Publicado em: 12 de julho de 2026
A pergunta é provocativa. Como uma banda que atravessou gerações, vendeu centenas de milhões de discos e influenciou artistas dos mais diversos estilos poderia ter enganado justamente aqueles que a transformaram em um dos maiores fenômenos culturais do século XX?
Essa é a pergunta mais honesta que podemos formular diante de sua obra, sobretudo em uma época em que a cultura de massa parece favorecer respostas rápidas e interpretações superficiais. O Pink Floyd ocultou sua filosofia ou fomos nós que aprendemos a ouvir sua música de maneira incapaz de perceber aquilo que ela realmente procurava dizer?
-Você quer dizer que os fãs nunca compreenderam a banda?
Não exatamente. Seria injusto afirmar isso. O problema é outro. Durante décadas, aprendemos a admirar a grandiosidade dos solos de David Gilmour, a genialidade visual das capas concebidas pelo estúdio Hipgnosis e a atmosfera psicodélica dos espetáculos. Transformamos o prisma de The Dark Side of the Moon, o porco inflável de Animals e o muro de The Wall em ícones da cultura popular. Entretanto, poucas vezes perguntamos por que uma banda de rock insistiu, durante tantos anos, em retornar aos mesmos temas: guerra, educação, dinheiro, disciplina, isolamento, alienação, memória, medo e poder.
Suponho que a própria indústria cultural tenha contribuído para essa leitura parcial. O mercado demonstrou extraordinária habilidade para transformar símbolos de contestação em mercadorias desejáveis. Camisetas, pôsteres, edições comemorativas e produtos licenciados difundiram mundialmente a imagem da banda, mas nem sempre estimularam a reflexão sobre aquilo que essas imagens representavam. O símbolo sobreviveu; a crítica tornou-se secundária. Guy Debord observou que a sociedade do espetáculo converte até mesmo a contestação em objeto de consumo. Poucas trajetórias ilustram essa percepção de maneira tão eloquente quanto a do Pink Floyd.
– Mas não seria exagerado atribuir tamanho alcance filosófico a uma banda de rock?
Seria, caso estivéssemos diante de uma banda convencional. O Pink Floyd, entretanto, nunca produziu apenas canções. Trouxe experiências estéticas destinadas a desestabilizar certezas. Roger Waters explicou, em diferentes entrevistas, que The Dark Side of the Moon nasceu da intenção de tratar das pressões universais da existência humana: o tempo, a violência, a morte, a ganância e a loucura. A proposta era escrever um álbum autobiográfico, mas também investigar aquilo que aproxima indivíduos submetidos às tensões da vida moderna. Essa perspectiva ajuda a compreender por que suas obras permanecem atuais décadas depois de terem sido lançadas.
Esse contexto histórico é decisivo. O grupo amadureceu artisticamente em uma Grã-Bretanha marcada pelas transformações do pós-guerra. A prosperidade econômica prometida pelo Estado de bem-estar social começava a revelar suas contradições; a Guerra do Vietnã alimentava uma crescente desconfiança em relação às instituições; a ameaça nuclear permanecia como sombra constante da Guerra Fria; movimentos estudantis questionavam modelos tradicionais de autoridade.
O Pink Floyd absorveu esse ambiente e o converteu em linguagem musical. Em vez de discursos panfletários, preferiu construir paisagens sonoras nas quais a ansiedade, o medo e a alienação pudessem ser experimentados pelo próprio ouvinte.
É justamente aí que reside um dos maiores segredos da banda. O Pink Floyd não se limitou a escrever sobre sentimentos. Sua obra investigou as condições históricas que produzem esses sentimentos. A angústia raramente se justifica pela simples fragilidade individual; a solidão dificilmente surge da incapacidade de amar; o medo não decorre apenas da personalidade.
Em seus álbuns, as emoções possuem história, contexto e estrutura social. Aquilo que frequentemente é compreendido como drama íntimo revela-se consequência de formas de organização econômica, política e cultural que moldam silenciosamente nossa percepção do mundo.
É por isso tantas interpretações tenham reduzido a banda ao universo da psicodelia. A experimentação sonora não constituiu um fim em si mesma. Ela foi utilizada como instrumento para revelar as fissuras da modernidade. Os efeitos sonoros, os longos silêncios, as harmonias lentas e a recusa da simplicidade comercial são recursos filosóficos. No Pink Floyd, a forma também pensa.
