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Wilderclay Barreto Machado, docente do curso de Ciências Atmosféricas do Instituto de Engenharia e Geociências (IEG) da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), é um dos coautores do artigo publicado em julho na revista Nature Sustainability que mede o cerco sobre a Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. Dentro do território, o desmatamento segue baixo. Nas bordas, avançou entre 2017 e 2022.

“A análise demonstra que, embora o desmatamento no interior da Terra Indígena permaneça relativamente baixo, houve um aumento expressivo do desmatamento em seu entorno entre 2017 e 2022, indicando a intensificação das pressões de fronteira”, afirma o pesquisador da Ufopa.

A pressão sobre o Vale do Javari não vem de uma atividade só. O estudo lista desmatamento, mineração, exploração madeireira, caça, pesca ilegal e narcotráfico entre as práticas que se repetem na região e que, somadas, sustentam o avanço sobre o território.

Machado entrou na pesquisa pela porta do sensoriamento remoto, um dos pilares metodológicos do trabalho. A técnica coleta dados e imagens da superfície da Terra a partir de sensores instalados a distância, em satélites, aviões ou drones, e permite acompanhar florestas, águas, clima e mudanças no uso do solo em grandes áreas e em pouco tempo. Foi esse conjunto de dados que permitiu medir o desmatamento e a degradação ambiental nas terras indígenas amazônicas analisadas.

Do diagnóstico, o pesquisador puxa uma lista de providências. Cobra fiscalização ambiental mais forte, proteção das zonas de amortecimento, combate à grilagem e políticas públicas voltadas à conservação da Amazônia, à proteção dos povos indígenas e à manutenção dos serviços ecossistêmicos.

Beto Marubo, liderança indígena do Vale do Javari , também assina o trabalho, na posição de destaque da qual o conhecimento originário foi historicamente apagado da ciência, aparecendo em terceiro na lista de autoria, à frente da maior parte do corpo científico que participou do trabalho. Nascido Wino Këyshëni na aldeia Maronal, em 1976, ele integra a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava) e se tornou uma das principais referências do país na proteção de indígenas isolados. Saiu da aldeia, nas cabeceiras do rio Curuçá, aos 17 anos, para aprender português e contas, porque os Marubo vinham sendo enganados na venda da borracha de seringa. Voltou com o ensino médio concluído, entrou no movimento indígena que negociava com a Funai a demarcação de terras e, aos 22 anos, foi convidado por Sydney Possuelo a trabalhar com povos isolados. Chefiou a fiscalização da Funai em Atalaia do Norte, onde começou a atuar ao lado do indigenista Bruno Pereira, parceria de 12 anos dedicada à proteção de 16 povos isolados. Desde 2014 responde pela vigilância territorial do Vale do Javari pela Unijava, que representa Marubo, Mayoruna, Matis, Kanamary, Kulina, Korubo e Tsohón-Djapa. As ameaças de morte que recebe o obrigam a circular pela região escoltado pela Força Nacional de Segurança Pública.

A terra que o artigo mede é a região do planeta com maior concentração de povos isolados, e a lista de pressões descrita pelos autores não é novidade para quem cresceu ali. Os ancestrais de Beto Marubo falavam de missionários católicos vindos da Espanha e de Portugal, de barões peruanos da borracha e de empresas madeireiras, enquanto as histórias contadas por sua geração são sobre missionários evangélicos fundamentalistas, mineradores ilegais e gangues de pescadores financiadas por redes de tráfico de drogas. Foi nesse território que Bruno Pereira, seu companheiro de trabalho, foi assassinado ao lado do jornalista Dom Phillips.

“Spiralling frontier threats in Indigenous Amazonia”, o título do artigo, tem 66 assinaturas. A pesquisa foi liderada por Gabriel de Oliveira, professor da University of South Alabama, nos Estados Unidos, pesquisador do Dauphin Island Sea Lab e embaixador da American Geophysical Union (AGU). O grupo reúne cientistas do NASA Goddard Space Flight Center, da Purdue University, da University of California Santa Barbara, da University of Kansas, da Michigan State University, da University of Helsinki, da University of Manchester e da Rice University, além do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Para a Ufopa, o resultado tem peso institucional. “A publicação representa um importante reconhecimento internacional da produção científica desenvolvida na Ufopa e reforça o protagonismo da universidade nas pesquisas sobre Amazônia, mudanças climáticas, conservação ambiental e povos indígenas”, avalia Machado.

A Nature Sustainability publica pesquisa original sobre sustentabilidade, suas dimensões políticas e soluções práticas, em ciências naturais, ciências sociais e engenharia, e está entre os periódicos científicos de maior prestígio no mundo. O artigo completo, em inglês, exige cadastro no periódico para leitura e pode ser acessado aqui.

Quem quiser detalhes da pesquisa pode escrever ao professor pelo endereço wilderclay.machado@ufopa.edu.br.

Autoria do estudo:

Gabriel de Oliveira, Erin Koster, Beto Marubo, Livia Maira Orlandi Laureto, Carlos A. Nobre, Beatriz M. Funatsu, Rachel Geber-Corrêa, Cléo Quaresma Dias-Júnior, Deborah Delgado Pugley, Zoe Amie Pierrat, Marco Heredia-R, Douglas Christopher Morton, Amanda Hoffman-Hall, Lucas Maure, Qianlai Zhuang, Torsten Krause, Taciana de Carvalho Coutinho, Guilherme Mataveli, Nathaniel A. Brunsell, Leonardo G. Ziccardi, Imelda K. Moise, Trent Biggs, Scott C. Stark, João Gilberto de Souza Ribeiro, Irene Carniatto, Polyanna da Conceição Bispo, Paulo César de Godoy Junior, Fabien H. Wagner, Helber Barros Gomes, Alecsander Mergen, Fernando De Sales, Alberto Dresch Webler, Caitlyn E. Sutherlin, Celso Augusto Guimarães Santos, Alan Cavalcanti da Cunha, Wilderclay Barreto Machado, Katyelle Ferreira da Silva Bezerra, Eliezer Augusto Litaiff de São Paulo Aguiar, Carlos Antonio Costa dos Santos, Rodrigo Lilla Manzione, Noemi Vergopolan, J. Christopher Brown, Domênica B. de Melo, Eduardo Eiji Maeda, Jório Bezerra Cabral Júnior, Helenilza Ferreira Albuquerque Cunha, Andre Lima, Angela Abascal, Michel E. D. Chaves, Jeferson Alberto de Lima, Ricardo Dalagnol, Vanessa Boanada Fuchs, Matheus Henrique Nunes, Gilberto Fisch, Nara Luisa Reis de Andrade, Hewlley M. Acioli Imbuzeiro, Liana O. Anderson, Damien Arvor, Marcelo Zeri, Lennart Olsson, Celso Von Randow, Mateus Batistella, Paulo Moutinho, Jean Pierre Ometto, Philip M. Fearnside e Paulo Artaxo.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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