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Esta semana houve um eclipse lunar, um daqueles acontecimentos astronômicos que possuem uma solenidade própria. O eclipse da Lua, à semelhança do eclipse solar, pertence a essa categoria de acontecimentos. Durante algumas horas, o céu modifica sua aparência e nos lembra de que habitamos uma pequena superfície de matéria submetida a forças que existiam muito antes de nós e continuarão existindo quando já não houver nenhum vestígio humano para contemplá-las.

Hoje, os eclipses podem ser previstos com extraordinária precisão, descritos pela mecânica celeste e compreendidos pela geometria dos movimentos entre Sol, Terra e Lua. Sabemos quando a sombra começará a tocar o disco lunar, quanto tempo permanecerá sobre ele e em que momento desaparecerá. Tudo parece pertencer ao domínio da razão calculável. Entretanto, quando a sombra começa a avançar lentamente sobre a Lua, alguma coisa misteriosa em nós se entrega ao assombro. O conhecimento humano explica o fenômeno, mas não consegue dissolver a experiência estética de contemplá-lo.

Desde que os primeiros seres humanos levantaram os olhos para o firmamento, os céus receberam nossos deuses, nossos presságios, nossos medos e nossas perguntas. As estrelas foram mapas, divindades, sinais e destinos. A Lua acompanhou calendários, rituais e histórias. Os eclipses, ao interromperem a regularidade aparente do céu, despertaram temor em quem procurava compreender a linguagem dos astros. O firmamento sempre foi uma espécie de arquivo primordial da imaginação humana, lugar onde crença, poesia, assombro e ignorância encontraram morada comum.

A ciência modificou profundamente essa relação. Sabemos que um eclipse lunar ocorre quando Sol, Terra e Lua se alinham de modo que a Terra projeta sua sombra sobre a Lua durante a dança dos astros. Conhecemos as órbitas, calculamos os períodos, determinamos a geometria e prevemos o instante em que a sombra tocará sua superfície. A precisão desses cálculos é uma das grandes realizações intelectuais da humanidade. Ainda assim, a explicação científica não elimina a experiência do fenômeno. Saber como a Lua entra na sombra não nos impede de permanecer diante dela, contemplando alguma coisa maior do que a própria explicação.

Nessas noites, consigo esquecer um pouco os livros de física teórica e imaginar a Lua mergulhando lentamente na escuridão enquanto, em algum lugar, alguém toca Passacaglia. A música desenvolve um motivo que retorna, se transforma, reaparece sob novas formas e constrói, pouco a pouco, uma arquitetura sonora. O céu escreve seus próprios ritmos, suas recorrências e suas proporções. Os corpos celestes percorrem trajetórias determinadas por leis matemáticas; a música transforma relações matemáticas em experiência sensível. Em ambos os casos, a ordem manifesta-se através do movimento. Foi nesse cruzamento entre música, céu e mistério que me lembrei de um velho poema de William Blake.

Há algumas décadas, encontrei em Hiperespaço, obra escrita por Michio Kaku, cientista que possui uma habilidade singular para explicar coisas complexas de forma simples, uma interpretação que me impressionou particularmente: a leitura do poema O Tigre à luz da antiga ambição da física de encontrar uma unidade profunda por trás da diversidade das forças da natureza, o Santo Graal dos físicos. Blake escreveu o poema em 1794, muito antes da física de partículas, da relatividade e da mecânica quântica. Sua linguagem pertence à poesia, à teologia, à imaginação e à tradição simbólica.

O Dr. Michio Kaku pertence ao universo da física teórica e da busca contemporânea por estruturas capazes de explicar, de maneira unificada, a multiplicidade dos fenômenos naturais. Entre ele e Blake existe um intervalo de quase dois séculos e uma diferença radical de linguagem, mas há uma pergunta que permite aproximá-los.