Antes mesmo de compreendermos racionalmente uma ideia, somos convidados a senti-la. A música deixa de ilustrar um argumento e passa a construir uma experiência.
– Então o desconforto era intencional?
Receio que seja impossível compreender o Pink Floyd sem admitir essa hipótese. Sua música não procura oferecer conforto antes de romper a familiaridade com o cotidiano. Nesse aspecto, aproxima-se mais da filosofia do que do entretenimento. Enquanto grande parte da indústria fonográfica buscava canções de assimilação imediata, o Pink Floyd exigia do ouvinte algo cada vez mais raro: tempo. Tempo para ouvir, para interpretar e, sobretudo, para suportar a inquietação produzida por perguntas que permanecem sem resposta.
Essa escolha estética não surgiu por acaso. O início da década de 1970 marcou uma inflexão importante na sociedade britânica. O entusiasmo com o crescimento econômico do pós-guerra começava a ceder lugar às incertezas provocadas pela inflação, pelas crises energéticas, pelas greves e pelo desgaste das instituições tradicionais. Ao mesmo tempo, a Guerra Fria mantinha a possibilidade de uma destruição nuclear permanente, enquanto a Guerra do Vietnã alimentava a descrença em discursos oficiais sobre progresso e civilização.
Foi nesse ambiente que nasceu The Dark Side of the Moon.
Roger Waters descreveu, diversas vezes, o álbum como uma reflexão sobre pressões universais que atravessam a existência humana. O medo, a passagem do tempo, a violência, a loucura, a morte e a ganância revelam experiências compartilhadas por indivíduos submetidos às mesmas estruturas sociais. A originalidade do disco consiste justamente em deslocar esses temas da esfera privada para uma dimensão histórica.
As emoções deixam de ser apenas estados psicológicos e passam a revelar o modo como a sociedade organiza a vida cotidiana.
Essa intenção torna-se evidente em Time. O impacto inicial produzido pelos relógios e alarmes não representa um simples efeito sonoro. Antes mesmo que qualquer argumento seja desenvolvido, o ouvinte é lançado em uma experiência de urgência. O tempo deixa de ser uma medida cronológica para transformar-se em mecanismo de disciplina.
A vida moderna aparece organizada por horários, produtividade e expectativas de desempenho que frequentemente impedem o indivíduo de perceber a própria existência enquanto ela acontece. A música não descreve essa sensação; ela a produz.
Michel Foucault demonstrou que as sociedades modernas aperfeiçoaram formas de controle muito mais eficientes do que a coerção direta. Escolas, quartéis, fábricas e hospitais passaram a disciplinar corpos e comportamentos por meio da administração do tempo. O relógio tornou-se instrumento político.
Embora Waters não desenvolva uma teoria filosófica nesses termos, sua composição dialoga intuitivamente com esse diagnóstico. A ansiedade que atravessa Time não nasce apenas do envelhecimento biológico, mas da percepção de que a própria vida pode ser consumida por rotinas cuja finalidade raramente é questionada.
Se Time investiga a experiência temporal, Money desloca a reflexão para outro eixo fundamental da modernidade: a mercantilização das relações humanas. A abertura construída com sons associados às transações econômicas transforma o dinheiro em matéria musical. A escolha é decisiva. Antes mesmo da entrada da voz, a lógica do cálculo já ocupa o espaço da audição.
A economia deixa de constituir um tema externo e passa a organizar a própria experiência estética do ouvinte.
Guy Debord observou que o capitalismo avançado não produz apenas mercadorias, mas também formas de percepção. A realidade passa a ser mediada por imagens, valores de troca e representações espetacularizadas.
Money antecipa essa percepção ao sugerir que o dinheiro ultrapassa sua função econômica para reorganizar afetos, expectativas e critérios de reconhecimento social. A crítica não se dirige simplesmente à riqueza, mas ao processo pelo qual praticamente toda relação humana corre o risco de ser traduzida em equivalência monetária.
Aposto que seja por isso que o álbum permaneça tão atual. A sociedade digital radicalizou processos que o Pink Floyd apenas começava a perceber. Hoje, algoritmos transformam atenção em mercadoria; plataformas convertem comportamentos em dados; redes sociais monetizam emoções, preferências e vínculos afetivos.
