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Gloria Steinem morreu na quarta-feira (2), aos 92 anos, em casa, em Nova York. O anúncio foi publicado no perfil dela no Instagram e não informou a causa da morte. “Gloria Steinem partiu em paz, em sua casa em Nova York, cercada por algumas das muitas pessoas que a amavam”, diz a nota.

A jornalista, ícone feminista, começou a contestar os estereótipos de gênero nos anos 1960, quando as mulheres estadunidenses seguiam confinadas a papéis domésticos, e sustentou por seis décadas as mesmas bandeiras, igualdade, sororidade e liberdade reprodutiva. O nome dela se tornou sinônimo do movimento por direitos das mulheres nos Estados Unidos.

Em 2013, ao entregar a Medalha Presidencial da Liberdade a Steinem, o então presidente Barack Obama resumiu o alcance daquele trabalho. “Por causa do trabalho dela, nos Estados Unidos e no mundo inteiro, mais mulheres têm o respeito e as oportunidades que merecem”, disse. “Ela também mudou o modo como as mulheres pensam sobre si mesmas.”

Nascida em Toledo, Ohio, em 1934, formou-se em 1956 no Smith College, em estudos de governo. Passou os dois anos seguintes na Índia, com uma bolsa, período em que acompanhou grupos organizados contra a violência de casta e escreveu para publicações indianas. Ela apontava aquela experiência como a origem do próprio ativismo.

De volta aos Estados Unidos, envolveu-se por pouco tempo com uma organização financiada pela CIA que enviava estudantes estadunidenses a festivais de juventude patrocinados pela União Soviética para promover princípios pró-Estados Unidos. O episódio voltaria a ser cobrado dela por parte do movimento feminista anos mais tarde. Steinem defendeu a própria atuação e afirmou que a CIA nunca tentou alterar as políticas da entidade.

A carreira de jornalista freelancer começou em Nova York nos anos 1960, em redações comandadas por homens, onde as repórteres eram limitadas a um punhado de assuntos.

“Eu e muitas mulheres não podíamos escrever sobre temas políticos para as revistas que existiam”, lembrou ela em entrevista à NPR em 2020. “Achavam que a gente era especialista em, sabe, comida, maquiagem, bebês e celebridades.”

O cerco não a fez desistir de reportagem investigativa. Em 1963 ganhou projeção nacional ao trabalhar disfarçada em um dos clubes noturnos de Hugh Hefner. A reportagem que escreveu para a revista Show, “A Bunny’s Tale”, expôs o sexismo e os salários baixos a que eram submetidas as garçonetes e desmontou a tese de Hefner de que o império Playboy encarnava uma revolução sexual boa para homens e mulheres.

Foi editora fundadora e redatora da revista New York. Em 1972 lançou a própria publicação, a Ms., cujo nome vem do pronome de tratamento usado quando não se sabe o estado civil de uma mulher. A revista é reconhecida como a primeira de circulação nacional estadunidense feita por mulheres e escrita para mulheres sem confiná-las nos papéis de esposas e mães.

A Ms. tratou de aborto, relações homoafetivas, violência doméstica e papéis de gênero quando esses temas ainda eram interditados. A capa de 1977 sobre assédio sexual levou a discussão ao debate público nacional e deu origem ao roteiro de “Como Eliminar Seu Chefe”, filme de 1980 estrelado por Dolly Parton (que morreu no último dia 25 de agosto após uma batalha contra um câncer, a qual ela manteve em segredo).

Meses antes de fundar a revista, em 1971, Steinem participou da criação do National Women’s Political Caucus, voltado a recrutar, formar e apoiar candidaturas de mulheres.

“As mulheres vêm conduzindo as campanhas políticas neste país há gerações. Mas conduzir significa que elas fazem todo o trabalho subalterno, sabe, endereçar envelopes, dirigir carros e organizar arrecadações”, disse ela à NPR em 1971. “Não vamos mais fazer isso. Que os candidatos homens datilografem eles mesmos.”

Quando o grupo nasceu, havia 15 mulheres eleitas para o Congresso, 363 deputadas estaduais e sete prefeitas. Os números hoje são 150, 2.476 e 428.

A liberdade reprodutiva estava entre as pautas legislativas que mais lhe importavam, e a razão era pessoal. Steinem fez um aborto ilegal aos 22 anos. No livro de memórias “My Life on the Road”, de 2015, dedicou a obra ao médico inglês que realizou o procedimento. Escrevendo sobre si em terceira pessoa, registrou: “Sabendo apenas que ela havia rompido um noivado em casa para buscar um destino desconhecido, ele disse, você precisa me prometer duas coisas. Primeiro, não vai contar a ninguém o meu nome. Segundo, vai fazer o que quiser fazer com a sua vida (…) Fiz o melhor que pude com a minha vida. Este livro é para você”.

Phyllis Rosser via @archivalagents

Semanas antes de a Suprema Corte derrubar Roe v. Wade e encerrar o direito constitucional ao aborto nos Estados Unidos, em 2022, ela disse em entrevista que não considerava perdido o trabalho feito por ela e por outras em torno da justiça reprodutiva. “Isso não vai mudar o fato básico de que ou temos poder de decisão sobre nossos próprios corpos, mulheres e homens, ou não existe democracia”, afirmou.

Na mesma conversa, comparou a transformação social a uma árvore. “Muitas vezes achamos que a árvore cresce de cima, do Congresso. Árvores crescem de baixo”, disse, atribuindo o peso da mudança ao trabalho de pessoas comuns e de comunidades.

Gloria Steinem é, definitivamente, semente. Mulheres que nunca leram uma linha assinada por ela trabalham, votam, publicam e decidem dentro do território que ela e suas contemporâneas abriram. Seu corpo partiu, mas seu legado continuará sendo base da luta por equidade e justiça.

Rest in Power, Ms. Steinem.

Foto: Gage Skidmore / Wikimedia Commons — CC BY-SA 3.0

Foto em destaque: Foto: Lynn Gilbert / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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