Blake contempla uma criatura cuja forma reúne força, beleza e ferocidade e pergunta pela inteligência capaz de produzi-la. A física investiga um universo composto por partículas, campos e interações e procura compreender se essa multiplicidade pode possuir uma origem estrutural comum. O poema começa com uma das imagens mais poderosas da literatura inglesa:

“Tigre, tigre que flamejas

Nas florestas da noite.

Que mão que olho imortal

Se atreveu a plasmar tua terrível simetria?”

O tigre é uma chama viva ardendo dentro da noite. Blake contempla sua existência e dirige a pergunta àquilo que estaria por trás de sua forma. A palavra mágica é “simetria”. A criatura possui uma organização que impressiona o olhar e produz uma sensação de ordem, e Blake transforma essa percepção em poesia, em uma questão metafísica.

A simetria ocupa também um lugar central na física moderna. Ela participa da formulação das leis fundamentais e da descrição das relações entre partículas e campos. As teorias contemporâneas procuram estruturas matemáticas capazes de explicar uma grande variedade de fenômenos a partir de princípios gerais, enquanto a natureza apresenta regularidades que podem ser expressas por relações matemáticas de extraordinária precisão.

É nesse ponto que a pergunta de Blake adquire uma dimensão inesperada: que mão ou olho imortal poderia criar tua terrível simetria? O poeta procura a inteligência por trás da forma; o físico investiga a estrutura por trás dos fenômenos. Cada um utiliza uma linguagem própria para aproximar-se da mente do cosmos.

A física contemporânea descreve quatro interações fundamentais: gravidade, eletromagnetismo, interação nuclear forte e interação nuclear fraca. A gravidade organiza estruturas em escala cósmica. O eletromagnetismo está presente na luz, na eletricidade e em inúmeras propriedades da matéria. A interação forte mantém unidos os quarks e participa da estabilidade dos núcleos atômicos. A interação fraca está envolvida em transformações fundamentais entre partículas.

Durante o século XX, a física revelou relações profundas entre fenômenos que anteriormente eram estudados separadamente. Eletricidade e magnetismo foram reunidos no eletromagnetismo e, mais tarde, as interações eletromagnética e fraca passaram a integrar a teoria eletrofraca. Essas unificações alimentaram uma ambição ainda maior: compreender se as forças fundamentais podem ser manifestações diferentes de uma estrutura mais profunda. O mistério do mundo quântico e do mundo cosmológico, estranhos um ao outro em muitos aspectos, persiste e inquieta.

Essa é uma das grandes perguntas da física contemporânea: existe uma descrição mais fundamental da natureza capaz de revelar unidade por trás da diversidade das forças conhecidas? As teorias de unificação expressam essa aspiração de encontrar uma estrutura comum para diferentes interações da matéria.

A chamada Teoria de Tudo leva a ambição ainda mais longe, procurando uma descrição fundamental que inclua também a gravidade em uma estrutura quântica consistente. A diferença entre as duas expressões é importante, mas ambas pertencem à mesma história intelectual: a tentativa de descobrir se a multiplicidade aparente do universo repousa sobre uma ordem mais profunda. Foi nesse território que a leitura do Dr. Michio Kaku encontrou abrigo na poesia de Blake.

O tigre é uma imagem da realidade visível. Sua forma manifesta uma ordem que desperta a pergunta sobre sua origem. A “terrível simetria” torna-se, poeticamente, uma metáfora para uma estrutura profunda que permanece escondida sob a aparência das coisas, e Blake conduz o leitor para dentro de uma oficina cósmica:

Que martelo te forjou ? Que cadeia ?

Que bigorna te bateu ? Que poderosa mordaça

Pôde conter teus pavorosos terrores ?

O criador aparece sob a imagem de um ferreiro. A criatura parece ter sido forjada em uma oficina submetida a forças imensas. Martelo, corrente, fornalha e bigorna transformam uma pergunta metafísica em matéria, fogo e metal. Como se constrói um cenário capaz de produzir tamanha energia, precisão e complexidade?