O cálculo econômico tornou-se ainda mais invisível justamente porque passou a integrar gestos aparentemente espontâneos do cotidiano. O disco continua contemporâneo porque descreve mecanismos cuja sofisticação apenas aumentou nas décadas seguintes.
Essa preocupação alcança outro patamar em Us and Them. A separação entre “nós” e “eles” não aparece restrita ao campo militar. Ela atravessa fronteiras nacionais, disputas ideológicas, divisões de classe e processos permanentes de exclusão.
O conflito deixa de ser exceção para tornar-se princípio organizador das sociedades modernas. Em vez de heroísmo, a guerra revela burocracia; em vez de glória, produz anonimato; em vez de pertencimento, aprofunda distâncias.
Ao final do álbum, Brain Damage e Eclipse conduzem o ouvinte à conclusão de que nenhuma dessas experiências pode ser compreendida isoladamente. Tempo, dinheiro, violência, medo e identidade formam um mesmo sistema de relações.
A aparente fragmentação da vida moderna oculta mecanismos profundamente interdependentes. Creio que seja essa a maior realização artística do Pink Floyd: mostrar que aquilo que chamamos de problemas individuais frequentemente possui causas históricas e sociais muito mais amplas do que estamos dispostos a reconhecer.
Seria um equívoco compreender Wish You Were Here apenas como um álbum sobre nostalgia. A saudade que atravessa suas composições não se dirige simplesmente a um amigo perdido. Ela interroga um fenômeno muito mais amplo: o desaparecimento do indivíduo dentro de estruturas que transformam talento, imaginação e sensibilidade em recursos econômicos.
Syd Barrett torna-se, ao mesmo tempo, uma pessoa concreta e um símbolo histórico. A trajetória de Barrett ilustra uma das grandes contradições da cultura contemporânea. Dotado de extraordinária criatividade, participou decisivamente da construção da identidade inicial do Pink Floyd. Contudo, à medida que seus problemas de saúde mental se agravaram, tornou-se incapaz de acompanhar o ritmo imposto pela indústria musical.
Sua saída da banda costuma ser narrada como uma tragédia pessoal, mas também deve ser compreendida como um sintoma de um ambiente artístico cada vez mais submetido à lógica da produtividade e do sucesso comercial.
Quando Roger Waters afirmou, em diferentes entrevistas ao longo dos anos, que Wish You Were Here representava uma reflexão sobre a ausência de Barrett, não reduziu essa ausência a uma experiência exclusivamente biográfica. Barrett permanecia vivo, mas já não ocupava o mesmo lugar no mundo.
Essa condição confere ao álbum uma dimensão universal. Todos conhecemos pessoas que continuam fisicamente presentes, mas que parecem ter sido lentamente afastadas da convivência, consumidas pelo sofrimento, pelo isolamento, pelo trabalho ou pelas exigências de uma sociedade que mede o valor das pessoas por sua capacidade permanente de produzir.
É justamente nesse ponto que Welcome to the Machine adquire importância decisiva. A máquina evocada pela composição não é apenas um aparato tecnológico. Ela representa um sistema de expectativas que antecede o próprio artista.
Antes mesmo que alguém componha sua primeira canção, já encontra um conjunto de regras sobre sucesso, rentabilidade, visibilidade e desempenho. O indivíduo acredita estar ingressando em um espaço de liberdade criativa, mas frequentemente descobre que sua originalidade será avaliada segundo critérios de mercado.
Essa percepção aproxima o álbum das reflexões desenvolvidas por Theodor Adorno e Max Horkheimer acerca da indústria cultural. Para esses autores, a cultura moderna deixa de ser apenas expressão artística para integrar mecanismos de produção e circulação submetidos às mesmas racionalidades econômicas presentes em outros setores da sociedade.
A criatividade continua existindo, mas passa a conviver com pressões permanentes de padronização, previsibilidade e rentabilidade.
Have a Cigar aprofunda essa crítica ao deslocar o foco para a linguagem empresarial que cerca a produção artística. A figura do executivo retratada na composição pouco se interessa pela experiência estética ou pela singularidade dos músicos. O que importa é a capacidade de transformar talento em produto e reconhecimento em lucro.
A ironia da canção reside precisamente em revelar que a indústria pode celebrar um artista sem jamais compreendê-lo. O discurso do sucesso torna-se indiferente ao conteúdo da obra.
