0
 

Dizem que a memória mora na cabeça.


Eu desconfio que ela mora no nariz.


Basta um cheiro e, de repente, deixamos de ser quem somos hoje para voltar a ser a criança que um dia fomos.


É curioso como isso acontece.


O perfume de um bolo saindo do forno não anuncia apenas que o café está pronto. Ele abre portas que estavam fechadas há muitos anos.


O alho dourando na panela. O café recém-passado. A farinha sendo mexida devagar. O tucupi fervendo. Cada cheiro carrega uma história. Cada aroma sabe exatamente onde nos encontrar.


Na minha casa, aprendi cedo que cozinhar era muito mais do que preparar alimentos. Era construir lembranças sem que ninguém percebesse.


Tenho 47 anos e minha mãe continua fazendo uma galinha caipira com farofa de cuscuz como ninguém. Não existe receita capaz de reproduzir exatamente aquele sabor. Porque o segredo nunca esteve apenas nos ingredientes. Sempre esteve nas mãos, no tempo e no amor com que ela cozinha.


No último Dia da Avó, a família se reuniu em Altamira. Eu estava longe. Minha sobrinha fez uma chamada de vídeo e me mostrou a panela fumegando sobre o fogão. Bastou aquela imagem para que a memória fizesse o resto.


Fechei os olhos.


Era como se o cheiro atravessasse a tela do celular.


Eu podia sentir o perfume da galinha caipira, o gosto da farofa de cuscuz, o barulho da família reunida em volta da mesa. Por alguns instantes, deixei de estar onde eu estava.


Voltei para casa.


Foi na gastronomia que compreendi uma das maiores delicadezas da vida: existem receitas que alimentam o corpo e existem aromas que alimentam a alma.


O cheiro tem esse poder.


Ele não pede licença.


Entra pela casa, atravessa o coração e senta à mesa com as nossas lembranças.


Hoje entendo por que faço questão de caprichar na comida, de organizar uma mesa bonita, de cozinhar com calma. Não estou apenas preparando uma refeição.


Estou construindo memórias.


Quem sabe, um dia, meus filhos sintam o cheiro de um café passando, de um prato que eu fazia com carinho ou de um bolo saindo do forno e, sem perceber, encontrem novamente o caminho de casa.


Porque casa nem sempre é um lugar.


Às vezes, casa é um aroma.


E esse é um dos maiores poderes da gastronomia.


A fotografia guarda a imagem.


A comida alimenta o corpo.


Mas o cheiro alimenta a saudade.


Porque a comida acaba.


O almoço termina.


Os filhos crescem.


Mas há cheiros que escolhem morar para sempre dentro da gente.


E, toda vez que sinto o perfume da galinha caipira da minha mãe, descubro que nunca deixei de saber o caminho de casa.

Nalva Avertano-Rocha
Gastróloga, Bacharel em Direito, Especialista em Bolo de Rolo, criadora do Bolo de Rolo Amazônico, empreendedora à frente da Nalva Avertano-Rocha Gastronomia. Ministra cursos livres de gastronomia com foco na valorização da cultura amazônica. Natural de Altamira (PA), apaixonada por crônicas, poesia e pelos sabores da floresta. Corredora amadora em processo de superação e reinvenção.

Defesa Pessoal à Mulher e Instrumentos de Menor Potencial Ofensivo

Previous article

Novo desafio para o cônego Roberto Cavalli

Next article

You may also like

Comments