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Para quem leu a matéria sobre a recomendação do Ministério Público Federal (MPF) pelo cancelamento dos Cadastros Ambientais Rurais (CARs) registrados sobre territórios de comunidades tradicionais no Marajó, dois textos ajudam a entender a raiz do problema. O artigo científico “Metaverso Agrário: a simulação da realidade como gerador de conflitos no campo no Marajó” e o ensaio “Sobre o Metaverso Agrário”, de autoria do engenheiro florestal Carlos Augusto Pantoja Ramos, mostram como um cadastro autodeclaratório feito pela internet virou porta de entrada para a especulação com terras públicas no arquipélago.

Publicado em 2025 nos Cadernos da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, em edição dedicada à justiça climática, o artigo traz números que dão a dimensão da distorção. Até abril de 2023, o Marajó acumulava 12.344 imóveis rurais registrados no CAR, cobrindo 10,7 milhões de hectares, soma maior que os 10,28 milhões de hectares de todo o território marajoara. Em Gurupá, os cadastros chegam a 121% da área do município. É nesse cenário que o autor situa também a venda de créditos de carbono em Portel, negociada por empresas e grandes corporações sem o conhecimento das famílias que de fato vivem na terra.

O ensaio, escrito em 2022, percorre o mesmo caminho em tom de memória. Ramos parte do primeiro videogame rodado em fita-cassete que conheceu em Monte Dourado, nos anos 1980, para chegar ao conceito que batiza os dois textos: o Metaverso Agrário, a simulação da realidade por meio de ferramentas virtuais que impactam a vida agrária real. Ele lembra que o CAR se espalhou pela rede num Marajó em “apartheid digital”, onde apenas 2,65% das famílias tinham acesso à internet em 2012, contra uma média nacional de 33,2%.

Mestre em Ciências Florestais e doutorando em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável, o autor trabalhou entre 2000 e 2009 com manejo florestal comunitário e regularização fundiária em Gurupá, Portel, Breves, Curralinho e Afuá. A leitura das duas publicações, disponíveis na íntegra abaixo, ajuda a compreender por que o MPF cobra agora do governo parauara o cancelamento dos cadastros sobrepostos aos territórios tradicionais.

Imagem em destaque: Mapa descritivo do Arquipélago do Marajó. (Sistema de Informações Territoriais – SIT, o MDA – BRASIL, 2016). 

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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