Décadas depois, Mark Fisher identificaria um fenômeno semelhante ao analisar o capitalismo contemporâneo. Em vez de eliminar toda forma de contestação, o sistema revela extraordinária capacidade para absorvê-la, convertendo rebeldia em identidade comercial, diferença em nicho de mercado e crítica em estratégia de marketing.
Sob essa perspectiva, o destino do próprio Pink Floyd adquire contornos paradoxais. O prisma de The Dark Side of the Moon, concebido para acompanhar um álbum que problematiza a ansiedade, a ganância e a alienação, tornou-se uma das imagens mais reproduzidas da cultura popular.
A crítica ao consumo converteu-se em objeto de consumo. À primeira vista, essa transformação poderia parecer uma derrota. Talvez seja exatamente o contrário. Ela confirma a lucidez do diagnóstico formulado pela própria banda. O capitalismo não precisa destruir todas as críticas dirigidas contra ele. Muitas vezes, basta incorporá-las, reorganizá-las esteticamente e devolvê-las ao mercado sob a forma de mercadorias desejáveis.
O sistema demonstra sua força não apenas quando silencia seus opositores, mas também quando consegue transformar a oposição em parte de seu próprio funcionamento.
Essa contradição explica por que Wish You Were Here permanece tão atual. O álbum fala da indústria fonográfica dos anos 1970, mas também das plataformas digitais do século XXI.
Hoje, músicos, escritores, professores, pesquisadores e criadores de conteúdo convivem diariamente com métricas, algoritmos, índices de engajamento e mecanismos permanentes de visibilidade. A máquina mudou de aparência, mas continua produzindo a mesma pergunta:
Até que ponto ainda somos autores de nossas próprias escolhas quando nossa criatividade depende continuamente da lógica do mercado?
Se The Dark Side of the Moon investiga as pressões invisíveis da vida cotidiana e Wish You Were Here examina a transformação da criatividade em mercadoria, Animals desloca a atenção para a própria organização da sociedade.
Inspirado livremente na estrutura alegórica de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, o álbum abandona qualquer expectativa de neutralidade. A pergunta deixa de ser por que sofremos e passa a ser: quem se beneficia desse sofrimento?
Não se trata de uma adaptação do romance de Orwell. Roger Waters utiliza a metáfora dos animais para refletir sobre relações de poder que atravessam o capitalismo tardio. Os cães simbolizam a competição permanente; os porcos representam as elites políticas e econômicas; as ovelhas encarnam a conformidade produzida por instituições que naturalizam a obediência.
A alegoria, contudo, não descreve indivíduos específicos, pois representa funções sociais. Qualquer pessoa pode ocupar uma dessas posições, dependendo das circunstâncias históricas.
Essa percepção aproxima o álbum das análises de Michel Foucault. O poder não pertence exclusivamente ao Estado ou aos governantes. Ele circula por escolas, empresas, famílias, meios de comunicação e práticas cotidianas. Manifesta-se pela repressão, mas também pela produção de comportamentos considerados normais.
O Pink Floyd parece compreender intuitivamente que a dominação mais eficiente é aquela que deixa de parecer dominação.
Em Dogs, a competição transforma-se em princípio organizador da existência. O sucesso exige vigilância constante, cálculo estratégico e desconfiança permanente. O indivíduo aprende a adaptar sua personalidade às exigências do mercado até o ponto em que já não distingue aquilo que escolheu daquilo que lhe foi imposto.
A liberdade permanece no discurso, enquanto a sobrevivência depende da capacidade de competir.
Pigs dirige a crítica às elites que convertem privilégios em mérito e autoridade em legitimidade. Waters evita apresentar o poder como simples resultado da força. Ele mostra que toda dominação duradoura depende também de narrativas capazes de convencer os dominados de que a ordem existente é inev起vel.
Nesse aspecto, a crítica da banda dialoga com Orwell e com Hannah Arendt, para quem a estabilidade dos regimes repousa tanto na aceitação cotidiana quanto na coerção.
É, porém, em Sheep que surge uma das imagens mais desconcertantes do álbum. A passividade coletiva não decorre de incapacidade intelectual, mas da repetição contínua de hábitos, medos e expectativas que tornam a obediência aparentemente natural.
O conformismo revela-se uma construção histórica, não uma característica inerente ao ser humano.
