Publicado em: 9 de junho de 2026
A relação entre bebidas, cultura e identidade brasileira é o eixo da fanzine Na Língua, publicação digital que foi lançada nesta segunda (8). Reunindo pesquisadores, artistas, jornalistas, sommeliers e profissionais da gastronomia de diferentes regiões do Brasil, a obra propõe uma investigação sobre a formação do paladar brasileiro e os significados históricos, sociais e afetivos presentes nos modos de beber.
Disponível gratuitamente pela internet (clique aqui), a publicação, em vez de abordar as bebidas apenas sob uma perspectiva técnica ou de mercado, examina como ingredientes, rituais, memórias familiares, tradições regionais e práticas de hospitalidade ajudam a construir diferentes expressões da identidade nacional.
Idealizada por Aline Smaniotto e Bia Amorim, a fanzine foi desenvolvida a partir de reflexões acumuladas durante a realização do curso Sommelieria Pindorama, criado em 2023 para estudar as relações entre bebidas e cultura brasileira. Ao longo do processo, as autoras identificaram que as perguntas levantadas pela pesquisa eram maiores do que as respostas disponíveis.
“Partimos do olhar da sommelieria brasileira e, ao nos perguntarmos o que é o Brasil, o que é beber o Brasil e como beber esses Brasis, percebemos que tínhamos mais perguntas do que respostas. A zine nasce justamente dessa vontade de compartilhar essas inquietações com quem trabalha, serve e bebe”, afirma Bia Amorim.
Aline Smaniotto define a publicação como um espaço de experimentação editorial e intelectual: “na Língua é este lugar onde pudemos criar, friccionar experiências e conceitos, em um formato que nos permitiu outras formas de olhar para esse universo das bebidas e que não cabia em apenas um gole. A zine veio para trazer essa multiplicidade, para instigar mais bebericagens sobre os Brasis que habitamos.”
A publicação é produzida pela BeberÚ, agência dedicada à pesquisa, curadoria e produção de conteúdo sobre a gastronomia das bebidas brasileiras. A organização investiga como se forma o chamado “paladar líquido brasileiro”, articulando conhecimentos da sommelieria, da antropologia e da hospitalidade.
A primeira edição reúne textos, ensaios, entrevistas, fotografias, colagens, ilustrações, cartas, charges e uma linha do tempo histórica. O formato de fanzine foi escolhido justamente pela liberdade editorial e pela possibilidade de aproximar diferentes linguagens e perspectivas em uma mesma publicação.
O projeto gráfico foi desenvolvido pelo Cafecoado Estúdio. A capa é assinada por Pedro Cancelliero, a diagramação ficou a cargo de Octávio Augusto, da Além do Quê, e a revisão foi realizada por Gabriela Lando.

Entre os conteúdos presentes na edição está o texto “Brasilidade também se fermenta”, assinado por Aline Smaniotto. A pesquisadora Raquel Tupinambá apresenta o tarubá a partir das experiências do povo Tupinambá do baixo Tapajós, na Amazônia. Já Gabriel Gurian revisita feiras, exposições e ingredientes utilizados nos primórdios da indústria cervejeira brasileira, demonstrando que a discussão sobre referências locais antecede o atual movimento de valorização dos ingredientes nacionais.
Pâmela Queiroz escreve sobre quintais, receitas familiares, refrigerantes artesanais e o aluá do Cariri cearense. Mari Mesquita investiga os aperitivos, as bebidas mistas e a influência dos nomes e classificações na forma como as pessoas percebem aquilo que consomem.
A jornalista Flávia G. Pinho conduz entrevistas com profissionais da gastronomia para discutir os processos de formação do paladar. Já Bia Amorim assina um ensaio dedicado à hospitalidade, ao serviço e ao acesso, defendendo que compreender o Brasil servido em um copo passa também pelo reconhecimento dos ingredientes, dos códigos culturais e dos hábitos de consumo presentes no cotidiano.
André Dahmer, Ela Marte, Preah e Yumi Shimada participam da edição com trabalhos de ilustração, fotografia, colagem e humor gráfico.
As próprias idealizadoras também apresentam reflexões em formato de carta sobre a construção de uma sommelieria brasileira menos dependente de referências importadas e mais conectada aos biomas, ingredientes, técnicas, bares, tradições e modos de consumo desenvolvidos no país.
A edição ainda inclui uma cronologia dedicada à história da cerveja no Brasil, observando como a bebida foi moldada por mudanças regulatórias, transformações culturais e práticas produtivas ao longo do tempo.
Realizada com apoio da Academia da Cerveja, da Ambev, por meio do Edital Fermenta 2025, a publicação é apresentada pelas organizadoras como a primeira safra de uma pesquisa editorial dedicada ao universo do beber brasileiro. A circulação é direcionada a profissionais das áreas de bebidas, gastronomia, cultura e hospitalidade, mas também a leitores interessados em compreender como memória, território, ancestralidade e identidade se manifestam naquilo que o país escolhe servir, compartilhar e celebrar.
Fotos: Larissa Diniz










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