Publicado em: 21 de julho de 2026
Na Vila Bacuri, em Cachoeira do Arari, os vizinhos voltaram a chegar cedo para plantar e cercar a terra uns dos outros. A cena tinha sumido do cotidiano marajoara havia anos. Reapareceu junto com o Marajó Resiliente, projeto de adaptação climática que trabalha com agricultoras, agricultores e comunidades quilombolas em Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari.
“Antigamente, quando meus avós plantavam, trabalhavam através de mutirão. Um vizinho ajudava o outro a plantar, a cercar. Isso tinha acabado há um tempo. E quando veio o projeto Marajó Resiliente, lembrei muito do passado, porque essa forma de trabalhar voltou”, conta Maria Regina, agricultora da Vila Bacuri.
O mutirão de plantio é prática antiga no arquipélago. Uma família cuida da roça da outra, na base da reciprocidade, até fechar o ciclo de todo mundo. Foi essa lógica de cooperação que voltou a organizar o trabalho no campo, agora aplicada aos sistemas agroflorestais, os SAFs.

A retomada tem escala. Na janela de plantio de 2025 e 2026, foram trabalhados 436,3 hectares de agroflorestas, com 401 famílias atendidas diretamente nos três municípios. Das áreas implantadas, 211 são lideradas por mulheres e 188 por homens. Salvaterra concentra a maior parte, com 292 famílias, seguida por Cachoeira do Arari, com 91, e Soure, com 18. Entre quem plantou, 179 são agricultoras e agricultores quilombolas.
Somando as ações desde o início, o projeto já apoiou 1.896 pessoas de forma direta e outras 11.649 de maneira indireta.
Nos SAFs, açaí, cupuaçu, manga e hortaliças crescem juntos, no lugar da monocultura que seca e queima quando o calor aperta. O arranjo garante colheita ao longo do ano inteiro e tira das famílias a dependência de um único produto. A terra também responde: o solo melhora, a água se regula e o microclima da roça fica mais protegido dos extremos que já chegaram ao Marajó.
Para Samara Patrícia, agricultora familiar da comunidade de Maruacá, em Salvaterra, a mudança se sente à mesa. “Antes a gente se alimentava de comidas industrializadas e vejo que hoje conseguimos comer muitas coisas naturais, que vêm do nosso próprio quintal. Melhora a nossa saúde e a nossa forma de se alimentar”, conta.
Quem multiplica esse conhecimento são as próprias moradoras. Agricultoras e agricultores treinados atuam como multiplicadores, levando as técnicas dos SAFs de quintal em quintal. É o que mantém o projeto enraizado no território depois que a assistência técnica passa.
A aposta, porém, não se limita à roça. Para que a adaptação dure, o Marajó Resiliente aproximou o campo do poder público. A campanha “Marajó Unido Pelo Clima” ajudou as prefeituras a montar um Plano de 100 Dias e a instalar comitês municipais de ação climática, encarregados de escrever os planos locais de adaptação. Pelo menos 50 gestoras e gestores participaram das rodadas de diálogo, e os planos já avançam nos três municípios.
O crédito rural entrou na conta como peça dessa engrenagem. Em novembro de 2025, o primeiro contrato de Pronaf B assinado no território saiu no nome de uma mulher. O marco veio na esteira do Fórum AtivaCred, que juntou mais de 400 pessoas e 40 organizações para destravar o acesso ao financiamento de quem vive e produz no arquipélago.
O Marajó Resiliente é realizado pela Fundación Avina e financiado pelo Fundo Verde do Clima, o GCF, com o Instituto Belterra, o IEB, a Conexsus e organizações do território, como a Malungu, além de cooperativas e associações locais. A previsão é de cinco anos de trabalho em Cachoeira do Arari, Salvaterra e Soure.
Foto em destaque: Lirio Moraes / Angola Comunicação










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