Publicado em: 11 de agosto de 2026
Michelle Bolsonaro (PL) e o enteado, Flávio Bolsonaro (PL), gravam nesta terça-feira (11), em Brasília, a primeira peça conjunta do horário eleitoral. O encontro supostamente encerra (pelo menos no mundo das aparências) uma crise aberta em junho, quando Michelle foi às redes contar como havia sido tratada pelo senador e transformou uma disputa interna do PL em caso público de violência política de gênero.
Quem segue o podcast Rádio Poeira, escutou na semana passada a socióloga Karol Cavalcante (doutora em Ciências Políticas e diretora de Justiça Racial e de Gênero da Fundação Friedrich Ebert no Brasil) avaliando que Michelle fez uma denúncia de violência política de gênero – apesar de não utilizar esta denominação, que de certa forma é estigmatizada como “de esquerda” – e saiu vitoriosa do embate. O terceiro episódio da Hora Mágica desta temporada é dedicado à ocupação feminina da política, à paridade de gênero e às cotas que existem no papel e somem no caminho.
Os dois vídeos que abriram o conflito são de 24 de junho. Neles, Michelle afirmou que o enteado havia sido “muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone” e relatou que ele teria dito que ela “havia chegado ontem e não entendia nada de política”. Nove dias antes, Flávio recusara apoiar Priscila Costa, aliada dela, à vaga de senadora pelo Ceará, e escolhera Alcides Fernandes, pai do presidente estadual do partido.
O senador negou as acusações, pediu desculpas caso ela tivesse se sentido ofendida e propôs uma reunião com lideranças femininas conservadoras. Michelle passou a ser atacada por influenciadoras e ativistas do próprio campo.
Pesquisadoras de violência política leram o caso como demonstração de que a categoria alcança também mulheres conservadoras, quando elas contrariam a autoridade masculina dentro do movimento a que pertencem.
No terreno formal, Flávio já responde a uma representação. Em 8 de julho, a deputada Jack Rocha, do PT do Espírito Santo e líder da bancada feminina na Câmara, pediu à Procuradoria-Geral da República a apuração de violência política de gênero, propaganda discriminatória e condutas incompatíveis com o regime democrático contra o influenciador Paulo Figueiredo, o partido Missão e o senador. O gatilho foi a fala de Figueiredo de que “mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras. As casadas costumam acompanhar o marido”. Flávio negou envolvimento e disse repudiar as afirmações. Soraya Thronicke havia protocolado notícia-crime sobre o mesmo conteúdo em 30 de junho.
O Ministério Público Eleitoral orientou em maio que procuradoras e promotoras ajam de imediato diante de indícios de violência política de gênero, com pedidos de medidas protetivas, preservação de provas digitais e acionamento das plataformas. Cerca de 370 casos foram acompanhados desde 2021, com 66 denúncias apresentadas à Justiça.
A reaproximação levou um mês de negociação nos bastidores. Em 23 de julho, Flávio publicou um vídeo de desculpas, aceito publicamente por Michelle no mesmo dia. Dois dias depois, ela gravou um vídeo para a convenção do enteado e ganhou destaque no espaço do PL Mulher.
A gravação desta terça marca a estreia de Duda Lima como marqueteiro da campanha. Flávio reuniu no mesmo dia 47 candidatas ao Senado que pretende apoiar. “Michelle é uma pessoa qualificada e, com certeza, será uma grande representante. Ela terá acesso direto à Presidência da República para levar as demandas do Distrito Federal”, disse o senador.
Os dois também devem aparecer juntos nos materiais impressos de campanha. A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e a deputada Bia Kicis (PL), que disputam o governo e o Senado na chapa de Michelle no DF, terão destaque nas peças.
Não há previsão de que a ex-primeira-dama participe do encontro de Flávio com candidatas ao Senado nem do primeiro ato de campanha do senador, no Rio de Janeiro. Ela não deve se engajar muito presencialmente na campanha presidencial, alegadamente pelos cuidados com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está em prisão domiciliar. A agenda de gravações com aliadas do PL deve se intensificar nas próximas semanas.
O cálculo por trás da foto tem claramente base nas pesquisas. Datafolha divulgado em julho apontou Lula com 50% das intenções de voto femininas contra 40% de Flávio em segundo turno. Metade das mulheres ouvidas disse que não votaria no senador de jeito nenhum.
Michelle disputa uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal. A campanha começa oficialmente no domingo (16), e a propaganda em rádio e televisão vai ao ar a partir de 28 de agosto.
Imagem em destaque: caricatura gerada por IA.










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