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Laura Cardoso morreu aos 98 anos na noite de segunda-feira (17), em casa, no bairro do Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo. A atriz passou mal por volta das 23h20, segundo a filha Fátima Cardoso. A família comunicou a morte na madrugada desta terça-feira (18), pelo perfil oficial dela nas redes sociais.

“Nossa grande estrela se despediu de nós. Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso”, diz a publicação.

O velório está marcado para esta terça, das 8h às 14h, em casa funerária no bairro da Bela Vista, região central da capital paulista. A família não divulgou a causa da morte nem informações sobre o sepultamento.

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni em 13 de setembro de 1927, filha de imigrantes portugueses de Trás-os-Montes, ela cresceu no Bixiga, a poucos quarteirões do lugar onde será velada. A carreira começou aos 15 anos, em 1942, quando enfrentou a resistência dos pais para trabalhar em radionovelas na Rádio Cosmos. A profissão de atriz era mal vista na época, e a oposição materna foi a mais dura de vencer.

Antes disso, o teatro já existia na calçada de casa. Em depoimento ao projeto Memória Globo, ela lembrou a brincadeira que repetia com uma amiga do bairro. “Toda noite a gente vestia a roupa, botava o chapéu, o anel, o brinco da mãe da menina, sentava na calçada e esperava o bonde. Então, a gente brincava, subia no bonde e descia correndo. Esse era o nosso teatrinho de toda noite.”

Sua carreira televisiva começou quando a televisão brasileira estava sendo inventada. Integrou o primeiro time da TV Tupi, ainda na fase dos teleteatros ao vivo, e apareceu em programas como TV de Vanguarda, TV de Comédia e Grande Teatro Tupi. Em 1952 esteve em “Tribunal do Coração”, produzido por Vida Alves, amiga que a chamou para o novo veículo. A estreia em telenovela veio em 1958, como Cosette na primeira adaptação brasileira de “Os Miseráveis”.

De lá para cá foram mais de cem trabalhos, entre eles mais de 60 novelas, marca que fez dela a atriz com mais títulos do gênero no país. Passou pela Tupi, pela Excelsior, pela TV Rio, pela Record, pela Band e pela TV Cultura antes de se fixar na Globo, onde foi contratada em 1983.

Em 1956 recebeu o Troféu Roquette Pinto como atriz revelação, por trabalhos na TV de Vanguarda. Ganhou o Troféu Imprensa duas vezes, em 1963 por “A Noite Eterna” e em 1964 por “Moulin Rouge, a Vida de Toulouse-Lautrec”.

Nos palcos, estreou com 32 anos quando fez “Plantão 21”, em 1959, sob direção de Antunes Filho, depois de já ser conhecida no rádio e na televisão. A parceria com o diretor voltaria décadas mais tarde em “Vereda da Salvação”, de Jorge Andrade, montagem de 1993 que lhe rendeu o segundo Prêmio Shell de melhor atriz. O primeiro tinha vindo em 1990, por “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, de Carlos Alberto Soffredini, em que interpretava a dona de uma companhia de circo.

No cinema, a consagração veio depois dos 70 anos. Em 2000 protagonizou “Através da Janela”, de Tata Amaral, no papel de uma enfermeira aposentada em relação sufocante com o filho. O desempenho foi premiado em festivais e lhe rendeu o Prêmio APCA de melhor atriz de cinema. Venceu três vezes o Prêmio Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais, sempre como atriz coadjuvante, por “Copacabana”, “O Outro Lado da Rua” e “De Onde Eu Te Vejo”.

A Associação Paulista de Críticos de Arte a premiou em televisão, teatro e cinema. Foram cinco troféus, por “Os Apóstolos de Judas”, “Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu”, “Vereda da Salvação”, “Irmãos Coragem” e “Através da Janela”, além do Grande Prêmio da Crítica em 2014. Em 2002 recebeu o Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra na televisão e, em 2023, o Troféu Oscarito, do Festival de Gramado, pela contribuição ao cinema brasileiro. Em novembro de 2006 foi condecorada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a Ordem do Mérito Cultural.

