0
 

A partir desta sexta-feira (11), Belém receberá, no Cine Líbero Luxardo, uma semana de pré-estreia especial de “Não Haverá Mais História Sem Nós”, documentário lusobrasileiro dirigido pela cineasta amazônida Priscilla Brasil e coescrito com o historiador da ciência Raphael Uchôa. Em Salvador o longa começa a ser exibido hoje, quinta-feira (10) em sessões diárias na Sala de Arte do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM). A estreia nacional acontece em 17 de setembro.

Quem conta a história da Amazônia? E o que acontece quando os próprios amazônidas reivindicam o direito de narrar a si mesmos?

Entre Munique e Belém, Priscilla e Raphael percorrem arquivos, coleções e museus atrás do processo histórico que inventou a floresta como um Jardim do Éden inesgotável. O percurso mostra que a imagem não nasceu por acaso e que ela continua rendendo dividendos. “Mais do que um documentário sobre a floresta, ‘Não Haverá Mais História Sem Nós’ é um manifesto cinematográfico contra o apagamento histórico e a perspectiva colonial que, há séculos, constrói a Amazônia como território vazio, selvagem e disponível à exploração”, afirma a diretora.

O alvo central da obra é a noção de “vazio demográfico selvagem”, a ideia de que a floresta seria um território sem história, sem habitantes e sem voz própria. É uma construção antiga, e é uma construção conveniente, já que terra vazia se ocupa e se explora pois não tem quem reclame.

O documentário faz o caminho inverso do da paisagem exótica. Ao colocar as amazônidas no centro da narrativa, questiona uma visão que transforma pessoas, culturas e territórios em elementos decorativos de um cenário. E aponta que a assimetria não ficou no passado: até hoje pesquisadoras latino-americanas enfrentam barreiras de acesso a acervos museológicos que colegas do Norte global não encontram, o que reproduz hierarquias coloniais dentro da própria produção de conhecimento.

O recorte não se limita ao século 19, pois o filme observa como o discurso contemporâneo de preservação ambiental e o crescente greenwashing operam sobre a mesma gramática de séculos atrás, com a floresta reduzida a ativo, imagem e mercadoria simbólica. As estruturas de poder mudaram de vocabulário, não de lugar.

“Não Haverá Mais História Sem Nós” é uma coprodução entre a produtora parauara Companhia Amazônica de Filmes e a portuguesa Clandestina Filmes, com apoio do projeto ECOAmazônia, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação e desenvolvido na Universidade de Coimbra. Sediado no Centro de Estudos Sociais, o projeto ECO investiga como produções culturais sobre a Amazônia dão voz a animais e plantas e trabalha com o conceito de zoofitografia, buscando perspectivas não imperialistas sobre a fauna e a flora da região. A distribuição no Brasil é da Kajá Filmes, casa criada em 2024 com foco em diversidade e cinema independente.

Antes de chegar ao circuito comercial brasileiro, o filme rodou festivais nos dois hemisférios. Teve estreia mundial no Bali International Film Festival, o Balinale, e primeira exibição brasileira no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o FICA, em Goiás, em junho de 2024. No mesmo ano, passou pelo Porto/Post/Doc, em Portugal, onde esta que vos escreve teve a oportunidade de assistir, e quando Priscilla definiu a obra como “um apelo para que o mundo nos enxergue como parte da história, reconhecendo tanto nossa diversidade quanto o silenciamento secular que enfrentamos”. Integrou também a competição de língua portuguesa do CineEco, em Seia, a Mostra Ecofalante de Cinema, em São Paulo, e a Primavera dos Museus, com sessão no Museu de Astronomia e Ciências Afins, no Rio de Janeiro, seguida de debate com Raphael. Em 2025, foi exibido na Austrália, dentro do Environmental Film Festival.

Se as caras leitoras me permitirem o enxerimento em dar recomendações, eu diria que “Não Haverá Mais História Sem Nós” é fundamental não só para educar o mundo sobre o sistema de opressão colonial que nós, amazônidas, vivemos ininterruptamente desde as invasões europeias, mas para despertar em nós mesmas a indignação às vezes silenciada, aquela que nos dá força para lutar pelo básico do básico, que é o direito de narrarmos e protagonizarmos a nossa História. Eu, pessoalmente, saí do cinema com a sensação de alma lavada, com o sentimento de que a Priscilla e o Raphael jogaram pro mundo tanta coisa que eu queria dizer. Se puderem, assistam.

Nascida em Belém, Priscilla Brasil acumula duas décadas de documentários e videoclipes e assina filmes como “As Filhas de Chiquita” e “No Vazio do Ar”. É doutoranda em pós-colonialismos e cidadania global na Universidade de Coimbra, onde pesquisa imperialismo e desenvolvimento, e coordena a Escola Livre de Cinema da Amazônia, frente de formação audiovisual gratuita voltada a fortalecer vozes e narrativas indígenas.

Raphael Uchôa é Adrian Research Fellow no Darwin College, da Universidade de Cambridge, e associado ao Departamento de História e Filosofia da Ciência da mesma instituição. Pesquisa o trânsito geopolítico e epistemológico de materiais botânicos e etnográficos da bacia amazônica rumo ao Norte global no período moderno, coordena o grupo “Science and its Others: Histories of Ethno-Science” e é investigador associado ao projeto ECO, em Coimbra. Entre 2018 e 2019 fez pós-doutorado no Departamento de História da Ciência e das Ideias da Universidade de Uppsala e ocupou posição de pesquisa no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém.

A pergunta que o filme deixa em aberto é aquela que nos perguntamos todos os dias: quando, afinal, as pessoas amazônidas serão autorizadas a contar a própria história?

Serviço:

Pré-estreia especial em Belém 

Cine Líbero Luxardo

11/09: 15h

12/09: 18h20

13/09: 20h10

14/09: 16h45

15/09: 15h

16/09: 18h20

Estreia nacional nos cinemas: 17 de setembro

Ficha técnica

Não Haverá Mais História Sem Nós

2025 | Brasil e Portugal | 90 min

Direção: Priscilla Brasil

Roteiro: Priscilla Brasil e Raphael Uchôa

Produção: Companhia Amazônica de Filmes e Clandestina Filmes

Apoio: projeto ECOAmazônia, Conselho Europeu de Investigação e Universidade de Coimbra

Distribuição no Brasil: Kajá Filmes

Classificação indicativa: 10 anos

Imagens: Kajá Filmes / Divulgação

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

Centenas de milhares de infâncias interrompidas pela violência no Brasil

Previous article

Coro Carlos Gomes em recital a cappella na Igreja de Santo Alexandre

Next article

You may also like

Comments