0
 


Desde que o homem passou a medir a riqueza em números e a troca em contratos, algo escapou à conta. Há uma margem de custo e de benefício que nenhum balanço captura, nenhuma escritura registra, e que pesa sobre todos como uma dívida silenciosa. Os economistas a batizaram de externalidade — palavra fria, quase técnica, atrás da qual pulsa a questão mais dramática da vida em sociedade: o que fazer quando o preço que pagamos não conta toda a história? Quando a fumaça que sobe de uma chaminé não aparece na fatura de quem a produziu, mas adoece os pulmões de quem nem sequer a viu nascer?


Foi sobre essa margem que dois homens se debruçaram, em dois momentos do século XX: Arthur Cecil Pigou, professor de Cambridge, e Ronald Harry Coase, economista de Chicago. Não foram mestre e discípulo, mas suas obras dialogam como dois irmãos disputando a mesma herança — a de compreender como a economia pode, ou não, reconciliar-se com o mundo que a sustenta. Desse diálogo, atravessado por mais de um século, brotam as sementes de uma reescrita necessária: a de uma economia que reconheça não ser um mundo à parte, mas um subsistema frágil, dependente de um planeta finito.


A história, porém, não termina nos dois mestres. Entre seus sucessores erguem-se os polos de uma tensão que atravessa todo o debate contemporâneo: William Nordhaus, que procura integrar o mundo natural ao mercado por meio da precificação, e Nicholas Georgescu-Roegen, fundador da economia ecológica, para quem a economia deve submeter-se às leis físicas do planeta. Compreender essa tensão é compreender o estado da arte da economia ambiental — e a razão pela qual as intuições de Pigou e Coase, longe de superadas, continuam a organizar o pensamento sobre a crise climática, a descarbonização e os limites do crescimento.


Pigou e o sonho da correção


Arthur Cecil Pigou (1877–1959) sucedeu Alfred Marshall na cátedra de Economia Política de Cambridge e pertencia àquela geração de intelectuais que acreditavam no poder da razão para aperfeiçoar o mundo. Para ele, a economia não era apenas a ciência da escassez, mas a ciência do bem-estar: uma disciplina moral que deveria perguntar, antes de tudo, como produzir e distribuir riqueza de modo a aumentar a felicidade geral.


Em 1920, Pigou publicou The Economics of Welfare, obra que fundou, de uma só vez, a economia do bem-estar moderna. Nela desenvolveu o conceito de externalidade: a diferença entre o custo privado — o que o produtor efetivamente paga — e o custo social — o que a sociedade como um todo arca. Quando uma fábrica polui um rio, o custo privado da produção não inclui o dano aos pescadores, aos agricultores e às populações ribeirinhas; esse custo escapa ao mercado e recai sobre quem não participou da transação. A intuição era profundamente humanista: como o mercado não tem como “ver” esses custos, não tem como corrigi-los. Daí a ideia do imposto sobre a atividade que gera a externalidade negativa, no valor do dano marginal — o que a história consagrou como imposto pigouviano e que hoje conhecemos como tributação ecológica, princípio do poluidor-pagador e precificação do carbono.


A solução carregava uma fé na capacidade do Estado de agir em nome do bem comum. O poluidor não seria proibido de poluir — seria incentivado a poluir menos, porque cada unidade adicional de dano teria um preço. Escrevia-se numa época em que a poluição industrial era vista como preço inevitável do progresso; a ideia de que o ar e a água são bens comuns que merecem proteção — e de que o bem-estar geral, e não apenas a produção, deveria ser o objetivo da política econômica — era, para o seu tempo, uma heresia luminosa. Pigou foi um visionário: alguém que enxergou, antes dos demais, uma verdade que o mundo ainda não estava pronto para aceitar.


Mas havia um pressuposto enorme: que o Estado saberia calcular com precisão o valor do dano e agiria com imparcialidade e eficiência na aplicação do tributo. Em suma, que a correção viria de cima, de uma autoridade esclarecida que conhece o bem comum e sabe como alcançá-lo. Essa confiança seria precisamente o alvo da crítica mais devastadora que a economia ambiental já recebeu: a de Ronald Coase.