Dois anos depois, The Wall amplia essa investigação. O muro que dá nome ao álbum raramente é uma barreira física. Ele representa o acúmulo de experiências de dor, violência, perda e autoritarismo que, pouco a pouco, isolam o indivíduo do mundo.
Cada trauma acrescenta um novo tijolo. Nenhum deles, isoladamente, explica o isolamento. É a sua sedimentação ao longo da vida que produz a ruptura.
Ao construir essa narrativa, Waters evita reduzir o protagonista a uma figura clínica. Seu interesse principal recai sobre os mecanismos sociais que tornam esse isolamento possível.
A escola é espaço de padronização; a guerra, fábrica de traumas; a família, instituição simultaneamente protetora e disciplinadora; a fama, experiência capaz de aprofundar a solidão.
O sofrimento individual possui causas que ultrapassam a psicologia. Nesse ponto, podemos estabelecer um diálogo também com Louis Althusser e sua análise dos aparelhos ideológicos do Estado.
Para Althusser, instituições como escola, família, religião e meios de comunicação participam da reprodução das estruturas sociais ao transmitir valores, normas e formas de interpretação da realidade. O indivíduo não é moldado apenas pela repressão direta, mas também por processos cotidianos de formação da consciência.
Essa perspectiva ajuda a compreender a força simbólica de The Wall. O muro não é construído apenas por acontecimentos traumáticos particulares; ele também é resultado de instituições que, mesmo cumprindo funções sociais importantes, podem produzir conformidade, disciplina e adaptação.
Essa compreensão aproxima The Wall de uma pergunta que continua atual: de que maneira sociedades tecnologicamente avançadas produzem indivíduos cada vez mais isolados?
Hoje, os muros já não são erguidos apenas por instituições tradicionais. Eles também são construídos por algoritmos que selecionam aquilo que vemos, por plataformas que transformam atenção em mercadoria e por ambientes digitais que substituem o diálogo pela confirmação permanente das próprias convicções.
Essa é a seta de continuidade entre os anos 1970 e o presente. Mudaram as tecnologias, mudaram os discursos e mudaram as formas de consumo. Contudo, permanecem os mecanismos pelos quais o poder organiza o tempo, mercantiliza relações, produz identidades e administra desejos.
O Pink Floyd antecipou acontecimentos específicos e processos históricos que continuam moldando a experiência contemporânea.Por isso, reduzir o Pink Floyd à condição de símbolo da psicodelia significa ignorar o alcance de sua obra. Seus álbuns constituem uma investigação sobre a modernidade, suas promessas e seus fracassos. A música torna-se um instrumento para compreender aquilo que frequentemente permanece oculto sob a aparência da normalidade.
O tema do Pink Floyd foi o rock, mas também a condição humana em uma sociedade organizada pelo poder, pela mercadoria e pela permanente disputa pela consciência dos indivíduos. Chegamos, então, à pergunta que abriu este ensaio: O Pink Floyd enganou você?
Creio que a própria pergunta contenha uma armadilha. Ela parte da hipótese de que a banda teria escondido uma verdade cuidadosamente disfarçada sob solos de guitarra, efeitos sonoros e espetáculos grandiosos.
Entretanto, quanto mais nos aproximamos de sua obra, mais percebemos que praticamente nada esteve oculto. As guerras estavam ali, o dinheiro estava ali, a alienação estava ali, o sofrimento psíquico estava ali, a indústria cultural estava ali. As relações de poder também.
O problema não foi a falta de clareza da banda, mas nossa disposição para ouvir aquilo que suas obras efetivamente diziam.
Durante décadas, milhões de pessoas cantaram suas músicas, vestiram camisetas com o prisma de The Dark Side of the Moon, penduraram pôsteres de The Wall e reconheceram instantaneamente o porco inflável sobre a antiga usina elétrica de Battersea.
Poucos símbolos do século XX alcançaram tamanho reconhecimento. Contudo, quanto mais esses símbolos circulavam pelo mercado, mais pareciam perder sua capacidade de provocar desconforto.
A indústria cultural realizou um movimento quase perfeito: transformou uma crítica à mercantilização em mercadoria global. Aquilo que denunciava o espetáculo converteu-se em parte dele.
Guy Debord enxergou nesse processo a confirmação de sua própria análise sobre a sociedade do espetáculo. Herbert Marcuse provavelmente observaria a extraordinária capacidade das sociedades industriais avançadas de absorver a contestação sem permitir que ela alterasse significativamente suas estruturas.
