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O 15 de agosto de 1823 ocupa um lugar central na história do Pará porque marca a adesão do Grão-Pará à Independência do Brasil, mas, é importante evitar a ideia de que naquele dia ocorreu uma simples e espontânea “independência do Pará”. O processo foi resultado de uma complexa disputa política, envolvendo diferentes projetos para o futuro da província. A Independência proclamada no Centro-Sul, em 1822, não foi imediatamente aceita no Grão-Pará. Havia grupos que defendiam a manutenção dos vínculos com Portugal, outros que apostavam no constitucionalismo português e setores que passaram a considerar a integração ao Império do Brasil como uma alternativa possível. A imprensa, nesse contexto, teve papel importante na formação da opinião pública e na disputa entre as facções políticas.


A adesão de 1823 teve um forte componente pragmático. A chegada a Belém do capitão-tenente John Pascoe Grenfell, em agosto de 1823, e o chamado “golpe da esquadra” contribuíram para convencer as autoridades de que a separação do Brasil em relação a Portugal era um fato consumado. Em 11 de agosto, as autoridades paraenses aceitaram a adesão; o 15 de agosto corresponde à sua solenização oficial. Isso ajuda a compreender uma questão essencial: o 15 de agosto não significou uma ruptura imediata com as estruturas sociais e políticas do período colonial. A adesão incorporou o Pará ao novo Império brasileiro, mas preservou desigualdades, a escravidão e a concentração do poder nas mãos de grupos das elites. Para grande parte da população, como indígenas, negros escravizados, mestiços, homens livres pobres e outros setores populares, a mudança de soberania não significou automaticamente liberdade, participação política ou melhoria das condições de vida.


Por isso, o 15 de agosto pode ser entendido como um momento de integração política do Pará ao Brasil, mas não como o encerramento das lutas pela autonomia e pela transformação social na província. Os conflitos continuaram depois de 1823 e contribuíram para um ambiente de tensão que, pouco mais de uma década depois, desembocaria na Cabanagem.


Nesse sentido, é particularmente importante porque desloca o olhar de uma narrativa tradicional, centrada apenas em datas e personagens, para as disputas de poder, interesses sociais, projetos políticos e conflitos que constituíram a adesão. O 15 de agosto, portanto, deve ser lembrado não apenas como uma data comemorativa, mas como um episódio de uma história amazônica marcada por negociações, coerção, expectativas frustradas e disputas sobre quem deveria exercer o poder e qual deveria ser o lugar do Pará no novo Estado brasileiro.


Referência


SOUZA JÚNIOR, José Alves de. O Grão-Pará e a adesão à Independência. Ananindeua: Editora Cabana, 2022.

Francivaldo Nunes
Francivaldo Alves Nunes: Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (2011), com Estágio Pós-Doutoral na Universidade Nova de Lisboa (2014). Pesquisador Produtividade do CNPq (PQ-C). Atua como professor na UFPA , sendo o atual presidente da Associação Nacional de História - ANPUH Brasil (2025-2027). É Diretor Administrativo e Financeiro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) e pesquisador e extensionista na Comissão Pastoral da Terra (CPT), Regional Norte da CNBB. Integra a Rede Proprietas, sendo Coordenador da Regional Norte. fan@ufpa.br

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