Coase e a descoberta do acordo


Ronald Coase (1910–2013) recebeu o Nobel em 1991 e atravessou meio século de influência após o artigo que o tornaria conhecido. Em 1960, publicou The Problem of Social Cost, um dos textos mais influentes — e mais mal interpretados — da história do pensamento econômico. Sua tese era, à primeira vista, desconcertante: na ausência de custos de transação, se as partes pudessem negociar livremente, a alocação eficiente dos recursos ocorreria independentemente de quem detivesse os direitos de propriedade. Se a fábrica e os pescadores pudessem conversar sem custo, chegariam a um acordo ótimo por conta própria: a fábrica compensando os pescadores, ou os pescadores pagando à fábrica para poluir menos. O Estado não precisaria intervir; bastaria que os direitos de propriedade estivessem claramente definidos.


A proposição, consagrada como Teorema de Coase, foi frequentemente lida como defesa radical do laissez-faire. A leitura é, no mínimo, incompleta. O próprio Coase jamais acreditou que os custos de transação fossem zero — muito pelo contrário. Sua verdadeira contribuição foi mostrar que esses custos existem, que são centrais, e que a escolha entre regulação, imposto e negociação privada deveria ser uma questão empírica e institucional, decidida caso a caso, e não uma questão de fé ideológica. A pergunta que colocou não era “Estado ou mercado?”, mas “qual arranjo institucional, em cada situação concreta, produz o melhor resultado?”.


Compreendeu ainda que os problemas sociais raramente têm soluções perfeitas: toda solução gera novos problemas, toda escolha envolve trade-offs, e a tarefa do pensamento crítico é comparar alternativas imperfeitas, não perseguir utopias. Essa humildade epistemológica é talvez seu legado mais profundo: ensinou que a economia não é uma ciência de leis universais, mas de arranjos concretos, sensíveis ao contexto e à história. Sua intuição se revela extraordinariamente fecunda no nosso tempo: os mercados de carbono, os sistemas de cap-and-trade e os mecanismos de compensação por serviços ecossistêmicos são, em certo sentido, filhos espirituais de Coase.


Há, porém, uma limitação que o próprio autor reconheceria. O teorema pressupõe que os direitos de propriedade possam ser claramente definidos — e, no caso do meio ambiente, essa condição é profundamente problemática. A quem pertence o ar? A quem pertence o clima? A quem pertence a biodiversidade? Bens comuns globais desafiam a própria noção de propriedade, e os custos de transação para negociar sua alocação entre bilhões de seres humanos são, na prática, proibitivos. Coase nos deu as ferramentas para pensar esses problemas, mas não as respostas.


O diálogo dos contrários


Pigou e Coase costumam ser apresentados como rivais — o campeão do Estado contra o campeão do mercado. A dicotomia é confortável, mas enganosa. A diferença entre eles não era de objetivo, e sim de método e de fé: Pigou confiava na capacidade do Estado de calcular e corrigir; Coase, na capacidade das partes de negociar e chegar a um acordo. Ambos reconheciam que o mercado, deixado a si mesmo, falha diante das externalidades; ambos buscavam corrigir essa falha; ambos acreditavam que a economia deveria servir ao bem-estar humano, e não o contrário.


A economia ambiental contemporânea abandonou a ideia de que são rivais excludentes. Em vez de “Estado ou mercado”, a análise moderna combina as duas abordagens conforme o contexto. O mercado de carbono europeu é uma síntese eloquente: o teto de emissões é uma decisão política, inspirada na lógica pigouviana de fixar o nível socialmente desejável; a negociação de permissões entre empresas é a lógica coaseana, em que o mercado encontra o preço do carbono de forma descentralizada.


