuma permanecer escondido quando todos estão ocupados demais executando tarefas: os pressupostos que orientam nossas escolhas.
Filosofar é retirar certas ideias da paisagem e colocá-las diante dos olhos. O costume transforma pensamentos herdados em evidências e crenças seguras. A filosofia pergunta de onde vieram, quais pressupostos carregam, que consequências possuem e a quem interessam. Uma ideia repetida durante muito tempo pode adquirir a aparência de verdade simplesmente porque deixou de ser examinada.
Nesse sentido, filosofar é uma experiência de liberdade intelectual. O indivíduo que examina suas próprias razões percebe que muitos desejos foram aprendidos, muitas ambições foram socialmente produzidas e muitas certezas foram herdadas. Descobre que pode passar uma vida inteira perseguindo objetivos sem perguntar quem lhe ensinou a desejá-los.
Essa é a utilidade mais curiosa da filosofia: ela nos torna menos disponíveis para aquilo que pretende utilizar-nos sem nosso exame. Nos torna sujeitos em vez de objetos.
É nesse ponto que o estoicismo retorna ao argumento. Quando Epicteto pergunta o que depende de nós, oferece uma distinção capaz de reorganizar nossa relação com o mundo. Quando Sêneca pergunta como gastamos nosso tempo, coloca diante de nós a questão da vida que estamos efetivamente vivendo. Quando Marco Aurélio escreve sobre a transitoriedade da existência, devolve ao indivíduo a consciência da escala humana diante do tempo.
O estoicismo viralizou na internet porque encontrou uma sociedade saturada de estímulos, escolhas, informações e expectativas. A filosofia permanece porque nenhuma dessas coisas eliminou a necessidade de perguntar como devemos viver.
É possível que o século XXI seja lembrado por uma nova circulação pública da filosofia. O fenômeno já pode ser percebido na presença de escolas antigas nas redes sociais, nos podcasts, nos livros de divulgação, nos cursos de filosofia prática e nas conversas mediadas pela inteligência artificial. O estoicismo constitui uma das portas de entrada desse movimento. Depois de Epicteto, alguém pode encontrar Epicuro; depois de Sêneca, Nietzsche; depois de Marco Aurélio, Hannah Arendt, Simone Weil, Camus, Platão ou Aristóteles.
O importante está no movimento do pensamento. Uma escola filosófica pode abrir a porta, mas não precisa fechar a casa. A filosofia começa verdadeiramente quando uma pessoa deixa de repetir uma frase e começa a perguntar o que aquela frase significa para sua própria existência.
Ler Marco Aurélio é fácil. Incorporar uma ideia quando somos contrariados exige prática. Repetir memento mori é simples. Permitir que a consciência da morte modifique a maneira como usamos o tempo exige uma vida inteira. Compartilhar uma reflexão de Epicteto leva alguns segundos. Aprender a distinguir aquilo que depende de nós daquilo que não depende exige uma disciplina que não cabe numa publicação nas redes.
Se o século XXI marcar um retorno da filosofia à vida cotidiana, esse retorno estará relacionado à quantidade de frases filosóficas que circulam pelas redes, mas também à capacidade dessas ideias de modificar a relação que mantemos com a própria existência. A filosofia ocupará seu lugar quando deixar de ser apenas conteúdo e voltar a funcionar como exercício de pensamento.
É aqui que compreendo o sentido mais profundo de memento mori. A lembrança da morte oferece uma medida para a vida. Eu vou morrer. O leitor também. As plataformas permanecerão durante algum tempo, os aparelhos serão substituídos, as fotografias serão arquivadas, os servidores serão desligados e os nomes que hoje parecem indispensáveis serão esquecidos. A consciência dessa finitude não reduz o valor da existência; confere à experiência humana sua condição singular.
Sêneca sabia disso. Epicteto sabia disso. Marco Aurélio sabia disso. Nós também sabemos, embora passemos boa parte do tempo ocupados demais para pensar no assunto. O retorno da filosofia começa quando interrompemos essa distração e examinamos a maneira como estamos gastando o brevíssimo tempo que recebemos.
A filosofia não precisa servir para aumentar nossa produtividade, melhorar nossa imagem, ampliar nosso patrimônio ou produzir uma versão mais eficiente de nós mesmos. Sua grandeza está em outra tarefa: devolver ao pensamento a capacidade de perguntar pelos fins, examinar os valores e interromper a vida automática.
Depois de toda a tecnologia, de toda a informação, de todos os algoritmos, de todas as fotografias e de todas as tentativas de administrar o tempo, permanece uma pergunta antiga, pequena e terrível: quanto da vida que recebi estou realmente vivendo?
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista





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