A imagem da fornalha possui uma beleza particular quando pensamos na cosmologia. O universo primordial apresentou temperaturas e densidades extremas. As condições físicas dos primeiros instantes da história cósmica pertencem a uma escala de energia que desafia nossa mais fértil imaginação. A física de altas energias procura reconstruir teoricamente essas condições e compreender como as estruturas fundamentais da natureza se comportavam naquele universo inicial. A fornalha de Blake encontra, por uma espécie de coincidência poética, um equivalente simbólico nos grandes aceleradores de partículas.

Nos túneis do CERN, na Suíça, partículas são aceleradas a energias extraordinárias e colocadas em condições que permitem investigar a estrutura íntima da matéria. Não se trata, evidentemente, da fornalha de Blake transformada literalmente em laboratório, mas de uma aproximação simbólica: o poeta imaginou a criação acontecendo em uma oficina de forças extremas; a física moderna construiu instrumentos capazes de sondar a matéria em condições igualmente extraordinárias.

O poema então alcança seu momento mais perturbador:

Quando os astros lançaram os seus dardos,

E regaram de lágrimas os céus,

Sorriu Ele ao ver sua criação ?

Quem deu vida ao cordeiro também te criou ?

As estrelas entram no poema e o universo deixa de ser apenas cenário para participar da própria pergunta. Blake imagina a criação diante do olhar de seu criador. O Tigre e o Cordeiro pertencem à mesma ordem da existência, enquanto a delicadeza e a ferocidade encontram lugar na mesma criação.

A pergunta traz uma dimensão teológica evidente, mas também pode ser lida como uma interrogação filosófica sobre a unidade da realidade: que espécie de ordem torna possível a existência de formas tão diferentes? Qual princípio torna possível que partículas, átomos, estrelas, organismos e consciência pertençam ao mesmo universo?

A física responde a parte dessas perguntas com leis, modelos matemáticos, observações e experimentos. A poesia preserva outra dimensão da pergunta. Ela não procura substituir uma equação por uma metáfora, nem transformar um poema em uma antecipação da física moderna. Sua força está em outra parte. Blake formula, por meio da imagem, uma inquietação que a ciência também conhece: a sensação de que a diversidade do mundo pode esconder uma ordem ainda mais profunda e desconhecida.

A ciência transforma a pergunta em hipótese, cálculo, experimento e teoria. A poesia converte a mesma inquietação em imagem, ritmo e linguagem. São territórios diferentes do conhecimento, com métodos e critérios distintos, mas podem nascer de uma experiência humana semelhante: contemplar alguma coisa e perceber que sua existência exige uma pergunta. É por isso que o eclipse me devolve ao poema de Blake.

“E quando teu coração começou a bater,

Que mão, que espantosos pés

Puderam arrancar-te da profunda caverna,

Para trazer-te aqui ?

A Lua entra na sombra da Terra obedecendo a uma geometria que conhecemos. A sombra avança sobre sua superfície, modifica sua aparência e depois desaparece. O fenômeno segue uma ordem que pode ser calculada com precisão, e essa previsibilidade constitui uma das manifestações mais impressionantes da inteligibilidade do universo. Conhecemos o mecanismo do eclipse, mas continuamos olhando para o céu com a mesma ternura e espanto dos nossos antepassados nas savanas africanas.

A matemática revela uma estrutura que os olhos sozinhos não conseguem perceber. Um eclipse observado através do conhecimento científico deixa de ser apenas uma bela ocorrência celeste e passa a condensar uma longa história da inteligência humana: a compreensão da gravidade, das órbitas, da luz, da formação do sistema solar e da capacidade de construir modelos capazes de descrever movimentos que acontecem a milhões de quilômetros de nós.

A Lua torna-se uma espécie de relógio cósmico e, enquanto atravessa a sombra, a antiga pergunta reaparece: que ordem sustenta o universo, que leis produzem sua extraordinária regularidade? E permanece a questão: existe uma estrutura ainda mais profunda sob as forças que conhecemos?