Essa síntese, porém, é apenas o começo. O desafio que se coloca hoje não é combinar as ferramentas de Pigou e Coase, mas reconhecer que ambas, em sua forma original, partilham uma premissa que o nosso tempo já não pode aceitar sem reservas: a de que o meio ambiente é um recurso a ser precificado, um insumo a ser alocado, um custo a ser internalizado. É exatamente isso que os novos pensadores — da economia ambiental e, mais radicalmente, da economia ecológica — vêm questionar.


Nordhaus e a natureza precificada


William Nordhaus, Nobel de 2018, é o representante por excelência da corrente tradicional no debate climático. Sua obra, desenvolvida ao longo de mais de quatro décadas, parte de uma premissa clara: a mudança climática é um problema econômico e, como tal, deve ser enfrentada com as ferramentas da economia — custo-benefício, precificação e instrumentos de mercado. Nordhaus criou os modelos integrados de clima e economia que permitem calcular o custo social do carbono e o nível ótimo de redução de emissões, articulando num mesmo arcabouço matemático a dinâmica do clima e a dinâmica da produção. Em seu livro The Climate Casino, publicado em 2013, descreve a mudança climática como uma aposta de proporções civilizacionais, em que a humanidade joga dados com o próprio futuro, e cujo risco pode ser mitigado pela precificação correta.


As críticas são conhecidas. A mais contundente, formulada pelo economista Martin Weitzman em artigo de 2009, aponta que os modelos de custo-benefício dependem de estimativas da cauda da distribuição — e que, sob incerteza radical, a probabilidade de cenários catastróficos não diminui de forma controlável, qualquer que seja o preço do carbono. Há ainda as objeções mais familiares: a taxa de desconto empregada por Nordhaus subestima os danos futuros, favorecendo a inação presente; o mundo natural é tratado como conjunto de serviços precificáveis; e os instrumentos de mercado talvez não alcancem a escala e a velocidade de transformação que a crise exige. Essas críticas ecoam a objeção mais profunda formulada por Georgescu-Roegen — e a tensão entre os dois é, talvez, a mais reveladora de todo o debate ambiental contemporâneo.


Georgescu-Roegen, Odum e a flecha do tempo


Nicholas Georgescu-Roegen, matemático e economista romeno radicado nos Estados Unidos, é o fundador da economia ecológica. Sua obra magna, The Entropy Law and the Economic Process, publicada em 1971, reformula a economia a partir da termodinâmica, com uma tese desconcertante em sua simplicidade: o processo econômico é um processo entrópico. A economia transforma matéria e energia de baixa entropia — recursos concentrados e utilizáveis — em matéria e energia de alta entropia — resíduos dispersos e inutilizáveis. Essa transformação é irreversível: os recursos de baixa entropia, uma vez dissipados, não podem ser reconstituídos.


A constatação tem implicações devastadoras para a ortodoxia. Se o processo econômico é entrópico, o crescimento material infinito é uma impossibilidade física, não apenas uma escolha política. Georgescu-Roegen não nega a importância dos instrumentos econômicos; situa-os num quadro mais amplo. A precificação do carbono, o imposto pigouviano, os mercados de permissões — tudo isso é útil, mas insuficiente, porque trata os sintomas de um problema mais profundo: a economia, em sua própria estrutura, dissipa recursos. A verdadeira tarefa não é “internalizar” custos ambientais, mas reorientar a economia para respeitar os limites biofísicos do planeta.


Foi o ecólogo Howard T. Odum quem deu a essa intuição uma unidade de medida. Em Environmental Accounting, publicado em 1996, desenvolveu o conceito de eMergia — a energia incorporada, a “memória energética”: a quantidade de energia disponível, direta e indiretamente necessária para produzir um bem ou serviço. Medida em emjoules, a eMergia permite contabilizar o trabalho que o mundo natural realiza para gerar um recurso — o sol que evaporou a água, o solo que formou o minério, os ecossistemas que sustentam a vida — em termos termodinâmicos, e não monetários. Sua contribuição é dupla: oferece uma linguagem comum para comparar coisas que o mercado não precifica (quanto vale, em energia incorporada, uma floresta em pé versus uma floresta derrubada?) e mostra que o dinheiro é apenas um fluxo secundário que circula sobre um fluxo primário de energia — a verdadeira moeda da natureza. Odum completa Georgescu-Roegen: se este provou que o processo econômico é entrópico, aquele mostrou como medir a entropia do que o mundo nos dá.


