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A terceira edição do projeto Muralismo Entre Rios começou em Ananindeua no sábado, 22, com uma oficina participativa no complexo CEU das Artes, no Conjunto Júlia Seffer. Depois de duas edições realizadas em Marabá, a iniciativa chegou ao segundo município mais populoso do Pará para revitalizar cerca de 40 m² de arte mural, sob o tema “Defesa da Terra e o Bem Viver em Ananindeua”.

A oficina de lançamento, gratuita e realizada das 9h às 16h, foi destinada a lideranças comunitárias, quilombolas, educadoras ambientais e recicladoras, movimento de mulheres, artistas, produtoras culturais e outras representantes do território Ananin. Dela sai a narrativa que será pintada, numa parede ociosa de grande visibilidade do município.

Esse desenho de trabalho, segundo as idealizadoras, é o que separa o projeto de uma intervenção artística comum. “É a voz da comunidade para a própria comunidade, retratada na obra. Esse formato cocriativo é usado desde a primeira edição e é o que diferencia o projeto. Mais do que só chegar e pintar uma parede com um tema particular, a comunidade tem participação ativa nessa construção e a oficina é onde fazemos essa escuta”, afirma o designer e produtor cultural Livando Malcher, um dos idealizadores.

A escuta não se encerrou no sábado. A produção pretende criar um grupo virtual com as participantes da imersão para acompanhar e validar as etapas seguintes do processo.

Depois da pintura, estão previstas oito horas de visitas guiadas aos murais, com professor de arte, intérprete de libras e estudantes de escolas públicas do município. As fotos dos painéis serão indexadas na plataforma Google, o que deve gerar um tour virtual em 360º.

Ananindeua tem 530.598 habitantes e fica atrás apenas de Belém em população no estado. Também aparece na 14ª posição entre as cidades mais violentas do país, segundo o Atlas da Violência 2021, do Ipea, com impacto sobre crianças, juventude, famílias e o meio ambiente. A frase que a produção adotou como premissa foi grafitada em uma rua de Governador Valadares, em Minas Gerais, no ano de 2016. “Em lugar onde não há atividades culturais, a violência vira espetáculo.”

Para Clara Morbach, que assina a idealização do projeto ao lado de Malcher, a arte monumental em via pública alcança milhares de pessoas por dia e atravessa o campo subjetivo de quem passa. “Esta é uma forma de lançar luz em práticas fundamentais para alcançarmos o estado de Bem Viver no município, entre outros, o protagonismo da população, a proteção e valorização às mulheres, bom convívio familiar e comunitário, proteção à infância e PCD’s, valorização da educação, valorização de alimentos agroecológicos, valorização dos bens materiais e imateriais do município, proteção da natureza, terra, ar, rios, animais e plantas, cuidado aos idosos, respeito à diversidade, valorização de práticas e saberes da cultura popular e tradicional”, diz.

O Muralismo Entre Rios nasceu em 2021 no Cabelo Seco, bairro onde Marabá começou, no sudeste do Pará. A curadoria foi feita com as pessoas mais velhas do bairro e resultou na revitalização de 80 m² de paredes de casas em via pública de grande circulação, com homenagem a lavadeiras, pescadores e coletores de castanha.

A segunda edição veio em 2024, na mesma cidade, dessa vez dentro da escola de ensino médio Plínio Pinheiro. Estudantes e professores cocriaram um conjunto de murais em paredes internas e externas, num total aproximado de 180 m², tendo o Bem Viver como tema condutor.

O nome do projeto remete ao muralismo latino-americano do século XX, quando a arte pública em grande formato funcionou como instrumento pedagógico, político e de afirmação de uma identidade regional e popular. É esse repertório que a produção pretende aplicar ao contexto urbano de Ananindeua.

O calendário da edição segue até 30 de setembro de 2026, com novas oficinas, mapeamento de muros e artistas, execução da pintura e as visitas guiadas.

Foto em destaque: Muralismo Entre Rios

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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