A galeria de personagens explica a longevidade de sua brilhante carreira. Foi a Tereza da Esquina de “As Pupilas do Senhor Reitor”, a Maria Santa de “Sol Amarelo”, a matriarca feirante de “Os Apóstolos de Judas”, a Donana de “Pão Pão, Beijo Beijo”, a Marta de “Fera Radical”, a Cândida de “Felicidade” e a professora aposentada Dona Lila do seriado infantil “Mundo da Lua”, da TV Cultura.

Nos anos 1990 emendou três remakes que a fixaram no imaginário do público. Fez a Isaura de “Mulheres de Areia”, mãe das gêmeas vividas por Glória Pires, em 1993. No ano seguinte, viveu a Guiomar de “A Viagem”, personagem tomada pelo espírito de Alexandre, que passa a perseguir o genro interpretado por Miguel Falabella. Em 1995 foi Sinhana, matriarca de “Irmãos Coragem”.

Depois vieram a vigarista Tia Ruth de “Salsa e Merengue”, a Carmem de “Chocolate com Pimenta”, a autoritária Laksmi de “Caminho das Índias”, a falsa moralista Doroteia de “Gabriela”, a vilã Dona Sinhá de “Sol Nascente” e a Caetana de “O Outro Lado do Paraíso”, dona de bordel que dividiu cena com Lima Duarte e Fernanda Montenegro. A última aparição em novela foi em “A Dona do Pedaço”, em 2019, como a avó Matilde. Também dublou Betty Rubble em “Os Flintstones” nos anos 1960.

Em outubro de 2025 teve o nome gravado na Calçada da Fama inaugurada pelos Estúdios Globo, ao lado de Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Tony Ramos, Antônio Pitanga, Nathália Timberg e Rosamaria Murtinho, entre outras. O trabalho mais recente foi o curta-metragem “Dona Rosinha”, de 2025, sobre o abandono de idosos, em que interpretou uma senhora deixada pela filha em um ponto de ônibus.

A vida pessoal atravessou a carreira sem nunca interrompê-la. Em 1949, quando trabalhava na Rádio Tupi, conheceu o ator e diretor Fernando Balleroni, com quem se casou e teve três filhos. O filho José morreu com três dias de vida, por um problema no sangue. Balleroni morreu em 1980, e ela criou as duas filhas sozinha enquanto sustentava a casa.

Ao programa Damas da TV, avaliou a conta que a profissão cobrou. “É uma carreira sacrificada, você tem que renunciar a uma porção de coisas. Às vezes penso que poderia ter ficado mais perto das meninas. Mas não me arrependo. Não é fácil uma mulher sozinha, que trabalha e tem filhos, dedicar-se inteiramente à família. Mas tive sorte de minha mãe ser excepcional e me ajudar a cuidar delas.”

Durou quase um século a jornada de uma mulher que ajudou a criar a televisão brasileira, que interpretou mais de cem personagens, uma viúva que criou duas filhas sozinha sem largar o ofício um dia sequer, até seu último suspiro. Laura Cardoso construiu cada personagem com a mesma determinação de quem, aos 15 anos, enfrentou a própria mãe para fazer rádio num tempo em que ser atriz era vergonha para uma moça. Foi Isaura, foi Guiomar, foi Sinhana, foi Dona Lila, foi Doroteia, foi Caetana, e foi todas elas com igual seriedade, na novela das nove ou no curta-metragem sobre idosas abandonadas em ponto de ônibus que gravou aos 97. Deu grandeza a mulheres que a dramaturgia costuma deixar no canto da cena, e fez isso sem nunca se comportar como estrela, apesar de, indubitavelmente, ser uma. Obrigada, Laura, a grande dama das artes cênicas brasileira.

Foto em destaque: Redes Sociais / Reprodução

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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