Sustentabilidade fraca e sustentabilidade forte


A crítica à precificação ganhou corpo a partir dos anos 1970. Em 1972, o relatório do Clube de Roma, The Limits to Growth, alertou, com modelos então inéditos, para a insustentabilidade de um crescimento exponencial sobre recursos finitos — um alerta que o mundo, em grande medida, preferiu não ouvir. No interior dessa mesma tensão, a economia ambiental e ecológica forjou, na década de 1990, um vocabulário que organiza o debate até hoje: a distinção entre sustentabilidade fraca e sustentabilidade forte.


O conceito de sustentabilidade fraca, ancorado nos estudos de Robert Solow e John Hartwick sobre a alocação intergeracional de recursos, foi consolidado na década de 1990 por economistas como David Pearce e Giles Atkinson. Sua tese: o capital natural pode ser substituído pelo capital manufaturado, e o que importa é preservar o estoque total de capital — a soma dos dois — e não cada um em separado. Se um investimento compensar o recurso natural destruído, o desenvolvimento permanece sustentável: o que se perde em floresta pode ser ganho em conhecimento, em máquina, em capital financeiro. É a visão de Nordhaus levada à conclusão — o mundo natural como insumo trocável. A defesa da sustentabilidade forte tem em Herman Daly, discípulo de Georgescu-Roegen, seu formulador mais rigoroso; em Beyond Growth, de 1996, argumenta que certos recursos naturais são críticos e não substituíveis — o clima, a biodiversidade, a água, o solo fértil — e que nenhuma tecnologia pode repô-los. O que importa é preservar o estoque físico de capital natural, não apenas seu valor monetário.


A distinção é a formalização acadêmica do confronto que percorre este ensaio: até que ponto a tecnologia pode substituir o que a natureza oferece? Solow e Hartwick responderam “até onde o capital total se mantiver”; Georgescu-Roegen e Daly, “até o limite físico do planeta”. Não se pode afirmar que a história já deu o veredito — mas a lógica cumulativa da crise climática e da perda acelerada de biodiversidade tem sido menos generosa com a primeira resposta.


Daly e o estado estacionário


Daly, ex-economista do Banco Mundial, traduziu as intuições do mestre em uma construção concreta: a economia de estado estacionário — um equilíbrio dinâmico com população e estoque de capital estáveis, fluxos materiais reduzidos ao mínimo compatível com o bem-estar e prioridade à qualidade de vida sobre a quantidade de produção. A formulação ganhou corpo em Steady-State Economics, de 1977, e foi aprofundada em Beyond Growth, de 1996. Não é uma apologia da estagnação, mas uma redefinição do progresso: não crescer em quantidade, desenvolver-se em qualidade, dentro dos limites biofísicos. Contribuiu ainda com o conceito de crescimento antieconômico: a partir de certo ponto, o crescimento adicional custa mais do que beneficia, porque os custos ambientais e sociais superam os ganhos de produção. Há um momento em que produzir mais deixa de ser meio para o bem-estar e vira fim em si mesmo — um fim que devora as próprias condições que o tornam possível.


Ostrom e a governança dos bens comuns


Elinor Ostrom, Nobel de 2009, ocupa um lugar singular nesse debate. Em Governing the Commons, publicado em 1990, demonstrou, com rigor empírico, que a famosa “tragédia dos comuns” de Garrett Hardin — a tese, apresentada em seu artigo de 1968 na revista Science, de que os recursos compartilhados tendem a ser esgotados pelo uso individual racional — não é uma fatalidade, mas uma questão de desenho institucional. Ostrom estudou comunidades ao redor do mundo — pescadores, irrigadores, pastores — que, sem intervenção estatal e sem privatização, geriram recursos comuns de forma sustentável por séculos: os sistemas de irrigação das montanhas espanholas e japonesas, as áreas de pesca costeira do Maine e da Turquia, os pastos comuns dos Alpes suíços. Em cada caso, regras de uso, mecanismos de monitoramento, sanções graduais e arranjos de resolução de conflitos impediram o esgotamento do recurso.