Mark Fisher veria aí uma demonstração da facilidade com que o capitalismo contemporâneo transforma rebeldia em identidade comercial. O próprio destino do Pink Floyd parece reunir essas interpretações em uma única história.
Mas reduzir a obra da banda a uma crítica do capitalismo seria igualmente insuficiente. O que seus álbuns investigam é algo mais profundo: a condição humana quando todas as dimensões da existência passam a ser atravessadas por mecanismos de administração do tempo, do desejo, da memória e da percepção.
O velocino de ouro de suas composições está além da economia e da política. É a experiência de viver em um mundo no qual até mesmo nossa subjetividade pode ser organizada por estruturas que raramente percebemos.
É por isso seus discos envelheçam tão lentamente. As tecnologias mudaram, os governos se sucederam, o muro de Berlim caiu, a Guerra Fria terminou e a internet transformou radicalmente a comunicação humana.
Entretanto, continuamos convivendo com ansiedade crônica, aceleração permanente, vigilância difusa, mercantilização das relações sociais e crescente dificuldade para distinguir necessidades reais de desejos cuidadosamente produzidos. Mudaram os instrumentos; permaneceram os mecanismos.
É nesse ponto que a obra do Pink Floyd encontra um inesperado diálogo com o presente. Se antes o poder precisava de fábricas, quartéis, escolas e emissoras de televisão para organizar comportamentos, hoje algoritmos, plataformas digitais e sistemas de recomendação desempenham parte dessa função de maneira quase invisível.
Não somos apenas consumidores de mercadorias; tornamo-nos produtores involuntários de dados, perfis e padrões de comportamento que alimentam novas formas de acumulação econômica.
A vigilância raramente se apresenta como coerção. Ela se oferece como conveniência e segurança. A disciplina assume a aparência de liberdade, e o controle veste a linguagem da personalização. Nesse cenário, a música do Pink Floyd deixa de pertencer exclusivamente aos anos 1970. Ela passa a funcionar como uma espécie de arqueologia do presente.
Ao investigar o nascimento de mecanismos que hoje parecem naturais, seus álbuns ajudam a compreender por que determinadas formas de sofrimento continuam se repetindo, apesar das profundas transformações tecnológicas ocorridas nas últimas décadas.
A banda, semelhante ao complexo de Cassandra, parecia prever o futuro, mas, na realidade, via suficientemente bem o seu próprio tempo para identificar processos históricos cuja lógica continuaria operando muito depois de seu surgimento.
O legado precioso do grupo é demonstrar que a arte pode exercer uma função crítica sem recorrer ao panfleto; que uma composição musical pode produzir reflexão filosófica; que uma experiência estética pode revelar estruturas de poder invisíveis ao discurso cotidiano.
A música deixa de ser simples entretenimento para tornar-se conhecimento. Por isso, a pergunta inicial precisa finalmente ser reformulada.
O Pink Floyd não enganou ninguém. Fomos nós que aprendemos a escutar apenas a melodia quando a banda nos convidava a ouvir a história; admiramos o espetáculo quando ela investigava o poder; contemplamos o prisma enquanto esquecíamos a luz que o atravessava.
É por isso que continuamos voltando às suas canções. Eles não trazem respostas definitivas, mas insistem em formular perguntas que cada geração acredita já ter resolvido. Sempre que o mundo parece diferente, descobrimos que aquelas perguntas continuam estranhamente atuais.
O segredo do Pink Floyd não estava escondido em mensagens cifradas, simbolismos esotéricos ou mitologias construídas por seus fãs. Sua mensagem sempre foi mais simples e, exatamente por isso, mais perturbadora: mostrar que os muros mais resistentes não são feitos de concreto; são construídos dentro da linguagem, da memória, dos hábitos e das certezas com que aprendemos a interpretar o mundo.
Enquanto esses muros permanecerem de pé, continuaremos precisando ouvir o Pink Floyd para recordar o passado, compreender o presente e edificar o futuro.
REFERÊNCIAS
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PINK FLOYD. The Wall. Produção: Pink Floyd. Londres: Harvest Records, 1979. 2 discos sonoros.
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WRIGHT, Richard; MASON, Nick; GILMOUR, David. Entrevistas reunidas em documentários e edições comemorativas da discografia do Pink Floyd.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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