A busca por uma unificação fundamental permanece na fronteira da física teórica. A gravidade continua apresentando dificuldades para ser incorporada de maneira completa à estrutura quântica. As teorias existentes descrevem diferentes aspectos da natureza com enorme sucesso, mas ainda não possuímos um modelo único e completo que reúna todas as interações fundamentais em uma estrutura coerente.

A história da ciência possui algo de vertiginoso e cruel: compreender significa também descobrir a extensão daquilo que ainda precisa ser compreendido. Cada resposta modifica a dimensão da pergunta, e a expansão da inteligência amplia o conteúdo do que ignoramos. Cada teoria ilumina uma região da realidade e, ao fazê-lo, revela outras regiões ainda mergulhadas em profunda sombra, como ocorre com os enigmas da matéria escura e da energia escura.

“Em que longínquo abismo, em que remotos céus

Ardeu o fogo de teus olhos ?

Sobre que asas se atreveu a ascender ?

Que mão teve a ousadia de capturá-lo ?

Que espada, que astúcia foi capaz de urdir

As fibras do teu coração ?”

O Tigre de Blake permanece tão vivo. Ele continua ardendo na floresta da noite porque representa uma pergunta que atravessa séculos. O que existe por trás da forma? Que princípio sustenta a ordem? De onde vem a arquitetura que permite ao universo ser inteligível? O Dr. Michio Kaku encontra na física moderna uma versão científica dessa antiga inquietação para a qual Blake ofereceu uma imagem.

A física procura as estruturas, as simetrias, os campos e as equações; Blake pergunta pela mão que os teria forjado. Entre essas duas linguagens permanece um espaço que nenhuma delas consegue preencher inteiramente, e é nesse espaço que o mistério conserva sua força.

A música procura uma ordem audível, a poesia procura uma ordem verbal, a matemática procura uma ordem abstrata e a física procura uma ordem natural. Nenhuma dessas linguagens é equivalente às outras, mas todas testemunham uma capacidade singular da inteligência humana: reconhecer padrões e perguntar pela estrutura que os sustenta.

Enquanto a Lua atravessa a sombra da Terra, continuo a ouvir as notas de Passacaglia tocando em algum lugar. Seu motivo retorna, transforma-se e reaparece. A Lua percorre sua órbita, a Terra gira, a luz atravessa o espaço e a gravidade mantém corpos celestes em movimento. Tudo obedece a relações que podemos descrever, calcular e testar.

O Tigre de Blake continua nos desafiando na floresta da noite. Essa é a estranha condição de nossa inteligência: quanto mais conseguimos explicar o universo, maior se torna a consciência de sua profundidade. Descobrimos as leis que governam o eclipse e continuamos fascinados pela sombra. Descobrimos a matemática das órbitas e continuamos olhando para a Lua. Investigamos a estrutura da matéria e continuamos perguntando por que existe uma ordem capaz de ser conhecida.

Entre aquilo que sabemos e aquilo que ainda procuramos compreender existe uma região imensa. A ciência avança por ela com equações e experimentos, a poesia atravessa-a com imagens, a música a percorre através do ritmo, e nós permanecemos diante do céu, pequenos e efêmeros, mas suficientemente conscientes para perguntar pela arquitetura do mistério.

“Tigre, tigre, que flamejas

Nas florestas da noite.

Que mão, que olho imortal

Se atreveu a plasmar tua terrível simetria?”

REFERÊNCIAS

BLAKE, William. O Tigre. Tradução de Ângelo Monteiro. In: Casa da Cultura. Literatura: traduções de poesias. [S. l.], 2004. Disponível em: Casa da Cultura — O Tigre, de William Blake, tradução de Ângelo Monteiro⁠ . Acesso em: 28 ago. 2026. 

KAKU, Michio. Hiperespaço: uma odisseia científica através de universos paralelos, distorções do tempo e a décima dimensão. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Shirlei Florenzano Figueira
Shirlei Florenzano, advogada e professora da Universidade Federal do Oeste do Pará - UFOPA, mestra em Direito pela UFPA, Membro da Academia Artística e Literária Obidense, apaixonada por Literatura e mãe do Lucas.

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