A lição: a solução dos problemas ambientais não se reduz à dicotomia “Estado ou mercado”. Há um terceiro caminho, o da governança comunitária — e, com ele, a resposta empírica à pergunta que Coase deixou em aberto: quando os custos de transação são altos e os direitos de propriedade ambíguos, quem pode negociar o bem comum? As próprias comunidades, quando dotadas de instituições adequadas. E esse é um lembrete de que os seres humanos, longe de serem apenas os egoístas racionais do modelo econômico padrão, são capazes de cooperar e de criar regras justas.


A economia circular e o TEEB: desenhar e valorar


Existe, porém, uma terceira via que escapa à dicotomia entre precificar e limitar: a economia circular, popularizada pela Fundação Ellen MacArthur, cujo relatório inaugural Towards the Circular Economy saiu em 2012. Se Pigou perguntava como corrigir o dano e Georgescu-Roegen como respeitar o limite, a economia circular pergunta como desenhar um sistema que não produza o dano em primeiro lugar. O modelo linear — extrair, produzir, consumir, descartar — é a materialização da externalidade: o resíduo é o custo que o sistema empurra para fora de si, para o ar, a água e o solo. A circularidade propõe romper esse fluxo: eliminar resíduo e poluição na origem, manter produtos e materiais em uso, regenerar os sistemas naturais. É a herança prática de Michael Braungart e William McDonough, autores de Cradle to Cradle, de 2002, para quem “resíduo é alimento”: todo material deve retornar ao ciclo biológico ou ao ciclo técnico, sem perda de valor.


Mas a circularidade tem uma tensão interna que seus defensores nem sempre reconhecem: um sistema pode ser perfeitamente circular e ainda assim expandir seu fluxo material total, se a demanda continuar a crescer. É condição necessária, não suficiente, para a sustentabilidade — e precisa ser complementada pela contenção da escala, na linha de Daly e Latouche.


Na outra ponta do espectro institucional ergue-se o TEEB — The Economics of Ecosystems and Biodiversity —, programa global de valoração lançado em 2007 no âmbito do G8+5 e sediado no PNUMA, nascido de uma constatação que Pigou teria reconhecido como sua: a perda de biodiversidade tem um custo econômico real, invisível porque o mercado não o registra. Suas conclusões foram consolidadas em 2010 no volume The Economics of Ecosystems and Biodiversity: Ecological and Economic Foundations. Se Pigou propôs internalizar o custo da poluição, o TEEB propõe internalizar o valor do mundo natural: o preço da polinização, da regulação do clima, da purificação da água. Onde Odum fala em emjoules, o TEEB fala em dólares — duas linguagens para o mesmo reconhecimento: a economia de mercado opera sobre uma economia da natureza que não pode ser dada como garantida.


A ambiguidade do TEEB é reveladora: dar visibilidade econômica ao mundo natural implica reduzir seu valor à cifra — a mesma objeção que a economia ecológica faz a Nordhaus. Como se mede, em dinheiro, o valor de uma espécie que nunca será vista por ninguém? O TEEB não resolve essas perguntas; ele as coloca, e ao colocá-las mostra que o debate entre precificar e limitar se materializa em programas globais reais. A valoração é uma ferramenta poderosa — mas é também uma escolha, e toda escolha deixa algo de fora.


Os novos pensadores


A partir dos anos 2000, uma nova geração renovou o debate. Kate Raworth propôs, em Doughnut Economics, publicado em 2017, um dos quadros mais influentes da atualidade: o modelo do “donut”, que combina a base social — as necessidades humanas básicas, abaixo das quais ninguém deve ficar — com o teto ecológico — as fronteiras planetárias, como clima, biodiversidade, oceanos e solo, que a humanidade não deve ultrapassar. Entre o piso e o teto está o “espaço seguro e justo para a humanidade”. A economia donut não rejeita Pigou e Coase: integra-os num quadro mais amplo, que reconhece que a economia deve operar dentro de limites ecológicos e sociais, e não apenas corrigir falhas de mercado.


Serge Latouche, no Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno, de 2009, levou a crítica ainda mais longe com o conceito de decrescimento: não basta tornar o crescimento “verde” ou corrigir externalidades; é preciso questionar o próprio paradigma do crescimento infinito. Propõe uma sociedade da sobriedade — redução de consumo, relocalização da economia, redefinição do bem-estar — não como apologia da miséria, mas como convite a repensar a relação entre economia, natureza e felicidade.


E há os continuadores da tradição pigouviana em escala global: Nicholas Stern, cujo relatório, entregue ao governo britânico em 2006 e publicado em livro no ano seguinte como The Economics of Climate Change: The Stern Review, alertou para os custos econômicos catastróficos da inação climática, e o próprio Nordhaus. A precificação do carbono — o imposto pigouviano do século XXI — continua central, agora aplicada a um problema global, intergeracional e irreversível que a teoria original não poderia ter previsto.


Conclusão: a economia como subsistema do planeta


Pigou percebeu que o mercado não vê os custos sociais; Coase, que os arranjos institucionais importam; Nordhaus, que a precificação pode ganhar escala planetária. Mas nenhum deles percebeu plenamente que a economia, em sua totalidade, está contida num sistema biofísico que impõe limites absolutos. Essa percepção — que Georgescu-Roegen formulou com rigor, Odum traduziu em medida, o TEEB em cifras, e Daly, Ostrom e Raworth popularizaram — é a chave para a reescrita necessária da economia. Se a economia é um subsistema do planeta, o objetivo não pode ser maximizar o crescimento, mas otimizar o bem-estar dentro dos limites ecológicos; se os recursos são finitos, a distribuição importa tanto quanto a produção; se os danos são irreversíveis, a prudência e a precaução devem guiar a ação; e se os bens comuns não podem ser precificados, a lógica do mercado deve ser complementada pela da comunidade e pela da solidariedade intergeracional.


Reinterpretada à luz dessas premissas, a obra de Pigou e Coase revela sua verdadeira grandeza — não como dogma, mas como semente. Pigou ensinou que é preciso uma instância que veja o bem comum; Coase, que as instituições importam e precisam ser desenhadas com cuidado; Nordhaus, que os instrumentos econômicos podem ganhar escala global; Georgescu-Roegen e Odum, que o bem comum é um fundamento a preservar; Daly, que o crescimento tem um ponto de saturação; a economia circular, que o resíduo é um erro de desenho; e Ostrom, que as comunidades sabem cuidar do que é comum quando dotadas de instituições justas.


O que o nosso tempo acrescenta a esse sonho coletivo é a consciência do limite. A economia que precisa ser reescrita é uma economia que reconhece que há coisas que não têm preço, que há limites que não podem ser ultrapassados e que há dívidas que não podem ser pagas — porque são dívidas com o futuro, com o planeta, com a própria possibilidade da vida. As perguntas que Pigou e Coase despertaram — o que fazer quando o preço não conta toda a história? como desenhar arranjos que permitam negociar o bem comum? e, acrescentam os novos pensadores, como viver dentro dos limites do planeta, em um espaço socialmente justo? — atravessam um século de história e continuam a nos interrogar. É respondendo a elas, com criatividade, coragem e humildade, que a economia se torna digna do mundo que a sustenta.


Referências


BRAUNGART, M.; MCDONOUGH, W. Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things. New York: North Point Press, 2002.


COASE, R. H. The Problem of Social Cost. Journal of Law and Economics, Chicago, v. 3, p. 1-44, out. 1960.


DALY, H. E. Steady-State Economics: The Economics of Biophysical Equilibrium and Moral Growth. San Francisco: W. H. Freeman, 1977.


DALY, H. E. Beyond Growth: The Economics of Sustainable Development. Boston: Beacon Press, 1996.


ELLEN MACARTHUR FOUNDATION. Towards the Circular Economy: Economic and Business Rationale for an Accelerated Transition. Cowes: Ellen MacArthur Foundation, 2012.


GEORGESCU-ROEGEN, N. The Entropy Law and the Economic Process. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971.


HARDIN, G. The Tragedy of the Commons. Science, Washington, v. 162, n. 3859, p. 1243-1248, dez. 1968.


HARTWICK, J. M. Intergenerational equity and the investing of rents from exhaustible resources. The American Economic Review, Nashville, v. 67, n. 5, p. 972-974, 1977.


LATOUCHE, S. Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.


MEADOWS, D. H.; MEADOWS, D. L.; RANDERS, J.; BEHRENS, W. W. The Limits to Growth: A Report for the Club of Rome’s Project on the Predicament of Mankind. New York: Universe Books, 1972.


NORDHAUS, W. D. A Question of Balance: Weighing the Options on Global Warming Policies. New Haven: Yale University Press, 2008.


NORDHAUS, W. D. The Climate Casino: Risk, Uncertainty, and Economics for a Warming World. New Haven: Yale University Press, 2013.


ODUM, H. T. Environmental Accounting: Emergy and Environmental Decision Making. New York: John Wiley & Sons, 1996.


OSTROM, E. Governing the Commons: The Evolution of Institutions for Collective Action. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.


PEARCE, D. W.; ATKINSON, G. D. Capital theory and the measurement of sustainable development: an indicator of “weak” sustainability. Ecological Economics, Amsterdam, v. 8, n. 2, p. 103-108, 1993.


PIGOU, A. C. The Economics of Welfare. London: Macmillan, 1920.


RAWORTH, K. Doughnut Economics: Seven Ways to Think Like a 21st-Century Economist. London: Random House, 2017.


SOLOW, R. M. On the intergenerational allocation of natural resources. The Scandinavian Journal of Economics, Stockholm, v. 88, n. 1, p. 141-149, 1986.


STERN, N. The Economics of Climate Change: The Stern Review. Cambridge: Cambridge University Press, 2007.


TEEB. The Economics of Ecosystems and Biodiversity: Ecological and Economic Foundations. London: Earthscan, 2010.


WEITZMAN, M. L. On Modeling and Interpreting the Economics of Catastrophic Climate Change. The Review of Economics and Statistics, Cambridge, MA, v. 91, n. 1, p. 1-19, 2009.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

João Francisco Lobato
João Francisco de Oliveira Lobato é engenheiro civil (UFPA) e administrador de empresas (Mackenzie), MBA-E (FEA-USP), mestre em Sustentabilidade (FGV), doutorando em Sustentabilidade (Unifesp). Tem experiência profissional como executivo, conselheiro e consultor junto ao setor privado nas áreas de: Estratégia, ESG - Sustentabilidade, Planejamento Empresarial, Governança e Ética, Inovação, P&D e Gestão de Conhecimento. Junto à área pública e sociedade civil: Inovação Social, Redes e Democracia, Empreendedorismo Social, Ecologia e Inclusão Produtiva. Foi executivo e C-level por 16 anos no grupo Coimbra Lobato, gestor do programa Cidadão do Presente (Governo SP), superintendente da Fundação Stickel e diretor no Instituto Jatobas. É membro de: Uma Concertação pela Amazonia, Observatório do Clima e Pacto pela Democracia, diretor de Sustentabilidade do Instituto Physis e VP do Instituto JUS. Atualmente, sócio-diretor da JFOL Capacitação e Treinamento, consultor sênior da FIA - Fundação Instituto de Administração e diretor de Sustentabilidade da QCP Consultoria e Projetos.

    Arte, Política, Amizade e divergências na Literatura Brasileira

    Previous article

    Projeto de lei veda custeio de hospedagem de luxo pelo erário

    Next article

    You may also like

    Comments